CENSURA DE NOVO

Fifa veta uniforme do Haiti que homenageia independência do país; censura a traje haitiano é recorrente

A poucos dias da estreia, entidade enxergou cunho político no design da camisa; COI já havia censurado traje olímpico

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Uniforme vetado do Haiti
Uniforme vetado do Haiti. | Crédito: Divulgação Saeta

Pela segunda vez este ano, o uniforme de uma equipe esportiva do Haiti é censurado por celebrar sua luta por independência. Desta vez, a Fifa exigiu que o país omita referências à luta anticolonial no uniforme que os haitianos vão usar para disputar a Copa do Mundo dos Estados Unidos.

A fornecedora de material esportivo da equipe lamentou a decisão, mas confirmou que já realizou as modificações exigidas pela entidade máxima do futebol.

O ponto central da discordância é uma ilustração sutil estampada no canto inferior direito da camisa azul. A imagem retrata a Batalha de Vertières (1803), marco histórico fundamental em que os revolucionários haitianos derrotaram as tropas de Napoleão Bonaparte, consolidando a independência do Haiti em relação à França.

Segundo o comunicado da Saeta, o design foi pensado exclusivamente como uma homenagem à resiliência, ao orgulho e à história dos homens e mulheres que constroem o país, sem o objetivo de fazer uma declaração ideológica atual. Mas a Fifa entendeu que o elemento histórico violava suas estritas regras de vestuário e equipamentos, já que marcas que remetem a revoluções ou conflitos podem ser interpretadas como mensagens políticas.

“A exibição de mensagens ou slogans políticos, religiosos ou pessoais de qualquer natureza, em qualquer idioma ou formato, por jogadores e membros da comissão técnica em seus uniformes de jogo, uniformes de equipe ou outras vestimentas”, diz a Fifa.

Apesar de considerar a decisão uma interpretação divergente do propósito artístico inicial, a fornecedora e a Federação Haitiana de Futebol aceitaram a intervenção para garantir a participação regular da seleção, que vive um momento histórico ao retornar aos gramados do maior torneio do mundo.

Olimpíada de inverno

Em março desse ano, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, dois atletas haitianos desfilaram com uniformes elogiados internacionalmente, idealizados pela estilista Stella Jean e pintados à mão com base na obra do artista Edouard Duval-Carrié. No entanto, por exigência do Comitê Olímpico Internacional (COI), a figura do general Toussaint Louverture — principal líder da Revolução Haitiana e pioneiro global na luta contra a escravidão — foi censurada e retirada do traje original sob a justificativa de que trazia um “tema político e polêmico”.

Em análise à Rádio Brasil de Fato, a correspondente Cha Dafol criticou duramente a decisão do COI, questionando se a defesa histórica do fim da escravidão e da igualdade humana deveria ser considerada um incômodo para os poderes ocidentais. Para a jornalista, o episódio reflete o histórico silenciamento eurocêntrico da Revolução Haitiana (que em 1804 resultou na primeira república negra do mundo) e demonstra uma tentativa contínua do Ocidente de impedir que o país valorize sua própria identidade e desafie as estruturas de poder colonial.

Editado por: Luís Indriunas

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