ENTREVISTA

‘Falência da gestão ambiental aumenta impacto de desastres no RS’, diz Rualdo Menegat

Professor da UFRGS relaciona negacionismo ao desmantelamento de programas e iniciativas pioneiras no RS

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Ambientalista Rualdo Menegat
Ambientalista Rualdo Menegat (UFRGS) | Crédito: Foto: Reprodução Podcast De Poa

Os gestores nos municípios e no Estado falham ao enfrentar a emergência das mudanças climáticas. A análise é do geólogo, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, Rualdo Menegat. Para ele, a condução dos governantes após as enchentes de 2024 falha ao olhar apenas para a recuperação, deixando de lado a urgência da preparação para novos eventos climáticos adversos. Nessa entrevista para o Sul21, alusiva ao 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, o professor ainda relaciona o negacionismo ao desmantelamento de programas e iniciativas pioneiras no RS, como a criação, em 1972, da Fundação Zoobotânica, extinta em 2016, pela gestão do governador José Ivo Sartori (MDB).

Sul21 – Qual é o papel do ambientalismo hoje?

Rualdo Menegat – É estratégico para a sobrevivência humana. Durante muito tempo, o ambientalismo foi importante para a melhoria da qualidade de vida, para termos ar e água mais puros, e chamar a atenção para a degradação ambiental muito acelerada que estava acontecendo no planeta. Aliás, foi isso que fez surgir o ambientalismo, quando, depois da Segunda Guerra Mundial, a cidadania, olhando o lugar em que vivia, se deu conta do estado de degradação proporcionado pela intensa industrialização e o uso de agrotóxicos, que iam trazendo poluentes para o ambiente.

Mas hoje o ambientalismo tem outra função, além desta, porque a degradação ambiental continua a passos largos. O ambiente em que vivemos atravessa uma das suas mais importantes crises, desde que se iniciou o processo da modernidade e da intensa industrialização a partir da idade moderna no Renascimento.

O ambientalismo tem hoje a função de alertar a sociedade e chamar atenção para a crise que vivemos, que pode colocar em risco não só a qualidade de vida hoje, mas a própria sobrevivência não apenas da espécie humana, mas também, das demais espécies da vida. Nesse momento o ambientalismo deveria ser considerado uma das principais matérias e questões da política e do cotidiano. O ambientalismo hoje tem a ver com a continuidade da existência humana no nosso planeta.

Sul21 – E como o meio ambiente vem sendo tratado aqui no Rio Grande do Sul?

O momento é muito difícil, por conta do desastre climático de 2024, que só nos mostrou o estado de insuficiência da gestão ambiental e da gestão do território do nosso estado. Diferentemente do que se possa pensar, o desastre de 2024 não foi um resultado pura e simplesmente de uma intensa precipitação pluviométrica. Se 800 milímetros de chuva caíssem no Oceano Atlântico nesse momento, quem ficaria sabendo? O desastre foi produzido pelo modo como ocupamos o território.

Por exemplo, toda Região Metropolitana habita uma área baixa de terras úmidas em que se concentram as águas que provêm dos rios e afluentes do Planalto Meridional. É uma região crítica. E ainda assim não temos programas de gestão ambiental metropolitanos. A Metroplan foi desativada, assim como a Fundação Zoobotânica e a Fundação de Economia e Estatística, ou seja, toda a inteligência do Estado, que foi duramente conquistada em grande parte pelo esforço do movimento ambientalista do Rio Grande do Sul, que é um movimento pioneiro. Todo esse esforço foi desmantelado por conta da desestruturação das leis ambientais, das estratégias e da inteligência de organização territorial. No momento em que nós temos que enfrentar a emergência climática, a principal questão que deveria ser observada é o fator local, que depende da gestão ambiental.

Então vemos dificuldades na gestão ambiental local, seja no uso intensivo dos agrotóxicos, seja no desmantelamento de programas de gestão ambiental e de fiscalização. Isso gera, como consequência, mais dificuldade e desmantelamento da gestão de nossas bacias hidrográficas, a deterioração dos nossos mananciais e o rebaixamento impressionante da qualidade da água que hoje é ofertada para a população nas pequenas e grandes cidades.

A gestão ambiental no estado do Rio Grande do Sul está falimentar. E é exatamente a falência da gestão ambiental que aumenta o impacto dos possíveis desastres relacionados com a emergência climática.

Sul21 – As enchentes de 2024 nos deixaram lições sobre os efeitos das mudanças climáticas?

O desastre de 2024 foi uma grande lição no sentido de mostrar o quanto estamos longe de termos um programa de gestão de riscos para o enfrentamento das mudanças climáticas. E isso deve ser começado desde já. A atenção toda no pós-desastre foi para reconstruir pontes, estradas e escolas. Claro que precisamos reconstruir e retomar a nossa vida. Mas, como estratégia, precisamos de uma tomada de consciência de como diminuir os riscos de forma paulatina, e isso então não tem acontecido.

Desde que o tema das mudanças climáticas passou a se configurar, pensava-se que era um problema dos netos. Mas é uma questão que está posta na mesa hoje. E o modo como entendemos esse problema é que vai definir o nosso futuro. O negacionismo sugere que é um problema do futuro, mas, se nós negarmos as mudanças climáticas, vamos tornar o futuro ainda pior.

Sul21 – As peculiaridades do território gaúcho exigem mais preparação?

A situação geográfica do RS é crítica. De um lado, temos a possibilidade de eventos extremos relacionados à precipitação pluviométrica e, de outro, também de grandes secas. Além disso, temos os ciclones extratropicais e a possibilidade de grandes ressacas em toda a nossa orla.

Pela posição geográfica do Rio Grande do Sul, temos mais de dez ameaças relacionadas à emergência climática. Por isso, temos que formar outra consciência sobre o que significa habitar aqui. Podemos habitar o território gaúcho assim como podemos viajar de avião. Andamos de avião não porque o perigo é suprimido – pois estar a dez mil metros de altura sempre é muito perigoso–, mas porque o risco é pequeno. Da mesma forma, podemos habitar o território do Rio Grande do Sul, desde que tenhamos consciência de que é preciso diminuir o risco.

Sul21 – O que deveria ser diferente nas gestões?

São medidas de médio e longo prazo, uma mudança de cultura. Não adianta fazer diques nas regiões baixas de Porto Alegre e na Região Metropolitana, se não conseguimos medidas de contenção da água na região do Planalto e das cabeceiras, e não com represas. Essas não são estratégias adequadas.

Precisamos ter um outro modo de ocupar a terra, de plantar, de pensar o nosso território, de maneira que tenhamos um plano global e integrado de viver no Rio Grande do Sul. Vivemos no Rio Grande do Sul de uma maneira fragmentada: cada um na sua região. E não está sendo formada uma integração regional por meio das bacias hidrográficas que nos permita sentir que somos capazes de enfrentar os riscos advindos da emergência climática.

Recentemente, só o anúncio de um super El Niño deixou toda a população em estado de profunda ansiedade. Isso ocorre porque a população não está percebendo medidas que consigam mostrar para ela que temos possibilidades de enfrentar situações críticas lá na frente. Nesse dia 5 de junho, o Dia do Meio Ambiente, precisamos transformar a ansiedade em questões práticas, em mais programas de controle do risco.

A gente tem que saber prever o que fazer no caso de inundações. É saber para onde ir, onde abrigar as crianças, os idosos, as pessoas vulneráveis. Tem que antever. Mas não são soluções individuais, dependem também da estrutura do Estado, de políticas e dos governantes.

Editado por: Sul21
Conteúdo originalmente publicado em: Sul21

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