Na próxima quarta-feira (10), das 8h às 17h, o Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na rua Engenheiro Luiz Englert, 333, no Bairro Farroupilha, em Porto Alegre, receberá a Plenária das Mulheres e Juventudes nos Biomas – edição dedicada ao Pampa.
O evento é gratuito, aberto ao público mediante inscrição prévia pelo link, e integra um ciclo nacional articulado pelo Ministério das Mulheres e pela Secretaria-Geral da Presidência da República, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve). A iniciativa nasceu a partir das demandas levantadas na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém, no Pará.
O projeto percorre seis cidades no país ao longo do primeiro semestre de 2026, com o objetivo de ampliar a participação social, consolidar processos de formação sobre justiça climática e produzir subsídios para políticas públicas, com atenção especial aos recortes de gênero, raça e juventudes. A plenária do Pampa é a última do ciclo.

Um bioma invisibilizado
O Pampa se estende por 83,3 milhões de hectares entre Argentina, Brasil e Uruguai, ocupando 4,7% do território sul-americano. No Brasil, está presente exclusivamente no Rio Grande do Sul, onde representa cerca de 63% da área do estado. Apesar da extensão, o bioma acumula o menor índice de proteção legal entre os biomas brasileiros. Atualmente, apenas 3% do território do Pampa estão inseridos em unidades de conservação.
A pressão sobre a vegetação nativa é contínua. De acordo com estudo do MapBiomas, em 2024, 45,6% do Pampa estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico que implicou na destruição dos campos nativos, com predominância da agricultura (41%) e da silvicultura (4%). O uso pastoril dos campos para produção pecuária é benéfico para sua conservação da biodiversidade.
O Relatório Anual do Desmatamento de 2024 apontou queda de 42% no desmatamento do Pampa em relação a 2023. Mas o professor Valério Pillar, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Ufrgs, chama atenção para uma limitação metodológica relevante. Os sistemas de detecção automática identificam supressão em áreas de floresta, mas o Pampa é predominantemente formado por campos. Segundo Pillar, o desmatamento de florestas no bioma nunca foi o principal problema – as principais ameaças são as monoculturas, sobretudo da soja, e a silvicultura de eucalipto, que avançam sobre zonas campestres.
A Coalizão de entidades socioambientais que contestou a leitura governamental aponta que o MapBiomas informa perda de cerca de 140 mil hectares de vegetação nativa campestre a cada ano no Rio Grande do Sul, entre 2012 e 2023, em grande parte pela conversão em monoculturas agrícolas, sobretudo de soja, sem evidências de que esse quadro tenha sido alterado significativamente em 2024.
Heinrich Hasenack, coordenador da pesquisa do MapBiomas no Pampa, avalia que o nível de transformação das paisagens do Pampa demanda uma reflexão sobre o futuro do bioma, destacando que a vegetação nativa é importante para o equilíbrio ecológico e para a proteção contra os efeitos das mudanças climáticas. Hasenack aponta ainda que, na percepção da sociedade, o fato de a vegetação campestre não ter a mesma exuberância das florestas tropicais contribui para que a perda dessa cobertura nativa não gere o mesmo impacto do que o desmatamento florestal provoca.
Quem paga a conta da crise climática
A questão de quem sofre mais os impactos das mudanças climáticas está no centro do debate que chega a Porto Alegre. As mudanças climáticas não apenas expõem as desigualdades sociais e econômicas entre pessoas e comunidades, mas também as perpetuam e as exacerbam. Mulheres rurais, jovens e pessoas em situação de pobreza compõem o perfil de quem mais arca com os efeitos da crise climática, apesar de serem os grupos que menos contribuíram historicamente para as emissões.
No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 tornaram isso concreto. Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre os impactos das cheias no estado registra atenção especial a mulheres, crianças e adolescentes, indígenas, quilombolas, pessoas trabalhadoras da reciclagem, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e deslocados climáticos como grupos com vulnerabilidades específicas durante os desastres. O mesmo relatório destacou consequências para a economia solidária, concretamente no artesanato produzido por mulheres, e as consequências das inundações para a saúde mental da população.
