Kwame saiu de sua pátria entrando em um avião rumo ao novo lugar do qual ouvira falar, na certeza de que seria muito bem recebido pelos seus conterrâneos com os quais mantivera o mínimo de contato desde que decidiu sair de sua tabanca. Ifi ficou na tabanca com suas filhas e viu seu único menino ganhar asas. A dor atravessou seu peito, mas o menino havia dito que assim que chegasse daria um jeito de avisá-la.
Horas marcaram a travessia. Ele sequer sabia quanto tempo levava aquele voo. Só sabia que era o único ali com um sonho de estudar em outro lugar e, para isso, estava atravessando o grande mar. Finalmente, ouviu o piloto falando que estavam próximos da aterrissagem. Ele sentiu um alívio. Até ali tudo estava dando certo. Agora bastava encontrar seus conterrâneos no aeroporto.
Quando saiu do avião sentiu vontade de beijar aquele solo. Estava agradecido por ter dado tudo certo. No aeroporto, encontrou seus conterrâneos. Eram três ao todo e muito alegres receberam o novato.
Foram para a casa de um deles, era lá que Kwame ficaria. Kwame queria descansar, seu corpo estava exausto, mas lembrou de sua mãe. Queria avisá-la que tudo dera certo. Pediu a um dos amigos o telefone e mandou uma mensagem de voz para uma de suas irmãs informando que havia chegado e encontrado os amigos. E assim foi seu primeiro dia nas terras além-mar.
A irmã de Kwame informou a mãe que tudo havia dado certo na viagem do irmão. Ifi como toda mãe respirou aliviada. Ela foi até o altar dos seus ascentrais e agradeceu pela proteção ao seu filho. Ifi sabia que a partida do filho traria coisas boas para todos. No outro lado do Atlântico, Kwame foi apresentado ao lugar no qual passaria os próximos anos estudando.
Um lugar cheio de prédios, com várias nomenclaturas e rodeado por uma mata com diversos animais. Kwame gostou do lugar. Sentiu que ali seria bem acolhido. Fez sua matrícula em várias disciplinas. Tudo era novo para o jovem. Mas, uma coisa o motivava, depois daquele período de estudos voltaria para casa e teria o colo de sua mãe novamente. Seria o abraço de Ifi que lhe receberia na tabanca.
No primeiro dia de aula, Kwame estava sozinho sem seus amigos e precisava encontrar sua sala de aula. Então, ele foi até a secretaria para pedir ajuda e chegando lá encontrou outra estudante pedindo informações. Para a surpresa de ambos, estavam na mesma sala e a assim seguiram para aula.
Naquele primeiro dia, Kwame teve aula de história e ele gostou bastante. O professor era experiente e acostumado a receber em suas turmas estudantes internacionais. No final da aula, chamou o estudante e disse que se ele tivesse alguma dificuldade poderia falar com ele. O jovem agradeceu e seguiu para a próxima aula.
Kwame gostou da atitude do professor e se sentiu aliviado. As aulas pareciam intermináveis e pouco se abordava temas referentes ao seu continente. Até que em uma aula de história, se referiu ao experiente professor e pediu que abordasse temas referentes ao continente de sua origem.
O professor aplaudiu a iniciativa do jovem e disse que todos os estudantes deveriam fazer um trabalho depois da aula: pesquisar sobre o continente. Assim, Kwame entendeu que seu papel era mais que ir lá e assistir ao professor falar. Ele teria que se colocar, trazer suas experiências e propor coisas para os professores e colegas.
O semestre estava quase no final e Kwame era um aluno dedicado que chamava a atenção dos colegas. O que levou a uma de suas colegas se aproximar. Era a mesma jovem com quem ele encontrou no primeiro dia de aula. A jovem era Jamile. Ela era muito inteligente e observadora. Jamile sempre morou naquela cidade e o que sabia sobre o continente havia aprendido nos livros. Mas, a postura do rapaz nas aulas havia chamado sua atenção e ela decidiu se aproximar.
Kwame que já a observava se mostrou ainda mais interessado por aquela jovem tão bonita e inteligente. Ele se sentia atraído por ela. Ele não sabia explicar, pela primeira vez olhava para uma mulher como estava olhando para Jamile. O jovem não conseguia evitar o que pensava sobre a moça. Mas, o que vinha a sua mente era a memória de uma das conversas que teve com sua mãe. Ifi havia alertado o filho para não se envolver com as mulheres daquele lugar porque ele teria que voltar para casa algum dia.
O que Kwame não conseguia controlar era o interesse na sua colega de faculdade. Então, decidiu correr o risco e se declarar para Jamile, mesmo que isso fosse uma desobediência aos conselhos de sua mãe. Como o fim de semestre se aproximava, ele se viu cada vez mais impelido a se declarar para Jamile. Ela havia se tornado mais que uma colega de turma. Era a pessoa com quem ele conversava nas horas vagas, que compartilhava as alegrias e descobertas, era alguém que lhe acompanhava nas dificuldades da vida acadêmica.
Se declarar para Jamile seria desobedecer aos conselhos de sua mãe, mas ele já não podia esconder seus sentimentos. Um dia, enquanto voltavam do almoço na universidade, ele disse a Jamile tudo que sentia em relação a ela. Jamile o observava como se não acreditasse. Ela também tinha sentimentos por ele e, naquele dia, ela só queria abraçá-lo.
Dali em diante, os dois se tornaram inseparáveis. Eles eram como ímãs: um se movia e o outro seguia. Era algo muito genuíno o que os unia, mas ambos sabiam que chegaria o dia em que Kwame teria que voltar para casa.
*Segundo Elisabete Vitorino, na parte 2 deste conto, “encontraremos Kwame do outro lado do Atlântico convivendo no mundo universitário com professores, amigos e encontrando uma pessoa especial”. Leia a primeira parte aqui.
**Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.
***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
