RECONSTRUÇÃO

Famílias agricultoras atingidas pelas enchentes iniciam implantação de quintais agroflorestais no RS

Projeto beneficia agricultores familiares com mudas, insumos e equipamentos para recuperação produtiva e ambiental

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Encontro demarcou a primeira entrega de mudas para famílias beneficiárias do projeto
Encontro demarcou a primeira entrega de mudas para famílias beneficiárias do projeto | Crédito: Corbari

Famílias agricultoras dos municípios de Paraíso do Sul e Agudo iniciaram uma nova etapa da recuperação de suas propriedades após os impactos das enchentes e enxurradas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024. Na última quarta-feira (4), começou a distribuição de mudas de árvores frutíferas e nativas do projeto Quintais Produtivos Agroflorestais, executado pelo Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) com apoio da Fundação Banco do Brasil.

A atividade foi realizada na comunidade de Quilombo, reunindo famílias beneficiárias que passarão a implantar ou ampliar sistemas agroflorestais em suas unidades produtivas. A ação integra um conjunto de iniciativas voltadas à recuperação ambiental, à produção de alimentos saudáveis e ao fortalecimento da agricultura familiar nos vales do Rio Pardo e do Taquari. Antes da entrega das mudas, as famílias já haviam recebido insumos para recuperação da fertilidade dos solos prejudicados pelas enchentes.

“Na primeira etapa entregamos todos os insumos para recuperação do solo, como adubos orgânicos, pó de rocha e sementes de adubação verde. Agora começamos uma segunda etapa, que é a entrega das mudas de espécies frutíferas e florestais que vão compor os quintais”, explica o dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e coordenador do projeto, Miquéli Schiavon. As famílias beneficiadas também receberão sementes de feijão preto, kits de hortaliças e equipamentos.

Quintal produtivo onde as mudas foram plantadas em esforço de mutirão entre os participantes da atividade | Crédito: Corbari

Nesta etapa cada família camponesa receberá 50 mudas, além de equipamentos para manejo dos sistemas produtivos. Entre as espécies distribuídas estão laranjeiras, bergamoteiras, limoeiros, bananeiras, figueiras, abacateiros, jabuticabeiras, erva-mate, canjerana, grápia, timbaúva e diferentes espécies nativas com potencial alimentar, ecológico e madeireiro.

Schiavon explicou ainda que a seleção das mudas levou em consideração a necessidade de combinar produção de alimentos, geração de renda, recuperação ambiental e adaptação às mudanças climáticas. Entre as frutíferas, o projeto priorizou espécies cítricas, tradicionalmente cultivadas na região e importantes para a alimentação das famílias. Já entre as nativas, além das espécies com potencial frutífero, foram consideradas ainda as espécies com potencial madeireiro, capazes de contribuir para a biodiversidade, a proteção dos solos e a diversificação produtiva das propriedades.

Segundo o dirigente, o projeto integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento da produção camponesa: “Os quintais têm o objetivo de produzir muito alimento saudável e fortalecer sistemas agroflorestais. No conjunto serão implantados 750 quintais no Rio Grande do Sul, contribuindo para a recuperação dos territórios atingidos pelas enchentes”.

Passados dois anos das enchentes, o solo ainda não retomou a capacidade original de produção e as ações de recuperação seguem sendo necessárias | Crédito: Corbari

Recuperar o solo para produzir abundância

Na propriedade de Diuli Almansa e Felipe Huff, que sediou a atividade, as mudas começaram a ser organizadas em um desenho agroflorestal planejado para imitar a dinâmica da natureza. Durante a oficina, os agricultores organizaram as espécies em diferentes estratos – emergente, alto, médio, baixo e rasteiro – reproduzindo a ocupação natural dos espaços na floresta.

“Uma planta auxilia a outra em um processo de sucessão, ocupando diferentes espaços e aproveitando melhor a luminosidade. Além disso, temos plantas adubadoras que vão fornecer matéria orgânica e nutrientes para todo o sistema”, explica Huff.

A proposta dos sistemas agroflorestais é justamente combinar árvores, arbustos, culturas agrícolas e plantas de cobertura em um mesmo espaço, criando relações de cooperação semelhantes às encontradas nos ecossistemas naturais. Para Almansa, a principal contribuição dos quintais produtivos é a diversificação da produção em pequenas áreas.

“Num espaço relativamente pequeno conseguimos produzir muitas frutas, plantas medicinais e espécies que futuramente também poderão fornecer madeira. É uma abundância de alimentos para a família”, destaca.

Além da produção, os agricultores ressaltam o papel dos sistemas agroflorestais na recuperação dos solos degradados. “Quando a gente melhora o solo, melhora também a qualidade dos alimentos e da nutrição que eles oferecem”, pontua Almansa. “Estamos alimentando nossa família e ao mesmo tempo alimentando e recuperando o solo”, completa Huff.

