Para onde ir?

‘A ONU nunca esteve numa crise tão profunda de legitimidade’, aponta analista internacional

Giancarlo Summa considera a crise da ONU, sem precedentes, e tem tanto viés político quanto financeiro

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Crédito: LEONARDO MUNOZ / AFP
Tela de votação da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU em Nova York. | Crédito: Leonardo Munoz / AFP

Com a Organização das Nações Unidas (ONU) em crise e o mundo vivendo diversos conflitos armados, qual o futuro da diplomacia e das rlações internacionais? Para responder a essas perguntas, o BdF Entrevista desta sexta-feira (5) recebeu Giancarlo Summa, diretor do Instituto Latino-Americano Para o Multilateralismo (Ilam) e pesquisador da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

Summa reconhece que os ataques, especialmente vindos dos Estados Unidos, que colocam em xeque seu papel global, são os piores da história da instituição. “A ONU nunca esteve numa crise tão profunda, tão grave, uma crise complexa de legitimidade política e de financiamentos, de falta de recursos. Nunca teve uma crise parecida em mais de 80 anos de funcionamento da organização. O secretário-geral atual, António Guterres, está no último ano do seu mandato. Ele já declarou que a ONU está numa corrida para a falência do ponto de vista econômico, mas o problema mais grave é possivelmente o problema político, ou seja, os países mais influentes na ONU, os integrantes do Conselho de Segurança, os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, os chamados P5: Estados Unidos, Rússia, China, França, Grã-Bretanha. E parece, em graus diferentes, terem se distanciado da ONU. Parece não acreditar mais na organização. Parcialmente, com exceção da China. E os Estados Unidos, que foram o país que foi fundamental na criação da ONU, em 1945, foram essencialmente uma iniciativa dos Estados Unidos naquela época,. Mas, logo em seguida, já vinham atacando, enfraquecendo a ONU de várias formas, pelo menos desde 1980, desde o fim da presidência de Jimmy Carter, décadas atrás, quase 46 anos atrás”, relata.

“As principais potências mundiais parecem ter abandonado a ideia de que a ONU possa ter uma serventia para as questões de paz e segurança.”

Giancarlo Summa ressalta o papel dos Estados Unidos nessa verdadeira propaganda de destruição da ONU. “Os Estados Unidos se retiraram, entre outras coisas, da OMS, da Organização Mundial para a Saúde. Existe, portanto, realmente, aparentemente, uma tentativa dos Estados Unidos de, se não destruir, reduzir a ONU, o sistema internacional multilateral, para algo muito pequeno, muito limitado, sem nenhuma capacidade de incidência política ou de intervenção nas megacrises e em todos aqueles temas transversais que são complexos demais para que um só país ou dois países ou três países possam encontrar soluções”, afirma. Pensamos, sim, paz e segurança, mas pensamos a questão climática, as grandes migrações, que tipo de governança dar para a inteligência artificial. Então, é uma situação de uma gravidade sem precedentes e da qual essa crise é difícil entender como vamos sair”, enumera.

O diretor do Ilam fala sobre a influência do multilateralismo no atual contexto da ONU e explica a mudança nas responsabilidades de financiamento da instituição. “No ano 2000, ou seja, 26 anos atrás, a China contribuía, do ponto de vista de financiamento, menos de 1% para o Orçamento Geral do Secretariado da ONU. E os Estados Unidos eram um grande financiador, o principal, com mais de 23%, 24%. A China, hoje, já é a principal fonte de financiamento para o orçamento do Secretariado da ONU. Portanto, já faz dois anos que a China se transformou na principal financiadora do secretariado da ONU. Então, a China, sim, parece estar interessada em aumentar seu peso relativo no sistema internacional. Em seus discursos, os dirigentes chineses continuam insistindo na centralidade do multilateralismo, ou seja, na necessidade de encontrar juntos soluções à comunidade internacional”, explica Giarcalo Summa.

Para acompanhar a entrevista completa, acesse:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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