Bloqueio

Cuba responde a sanções dos EUA e defende o papel da Gaesa na economia nacional

Havana rejeita ataques contra a holding cubana, enquanto vê empresas estrangeiras saírem do país por pressão dos EUA

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Cubanos participam da comemoração do 67º aniversário da Caravana da Liberdade, em homenagem à entrada histórica de Fidel Castro na cidade, que marcou o início da Revolução Cubana, em frente ao prédio do Grupo de Administração Empresarial S.A. (GAESA), um conglomerado controlado pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), em Havana, em 8 de janeiro de 2026. (Foto de ADALBERTO ROQUE / AFP)
Cubanos participam da comemoração do 67º aniversário da Caravana da Liberdade, em frente ao prédio do Grupo de Administração Empresarial S.A. (Gaesa), holding controlada pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR). | Crédito: Adalberto Roque/AFP

“O GAE nasceu em pleno período especial para enfrentar a guerra econômica”, afirmou nesta terça-feira (2) o governo cubano por meio de um comunicado, no qual assegurou que não se trata de uma estrutura “paralela ao Estado cubano”.

Trata-se da primeira resposta oficial de Havana após Washington colocar o Grupo de Administração Empresarial (GAE, conhecido na ilha como Gaesa) no centro de seus ataques. No início de maio, o governo Trump assinou uma ordem executiva por meio da qual foi anunciada a ampliação das sanções — medidas coercitivas unilaterais — já existentes contra qualquer pessoa ou empresa de qualquer país, inclusive não estadunidense, que mantenha relações com a Gaesa. Esse mecanismo aprofunda o caráter extraterritorial do bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao ampliar o alcance das chamadas “sanções secundárias”.

Por meio dessa ordem executiva, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos estabeleceu como prazo final a próxima sexta-feira (5) para que empresas não estadunidenses encerrem suas operações com o Estado cubano e com a Gaesa, sob a ameaça de serem sancionadas caso não o façam.

O governo cubano classifica a escalada de agressões de Washington como “a mais intensa, desproporcional e perigosa da história recente” das relações bilaterais. Afirma ainda que se trata de um mecanismo desenhado por “ideólogos da extrema direita cubano-americana” — em referência ao secretário de Estado Marco Rubio e a setores da direita cubana em Miami — com o objetivo de levar a um nível “extremo e inusitado” a política de máxima pressão.

Criada entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 como estratégia para tentar contornar o bloqueio econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba, a Gaesa é uma holding estatal cubana que integra empresas ligadas ao turismo, às finanças e à logística, desde a gestão portuária até a distribuição no varejo.

A Gaesa é administrada pelas Forças Armadas Revolucionárias (FAR) e funciona sob a forma de sociedades anônimas, com o objetivo de buscar maneiras mais flexíveis de realizar transferências internacionais, abrir contas no exterior e efetuar compras que, de outro modo, o Estado não conseguiria realizar diretamente.

“Seu objetivo sempre foi agrupar empresas com capacidade para gerar divisas e recursos que o Estado necessita para manter e desenvolver as conquistas sociais, bem como contribuir para o fomento de setores e ramos da vida nacional”, afirma o governo cubano.

Narrativas de guerra

Desde o aumento das agressões de Washington contra Cuba, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem se referido em várias ocasiões à Gaesa, afirmando que se trataria de uma “fonte de corrupção” do “regime cubano”.

No dia 20 de maio, por meio de uma mensagem em espanhol dirigida à comunidade cubano-americana, Rubio assegurou que a crise energética que Cuba atravessa “não se deve a um bloqueio petrolífero por parte dos Estados Unidos”, apesar de Washington ter ameaçado explicitamente sancionar qualquer país que “venda ou forneça petróleo” à ilha.

Da mesma forma, sustentou — sem apresentar provas — que os problemas do país se devem ao fato de que “um grupo de militares” vinculados à Gaesa estaria se apropriando dos recursos do Estado e que contariam com “um orçamento três vezes maior que o do governo atual”. Por sua vez, o governo cubano afirma que essa narrativa de Washington tem como objetivo “construir pretextos para desacreditar a Revolução Cubana, sua liderança histórica e seus dirigentes”.

“O objetivo deliberado é isolar o país de maneira diplomática, comercial, financeira e energética; impossibilitar a sustentabilidade da nação; condicionar o diálogo e avaliar variantes de agressão militar. Eles precisam construir e consolidar uma narrativa de descrédito reputacional contra todas as instituições que constituem o alicerce do nosso projeto social”, afirma Havana.

Consequências econômicas

Até o momento, a agressão de Washington tem tido um efeito devastador na economia cubana. As ameaças de sanções já provocaram a saída de importantes investimentos estrangeiros da ilha. Uma das consequências mais graves foi a retirada da mineradora canadense Sherritt International após mais de três décadas de operações no país.

Segundo explicou a própria empresa, com sede em Toronto, a decisão se deveu ao fato de que as medidas coercitivas unilaterais impostas pelos Estados Unidos contra Havana “alteram substancialmente a capacidade da corporação de operar com normalidade”.

A saída da companhia representa um golpe especialmente sensível para a economia nacional, já que a exportação de minerais constitui uma das principais fontes de entrada de divisas de Cuba. Nos últimos anos, essa atividade tem representado entre 25% e 35% do total de divisas que entram no país.

Da mesma forma, importantes empresas de navegação internacionais, como a alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM — as mais relevantes do mercado cubano —, suspenderam a aceitação de novos pedidos com destino à ilha para evitar possíveis sanções de Washington. Segundo estimativas, ambas as empresas representam até 60% do tráfego de contêineres que entra e sai de Cuba.

A eventual retirada dessas companhias do mercado cubano poderia agravar ainda mais a crise econômica da ilha, provocando problemas de abastecimento e uma forte pressão inflacionária sobre produtos básicos.

Enquanto isso, reportagens indicam que empresas hoteleiras como a canadense Blue Diamond Resorts, a terceira maior da ilha, e a espanhola Iberostar também estariam se retirando de Cuba, o que atingiria fortemente a indústria turística do país, outra grande fonte de divisas do país.

Editado por: Luís Indriunas

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