Momento de formação foi realizado antes e depois do plantio, oportunizando aprendizado compartilhado | Crédito: Corbari

Saberes ancestrais e futuro da agricultura

Entre as beneficiárias do projeto está Saruê Vezaro, que desenvolve na unidade familiar localizada em Agudo experiências agroflorestais em sistema de permacultura. Ela vê no projeto uma oportunidade de ampliar a produção e a geração de renda: “Estamos muito felizes por sermos contemplados. Esse recurso vai nos ajudar na produção de alimentos para nossa família e também na geração de renda”.

Vezaro destaca que a agrofloresta pode parecer uma ideia recente, mas na verdade representa a continuidade de conhecimentos desenvolvidos há séculos pelos povos originários.

“A gente fala muito em agrofloresta como se fosse um conceito novo, mas não é. Representa uma tecnologia social ancestral. Os povos indígenas faziam agrofloresta muito antes de nós. O que estamos fazendo é dar continuidade a esses saberes e aprender com eles.”

Ela também enfatiza a importância dos espaços coletivos de formação e troca de experiências entre agricultores. “Poder compartilhar conhecimentos com quem está fazendo agrofloresta na prática é muito enriquecedor. Estamos sempre aprendendo.”

Áreas que foram severamente prejudicadas nas enchentes de 2023 e 2024 já estão começando a mostrar resultados dos projetos de reconstrução | Crédito: Corbari

Resposta camponesa à crise climática

O Projeto Quintais Agroflorestais seguirá em execução até dezembro de 2026. Além da entrega de insumos, mudas e equipamentos, estão previstas visitas técnicas de acompanhamento para orientar o desenvolvimento dos quintais e monitorar seus resultados.

A iniciativa prioriza agricultores familiares que possuam Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) ativo e área mínima de 1 mil metros quadrados para implantação dos sistemas. Para Rosiéle Lüdke, uma das articuladoras da atividade através do grupo Flor(e)Ser Agroecológico, a proposta vai além da recuperação produtiva das propriedades.

“O campesinato tem a missão de produzir alimento saudável, cuidar do meio ambiente e contribuir para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Esses quintais ajudam a fortalecer essa missão e a levar alimentos de qualidade para as famílias do campo e também para os trabalhadores da cidade.”

Mais do que recuperar áreas atingidas pelas enchentes, os quintais agroflorestais representam uma estratégia de adaptação climática baseada na diversificação produtiva, no aumento da cobertura vegetal e na melhoria da capacidade dos solos de reter água e nutrientes. Ao integrar árvores frutíferas, espécies nativas e cultivos agrícolas, os sistemas ajudam a proteger o solo, ampliar a biodiversidade e reduzir a vulnerabilidade das famílias diante de novos eventos climáticos extremos.

“Em um estado que ainda convive com as consequências das enchentes históricas dos últimos anos, a iniciativa aposta na agroecologia como caminho para reconstruir a capacidade produtiva das propriedades rurais e fortalecer a soberania alimentar das comunidades camponesas.”

Além da região Centro/Serra, onde estão os municípios de Paraíso do Sul e Agudo, o cronograma de entregas prevê alcançar as regiões Noroeste e Celeiro do RS nas próximas semanas. Até meados de julho todas as famílias beneficiadas nas demais regiões do estado também terão recebido os insumos, equipamentos e kit de mudas para a implementação dos seus quintais produtivos agroflorestais.

Além da Fundação Banco do Brasil e do Instituto Cultural Padre Josimo, constam como parceiros do projeto o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Cooperativa Origem Camponesa, Aparse, Cooperbio, Flor(e)Ser Agroecológico e Arpasul.

Cada muda compartilhada através do projeto foi cuidadosamente escolhida para atender as possibilidades das famílias beneficiadas, de acordo com as particularidades do território onde estão inseridas | Crédito: Corbari

Números do Projeto

Projeto Quintais Agroflorestais – Fundação Banco do Brasil e Instituto Cultural Padre Josimo

  • Abrangência: Regiões do RS atingidas pelas enchentes, enxurradas e deslizamentos
  • Beneficiários: 750 famílias agricultoras de porte familiar/camponês
  • Mudas por família: 50 mudas frutíferas e nativas
  • Equipamentos: roçadeira, pulverizador costal, tesoura de poda, serrote, facão e pá de corte
  • Insumos: adubo orgânico, pó de rocha, sementes de feijão, adubação verde e hortaliças
  • Execução: até dezembro de 2026
  • Área mínima dos quintais: 1.000 m²
  • Objetivo: recuperação produtiva e ambiental de áreas atingidas pelas enchentes, produção de alimentos saudáveis e fortalecimento da agricultura familiar.

Editado por: Katia Marko

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