Para as crianças de Cuba, as consequências da guerra econômica que os Estados Unidos mantêm contra a ilha são uma realidade concreta, que se torna cada vez mais sufocante. Elas se refletem em escolas afetadas por apagões, espaços de lazer obrigados a fechar, hospitais com falta de insumos e crescentes dificuldades de acesso à alimentação.
A cada dia que passa, a situação se torna mais difícil — uma realidade que afeta cotidianamente o direito à infância de milhares de crianças em uma ilha que realiza enormes esforços para proteger os mais vulneráveis, enquanto as ameaças de um possível ataque militar contra Cuba se tornam cada vez mais frequentes.
Nesse contexto, diversos projetos comunitários em Havana buscam responder à crise apostando no brincar, na arte e na proteção da infância. Trata-se de iniciativas que, em meio aos apagões e às carências do dia a dia, tentam impedir que a crise apague os sorrisos dos pequenos.
Um desses projetos é o La Manigua, inspirado no trabalho do animador e ilustrador Juan Padrón, criador do mítico Elpidio Valdés, personagem de desenhos animados e histórias em quadrinhos que protagoniza aventuras ligadas à luta pela libertação de sua pátria do colonialismo.
Localizado em La Timba, um bairro popular da capital cubana, o La Manigua é um projeto de desenvolvimento local que funciona como um centro cultural onde crianças podem desenvolver suas capacidades criativas.
Em conversa com o Brasil de Fato, Silvia Padrón, diretora do projeto, explica que a iniciativa resgata os valores presentes na obra de seu pai, como compromisso, patriotismo e amizade, mas também incorpora novas perspectivas relacionadas à construção de infâncias livres, como a igualdade de gênero, o combate ao adultocentrismo e o ambientalismo.
“O que queremos é que pessoas e grupos em situação de vulnerabilidade — que, por diferentes circunstâncias, não têm acesso a determinadas oportunidades ou encontram dificuldades para alcançá-las — encontrem no La Manigua um espaço onde possam desenvolver suas capacidades, sua criatividade e sua imaginação; onde vivam experiências enriquecedoras e construam uma infância marcada também por belas lembranças”, afirma.
Contra ventos e marés, o La Manigua abriu suas portas no último mês de março para se tornar um espaço de encontro em que jovens e crianças possam aprender, brincar e, acima de tudo, sonhar, mesmo em meio a um cenário marcado por enormes dificuldades.
Segundo explica Zulan Popa, coordenadora do La Manigua, o trabalho é desenvolvido em diálogo permanente com as famílias, para que o projeto se alimente das necessidades da comunidade.
“Temos nos reunido com os pais para que nos digam quais temas lhes interessam para as oficinas com seus filhos e quais assuntos gostariam de abordar em espaços de troca voltados para eles. Além disso, contamos com vários psicólogos e psicólogas em nossa equipe de trabalho.”
Proteger esses espaços, sustenta Popa, também significa defender valores humanos fundamentais diante de um contexto cada vez mais hostil.
“Acho que precisamos de mais disso: precisamos de mais humanidade, mais compreensão e mais aceitação. E precisamos justamente afastar esses ‘tambores de guerra’.”
Nesse sentido, ela considera que iniciativas como o La Manigua representam uma aposta no futuro, na imaginação e na possibilidade de continuar construindo uma sociedade mais justa, mesmo nas circunstâncias mais adversas.
“Não sabemos o que vai acontecer, mas a vida continua, e nós temos que continuar fazendo o La Manigua todos os sábados e em cada dia em que abrimos nossos espaços.”
Para além das atividades culturais, esses projetos buscam preservar a identidade e fortalecer os laços comunitários. Como destaca Silvia Padrón, existe um profundo sentimento de orgulho pela capacidade de resistência e criação do povo cubano. “Sentimos orgulho pelo que nós, cubanos, conquistamos e pelo que somos capazes de fazer quando nos permitem fazê-lo.”
Entre os grupos de referência no trabalho com a infância, um se destaca: La Colmenita. Trata-se de uma companhia infantil de teatro criada no início da década de 1990 por Carlos Alberto Cremata. Com o passar dos anos, o modelo pedagógico e social da companhia se multiplicou por toda a ilha, dando origem a uma rede de dezenas de filiais municipais e comunitárias.
“Estamos realmente dedicados, cem por cento, à missão de educar, ensinar e divertir, sempre por meio do ensino. Transmitimos constantemente uma mensagem de solidariedade, amor e esperança”, conta Henry López, ex-aluno e integrante da equipe pedagógica do projeto.
Por meio de espetáculos, danças e peças teatrais, as crianças da La Colmenita tornam-se protagonistas de espaços de encontro, aprendizagem e alívio diante de uma realidade marcada por dificuldades cotidianas.
Em um momento em que os Estados Unidos apostam em apagar a ilha, os projetos comunitários que trabalham com a infância sustentam uma aposta compartilhada: defender a cultura e manter abertos espaços onde a criatividade e o brincar continuem florescendo, e onde o sorriso das crianças permaneça aceso.
