A ilha caribenha de Cuba, de 110 mil quilômetros quadrados e 11 milhões de habitantes, tem uma longa história de sofrimentos. Primeiro foram os espanhóis nos tempos coloniais que agiram sempre com rigor, depois as frequentes intervenções dos americanos até o país ser declarado República entre 1898 e 1902, sempre com a intromissão dos Estados Unidos até 1959, quando Fidel Castro fez a grande revolução.
Logo a seguir, em outubro de 1960, começou o embargo econômico, que persiste até hoje, com pequenos alívios aqui e ali. A professora aposentada, ex-Universidade de Brasília (UnB), Maria Auxiliadora Cesar (conhecida por Dôra), mora em Havana e lá está construindo e coordenando, com uma série de parcerias, a Casa Brasil, onde serão realizadas atividades culturais, econômicos e tantas outras ações de apoio aos cubanos.
Professora Emérita da UnB, fundadora do Núcleo de Estudos Cubanos (Nescuba), ela é de 1945 e nasceu no Mato Grosso. Fez graduação em Ciências Sociais (1977) e depois Serviço Social e uma série de estudos no Brasil e em Cuba, além de atuar como professora. Participa principalmente na área de Política Social, prestando consultorias e desenvolvendo os seguintes temas: política social, bem-estar, capitalismo e socialismo, gênero, criminalidade, exploração sexual de crianças e adolescentes e sistema penitenciário. Tem publicado livros e é autora de artigos em diferentes revistas.

A entrevista para o Brasil de Fato RS foi em três etapas em razão de seus deslocamentos para compromissos: Natal (RN), onde estava para ações políticas e direitos humanos, Brasília, onde moram seus familiares, e em Havana, sempre por whats. Dôra, como é conhecida, fala da Casa Brasil, a consolidação dos 120 anos de relações Brasil-Cuba (com interrupções, nos tempos da ditadura brasileira), da situação do país, da crise energética grave que Cuba enfrenta e das ameaças que Donald Trump e os Estados Unidos fazem frequentemente de invadir o país e ali impor as suas vontades. Confira:
Brasil de Fato RS: Como surgiu a ideia de criar a Casa do Brasil em Havana? Está pronta?
Maria Auxiliadora Cesar: Esta é uma história que estamos escrevendo porque a cada pesquisa descobrimos novos fatos que a explicam e a contextualizam ao longo de décadas. No entanto, podemos dizer que ter uma Casa Brasil em Havana é um sonho de brasileiros e brasileiras, entre os dirigentes de entidades de solidariedade a Cuba de alguns estados do Brasil e Hélio Dutra*, e de Eusébio Leal, o historiador da cidade, já falecido, que foi diretor da Oficina do Historiador de Cidade (OHC) e principal condutor do grande projeto de restaurações em Havana Velha.
Ter uma casa Brasil em Havana é uma aspiração buscada, pelo menos, desde o início dos anos 1990. Amigos e amigas de Cuba, em especial componentes do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba, fizeram gestões em alguns períodos desde essa época, e também o brasileiro Hélio Dutra, residente em Havana desde 1945 até o seu falecimento com 96 anos, referência da solidariedade brasileira a Cuba.
Ter uma casa Brasil em Havana é uma aspiração buscada, pelo menos, desde o início dos anos 1990
Em 2010, foi criado um Rincão do Brasil em Cuba. Lá está o Memorial Hélio Dutra, que desenvolveu atividades científicas e socio culturais, como cursos de português e de conversação, cursos de culinária, de artesanato, apresentação de livros, recebimento de caravanas e brigadas de brasileiros e brasileiras solidários a Cuba e de grupos de amigos e amigas, com atividades de música cubana e capoeira, apresentação de obras de teatro para adultos e adolescentes, intercâmbio entre grupos dos dois países que trataram de diversos temas, como gênero, agricultura, literatura, história. Essas atividades científicas e sócio-culturais objetivavam estreitar os laços de amizade e solidariedade entre Brasil e Cuba, com participação da comunidade.
Os 15 anos de fundação do Rincão foi comemorado em 2025, ocasião do reinício das conversações com a diretora geral da Oficina do Historiador da Cidade (OHC) para a criação de uma Casa Brasil em Havana Velha, conforme as já existentes casas da África, da Bolívia e do México. Devido à confluência destes fatos e articulações ao longo do tempo, ainda em 2025 foi apresentada uma casa construída na metade do século XVIII, restaurada em 2016, na Rua Amargura, 56, entre San Ignacio e Mercaderes, que conserva elementos da arquitetura colonial e numerosos murais restaurados.
