“O GAE nasceu em pleno período especial para enfrentar a guerra econômica”, afirmou nesta terça-feira (2) o governo cubano por meio de um comunicado, no qual assegurou que não se trata de uma estrutura “paralela ao Estado cubano”.
Trata-se da primeira resposta oficial de Havana após Washington colocar o Grupo de Administração Empresarial (GAE, conhecido na ilha como Gaesa) no centro de seus ataques. No início de maio, o governo Trump assinou uma ordem executiva por meio da qual foi anunciada a ampliação das sanções — medidas coercitivas unilaterais — já existentes contra qualquer pessoa ou empresa de qualquer país, inclusive não estadunidense, que mantenha relações com a Gaesa. Esse mecanismo aprofunda o caráter extraterritorial do bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao ampliar o alcance das chamadas “sanções secundárias”.
Por meio dessa ordem executiva, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos estabeleceu como prazo final a próxima sexta-feira (5) para que empresas não estadunidenses encerrem suas operações com o Estado cubano e com a Gaesa, sob a ameaça de serem sancionadas caso não o façam.
O governo cubano classifica a escalada de agressões de Washington como “a mais intensa, desproporcional e perigosa da história recente” das relações bilaterais. Afirma ainda que se trata de um mecanismo desenhado por “ideólogos da extrema direita cubano-americana” — em referência ao secretário de Estado Marco Rubio e a setores da direita cubana em Miami — com o objetivo de levar a um nível “extremo e inusitado” a política de máxima pressão.
Criada entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 como estratégia para tentar contornar o bloqueio econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba, a Gaesa é uma holding estatal cubana que integra empresas ligadas ao turismo, às finanças e à logística, desde a gestão portuária até a distribuição no varejo.
A Gaesa é administrada pelas Forças Armadas Revolucionárias (FAR) e funciona sob a forma de sociedades anônimas, com o objetivo de buscar maneiras mais flexíveis de realizar transferências internacionais, abrir contas no exterior e efetuar compras que, de outro modo, o Estado não conseguiria realizar diretamente.
“Seu objetivo sempre foi agrupar empresas com capacidade para gerar divisas e recursos que o Estado necessita para manter e desenvolver as conquistas sociais, bem como contribuir para o fomento de setores e ramos da vida nacional”, afirma o governo cubano.
Narrativas de guerra
Desde o aumento das agressões de Washington contra Cuba, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem se referido em várias ocasiões à Gaesa, afirmando que se trataria de uma “fonte de corrupção” do “regime cubano”.
No dia 20 de maio, por meio de uma mensagem em espanhol dirigida à comunidade cubano-americana, Rubio assegurou que a crise energética que Cuba atravessa “não se deve a um bloqueio petrolífero por parte dos Estados Unidos”, apesar de Washington ter ameaçado explicitamente sancionar qualquer país que “venda ou forneça petróleo” à ilha.
Da mesma forma, sustentou — sem apresentar provas — que os problemas do país se devem ao fato de que “um grupo de militares” vinculados à Gaesa estaria se apropriando dos recursos do Estado e que contariam com “um orçamento três vezes maior que o do governo atual”. Por sua vez, o governo cubano afirma que essa narrativa de Washington tem como objetivo “construir pretextos para desacreditar a Revolução Cubana, sua liderança histórica e seus dirigentes”.
“O objetivo deliberado é isolar o país de maneira diplomática, comercial, financeira e energética; impossibilitar a sustentabilidade da nação; condicionar o diálogo e avaliar variantes de agressão militar. Eles precisam construir e consolidar uma narrativa de descrédito reputacional contra todas as instituições que constituem o alicerce do nosso projeto social”, afirma Havana.
Consequências econômicas
Até o momento, a agressão de Washington tem tido um efeito devastador na economia cubana. As ameaças de sanções já provocaram a saída de importantes investimentos estrangeiros da ilha. Uma das consequências mais graves foi a retirada da mineradora canadense Sherritt International após mais de três décadas de operações no país.
Segundo explicou a própria empresa, com sede em Toronto, a decisão se deveu ao fato de que as medidas coercitivas unilaterais impostas pelos Estados Unidos contra Havana “alteram substancialmente a capacidade da corporação de operar com normalidade”.
A saída da companhia representa um golpe especialmente sensível para a economia nacional, já que a exportação de minerais constitui uma das principais fontes de entrada de divisas de Cuba. Nos últimos anos, essa atividade tem representado entre 25% e 35% do total de divisas que entram no país.
Da mesma forma, importantes empresas de navegação internacionais, como a alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM — as mais relevantes do mercado cubano —, suspenderam a aceitação de novos pedidos com destino à ilha para evitar possíveis sanções de Washington. Segundo estimativas, ambas as empresas representam até 60% do tráfego de contêineres que entra e sai de Cuba.
A eventual retirada dessas companhias do mercado cubano poderia agravar ainda mais a crise econômica da ilha, provocando problemas de abastecimento e uma forte pressão inflacionária sobre produtos básicos.
Enquanto isso, reportagens indicam que empresas hoteleiras como a canadense Blue Diamond Resorts, a terceira maior da ilha, e a espanhola Iberostar também estariam se retirando de Cuba, o que atingiria fortemente a indústria turística do país, outra grande fonte de divisas do país.