Desde o rompimento da barragem de Mariana até as cheias no Rio Grande do Sul, as mulheres têm sido protagonistas na resistência e nas ações de recuperação dos territórios, enfrentando desafios que envolvem questões de gênero, racismo e as desigualdades estruturais de seus territórios. Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), as mulheres que se articulam politicamente têm se engajado em ações para garantir que suas comunidades sejam mais resilientes e que os direitos das mulheres sejam respeitados durante processos de reconstrução.
Em muitas comunidades rurais, as mulheres são as gestoras da água e da segurança alimentar. Quando o rio morre ou a terra seca, a mulher precisa caminhar distâncias maiores para buscar água ou não consegue mais plantar o alimento da família. Apesar de serem as mais impactadas, as mulheres possuem pouca representação nas esferas decisórias.
O que ficou da COP30
A plenária de Porto Alegre nasce diretamente do compromisso de dar continuidade ao que foi debatido em Belém. No dia 22 de novembro de 2025, ocorreu a aprovação do Pacote de Belém por 195 países, que aprovaram 29 decisões por consenso, avançando em transição justa, financiamento da adaptação, comércio, gênero e tecnologia.
Entre as decisões aprovadas, uma diz respeito diretamente ao público-alvo do evento em Porto Alegre. Os países aprovaram um Plano de Ação de Gênero que amplia o orçamento e o financiamento sensíveis ao gênero e promove a liderança de mulheres indígenas, afrodescendentes e rurais. O Plano de Ação de Gênero de Belém, adotado para o período 2026-2034, coloca a igualdade de gênero no centro da política climática, abrangendo participação, dados, financiamento e tecnologia.
O documento também prevê o uso de mecanismos de segurança, proteção e apoio para mulheres, considerando fatores multidimensionais, especialmente defensoras ambientais e mulheres envolvidas na ação climática, além de investimentos em capacitação de lideranças femininas.
Para as organizações da sociedade civil, no entanto, os avanços foram parciais. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) avaliou que as decisões tomadas não respondem com a ambição necessária ao tamanho do desafio climático, e que o financiamento climático deveria ser público, justo, acessível e livre de dívida para que uma transição verdadeiramente equitativa fosse possível. A entidade reconheceu, porém, a força dos movimentos sociais que ocuparam Belém e apontaram caminhos concretos para a justiça climática.
Como funciona a plenária
A estrutura do evento em Porto Alegre reproduz o formato adotado nas demais edições do ciclo. A programação começa às 8h com credenciamento e acolhimento, seguido de uma atração cultural às 9h. Das 9h15 às 10h15, ocorre a mesa de abertura político-institucional, com falas do Ministério das Mulheres, da Secretaria Nacional de Juventude e de parceiras locais e representações territoriais, abordando o sentido político do ciclo, os acúmulos de 2025 e o horizonte de 2026.
Das 10h15 ao meio-dia, acontece o Painel 1 – Território, Justiça Climática e Desigualdades, reunindo movimentos sociais, academia e poder público local para uma leitura territorial do bioma, com espaço para perguntas e intervenções do público. Após o almoço, das 13h30 às 15h, os participantes se dividem em grupos de trabalho orientados por perguntas específicas, com facilitação e relatoria padronizada. A plenária de síntese encerra o dia entre 15h30 e 17h, com apresentação das convergências, prioridades políticas e próximos passos levantados pelos grupos.
A proposta inclui a identificação de desafios e prioridades em cada bioma, o mapeamento de soluções e boas práticas já existentes e a produção de subsídios para políticas públicas, além da elaboração de um documento final de sistematização.
Em edições anteriores do ciclo, realizadas em outros biomas, o formato gerou insumos que deverão compor os debates sobre políticas públicas climáticas ao longo de 2026. Na plenária da Caatinga, realizada no Nordeste, as discussões evidenciaram que a defesa dos territórios está diretamente relacionada à garantia de direitos, à preservação da biodiversidade e ao fortalecimento das comunidades locais, com destaque para a necessidade de ampliar a participação das mulheres e das juventudes nos espaços de decisão política e social.
Serviço
Plenária das Mulheres e Juventudes nos Biomas – Pampa
Data: 10 de junho de 2026
Horário: 8h às 17h
Local: Centro Cultural da UFRGS — Rua Engenheiro Luiz Englert, 333, Campus Centro, Bairro Farroupilha, Porto Alegre (RS)
Entrada: gratuita, com inscrição prévia pelo link
