Futuro plantado

O que são sistemas agroflorestais e como eles podem recuperar o solo degradado pelo agronegócio

Em Jarinu (SP), estudantes de assentamentos e acampamentos aprendem técnicas de agroecologia para restaurar a terra

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Entre canteiros cobertos por palha, mudas de árvores e fileiras de hortaliças, estudantes de assentamentos e acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de diferentes regiões do país aprendem, em Jarinu (SP), uma das principais lições da agroecologia: recuperar a vida do solo é também recuperar a capacidade de produzir alimentos e reduzir a dependência dos insumos químicos caros do agronegócio.

No Centro Agroecológico Paulo Kageyama (CAPK), os sistemas agroflorestais aparecem como alternativa à degradação provocada por décadas de monocultivo, mecanização pesada e uso intensivo de agrotóxicos.

Em muitas regiões do país, nas terras conquistadas para a reforma agrária, o solo está compactado, empobrecido e com pouca capacidade de reter água e nutrientes. É para mudar essa realidade que os sistemas agroflorestais aparecem como possibilidade que conjuga produção e recuperação ambiental.

Na agroecologia, o solo não é visto apenas como suporte para as plantas, mas como um organismo vivo, formado por microrganismos, raízes, matéria orgânica, água, ar, insetos e minhocas. É essa rede de vida que transforma restos vegetais em fertilidade, melhora a estrutura da terra e reduz a dependência de insumos externos.

Também conhecidos pela sigla SAF, os sistemas agroflorestais combinam árvores, cultivos agrícolas e, em alguns casos, criação de animais em uma mesma área. O planejamento leva em conta o espaço e o tempo de desenvolvimento das espécies. Algumas entram primeiro, outras vêm depois. Enquanto umas produzem alimentos, outras geram sombra, protegem o solo, acumulam matéria orgânica e atraem biodiversidade.

Victor Hugo, do Assentamento Hugo Chávez, em Tapes (RS), vê no consórcio entre diferentes espécies uma das principais forças do sistema. Estudante de agronomia com ênfase em agroecologia no Instituto Educar, ele participa das atividades em Jarinu para aprofundar os conhecimentos sobre manejo agroflorestal.

“É plantar consorciado variedades de culturas diferentes, como a hortaliça, por exemplo. A gente vai fazer um canteiro aqui, plantar uma mandioca, plantar beterraba, plantar alface, tudo intercalado, tanto no meio das árvores frutíferas ou de manejo, que a gente usa para poda e matéria orgânica”, explica.

Da cobertura do solo à recuperação da fertilidade

A recuperação de áreas degradadas começa por uma mudança simples: evitar que o solo fique exposto. Na agrofloresta, a terra permanece coberta por palha, folhas, galhos e restos de poda. Esse material protege contra a erosão, ajuda a conservar a umidade e serve de alimento para os microrganismos.

As raízes também cumprem papel importante. Como diferentes espécies ocupam profundidades distintas, elas favorecem a infiltração da água e a circulação de nutrientes.

Com mais diversidade, o sistema passa a funcionar de maneira semelhante à de uma floresta | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato
Com mais diversidade, o sistema passa a funcionar de maneira semelhante à de uma floresta. | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Victor Hugo afirma que uma das primeiras lições do manejo agroflorestal é reduzir o revolvimento da terra. “Na SAF, um dos principais fatores é não revolver muito o solo. Porque cada vez que tu vira, tu mata uma parte; tu vira de novo, mata outra parte. E aí tu tem que ter custo com outros tipos de insumos para fazer a tarefa que eles fariam naturalmente”, diz.

Outra espécie estratégica é a bananeira, conhecida entre agrofloresteiros como “mãe do sistema agroflorestal”. “Ela cumpre três fatores: a produção, a matéria orgânica, que é matéria de cobertura, e a questão da umidade também, porque ela contém bastante umidade interna. Quando a gente coloca ela como matéria orgânica, ela auxilia os microrganismos do solo e ajuda a manter a água da chuva”, explica.

Do Pará ao Paraná

O CAPK recebe estudantes de diferentes regiões do país. A proposta é que os conhecimentos adquiridos possam ser adaptados a distintas realidades, respeitando características dos territórios, dos biomas e dos modos de produção locais.

Felipe Maia veio do Assentamento Terra e Liberdade, em Parauapebas (PA). Na região onde vive, a mineração, o garimpo ilegal e a pecuária exercem pressão sobre a floresta e os recursos hídricos.

“Com a mineração eo garimpo ilegal, acaba afastando os animais dos seus habitats, desmatando a área e poluindo a água. Isso vem atrapalhando muito. E, com esse sistema que nós estudamos, que nós aprendemos, acaba trazendo esses animais de volta. Essa produção de árvores, de frutos, de sementes, tudo para nós de volta”, afirma.

Bananeiras ajudam a alimentar, proteger e manter úmido o solo nos sistemas agroflorestais.
Bananeiras ajudam a alimentar, proteger e manter úmido o solo nos sistemas agroflorestais. | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Para ele, os sistemas agroflorestais oferecem uma possibilidade concreta de reconstrução ambiental em territórios marcados pela degradação. “Com esse modelo que estamos aprendendo, fazendo agrofloresta nas plantações, o ar volta a respirar em torno de nós, volta a ter vida, voltam os microrganismos na terra para nós produzirmos. Na prática, é trazer essas coisas de volta para a terra”, argumenta.

Já Antônio Rodrigues, do Acampamento São Jerônimo, em Guarapuava (PR), vê na agrofloresta uma alternativa para produzir alimentos sem avançar sobre a mata de araucária e sem depender dos agrotóxicos utilizados nas lavouras de soja e milho predominantes na região.

“A diferença é total. O nosso caso é orgânico. Nós trabalhamos preservando a saúde e a natureza. Os fazendeiros trabalham com o veneno, com a potência do veneno. Nós estamos procurando o caminho para trabalhar com alimentos saudáveis, que é o foco hoje não só nosso, mas dos sem-terra em geral”, afirma.

Para Rodrigues, preservar a floresta está diretamente ligado à permanência das famílias no território. “Se nós derrubamos a mata, nós estamos nos derrubando. Estamos destruindo a natureza e nos destruindo junto.”

Menos dependência de insumos externos

Além dos ganhos ambientais, os sistemas agroflorestais também podem reduzir custos para a agricultura familiar. Em vez de depender exclusivamente de fertilizantes químicos e outros insumos comprados fora da propriedade, parte da fertilidade passa a ser produzida no próprio sistema, por meio da matéria orgânica, das podas e da interação entre as espécies.

Isso não significa menos trabalho. O manejo exige observação constante, planejamento e cuidado com a sucessão das plantas. Em contrapartida, diversifica a produção e amplia a autonomia de quem cultiva.

“Hoje, se você for comprar um vidro de veneno, o mais barato, que é o Roundup, na nossa área, é R$ 130. Se você conseguir fazer orgânico, porque a gente tem um monte de mata nativa que dá fertilizante, a gente pode trabalhar com tudo isso”, afirma Antônio Rodrigues.

“Um produto orgânico provavelmente vai dar um pouquinho mais de trabalho, sem dúvida. Não é só plantar e dizer que vai dar. Você vai ter que fazer um consórcio, que nem está feito aqui, para um produto sustentar o outro”, continua Rodrigues. “Esse é o consórcio que tem que levar para lá, para o povo viver sem produto tóxico.”

A agrofloresta, para os estudantes do CAPK entrevistados pelo Brasil de Fato, não recupera apenas a fertilidade do solo, mas reorganiza a relação entre produção, natureza e comunidade. Onde o agronegócio simplifica a paisagem, o SAF aposta na diversidade. Onde a monocultura exaure a terra, a agroecologia devolve matéria orgânica, água, sombra e vida. Onde o agricultor fica dependente de pacotes externos, o sistema busca autonomia.

“É uma coisa linda. É um projeto para o bem do ser humano. A gente tem que entender a importância dele para nós e para a natureza, porque nós fazemos parte da natureza. Não é produzir só para venda, economicamente. O convencional normalmente planta e vende para fora, não pensa no próximo, se vai se alimentar”, conclui Victor Hugo, do Assentamento Hugo Chávez.

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Editado por: Luís Indriunas

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