Quem está colaborando para a concretização desta ideia?
Desde o início das conversações, em finais de 2025, a participação da Embaixada do Brasil em Cuba, por meio do embaixador Christian Vargas, junto à OHC, tem sido fundamental para conseguir os recursos de diferentes empresários e organizações, entre os quais o apoio da Câmara Empresarial Brasil-Cuba e aportes do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba, para reparações necessárias, inclusive para preparação da infraestrutura em suas dependências para receber exposições, espaço para biblioteca, e todas as atividades socioculturais e científicas previstas na proposta de conteúdo e do projeto arquitetônico apresentado pela OHC, em um trabalho coletivo que continua a ser feito com muito entusiasmo.
A inauguração oficial da Casa Brasil deve ocorrer em setembro, no coração de Havana Velha, ano que marca o Centenário de Fidel Castro, os 120 anos de relações diplomáticas entre os dois países e 40 anos do restabelecimento de relações após o rompimento durante o regime militar, e ainda, em 11 de setembro, o nascimento de Eusébio Leal, ativista cubano. Já em junho o artista plástico brasileiro Fernando Sawaya (Cazé), com o apoio do Instituto Guimarães Rosa, será responsável por um mural brasileiro. Enfim, a Casa se constitui em uma ponte a mais de amizade, solidariedade, e identidade entre brasileiros e cubanos.

Qual o seu papel como professora da UnB (Universidade de Brasília) na criação da casa? Há quanto tempo mora em Cuba?
Meu papel na composição do grupo que decidiu por essa Casa está indiretamente relacionado ao fato de ser professora da UnB, ainda que esse aspecto possa ter influenciado porque sou membro fundador do Nescuba – Núcleo de Estudos Cubanos, do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília, que comemorou, no ano passado, 30 anos de sua criação.
Este Núcleo também está vinculado ao Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba. Por outro lado, na primeira vez que vim a Cuba, em 1984, conheci a Hélio Dutra e a Ela Álvarez Delgado, cubana, sua mulher, que sempre esteve ao seu lado no trabalho revolucionário e nas manifestações de amizade e solidariedade entre brasileiros e cubanos. Foi nessa ocasião que soube da fundação em Cuba de uma Associação de Solidariedade Brasil-Cuba, da qual Hélio Dutra fazia parte e seu presidente foi Júlio Le Riverand, intelectual cubano.
A inauguração oficial da Casa Brasil deve ocorrer em setembro, no coração de Havana Velha, ano que marca o Centenário de Fidel Castro
Neste período, nossa referência de solidariedade Brasil-Cuba, que apoiava os exilados brasileiros durante a ditadura militar, já lutava por uma Casa Brasil em Havana e eu o apoiava da maneira que podia nessa busca. Quando Hélio falece aos 96 anos, retomamos essa luta, com o apoio do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba e do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), com a criação do Rincão do Brasil em Cuba, Memorial Hélio Dutra, e depois percorrendo um caminho, coletivamente.
Como a senhora foi parar em Cuba? Família?
Minha primeira viagem a um país socialista foi à China em 1980 e meu desejo era conhecer Cuba também, mas com o golpe militar de 1964 foram rompidas as relações diplomáticas entre nossos países. Em 1984, dois anos antes do restabelecimento das relações diplomáticas, fiz minha primeira viagem, visitei o ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos) e iniciamos em Brasília o trabalho de solidariedade fundando a Associação Cultural Brasil-Cuba em junho de 1986, formalizada depois na assinatura de documento, traduzido por Hélio Dutra, em ato solene.
Continuei minhas viagens anuais a Cuba, participando de eventos, de brigadas de solidariedade e no Brasil de um grupo que organizava Encontros Nacionais anuais, à época nos comunicando por telegramas, cartas e telefone, para descobrir grupos e associações que existiam no Brasil e que se articulavam com Cuba. O primeiro Encontro Nacional das Associações de Solidariedade a Cuba foi realizado em Brasília, em abril de 1987, presentes: Brasília, Belo Horizonte, Goiânia (em formação), Florianópolis (em formação), Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre. O segundo em Belo Horizonte, outubro de 1987, presentes: Brasília, Belo Horizonte, Goiânia, Vitória, Belém e Porto Alegre.
Seguiram-se mais quatro encontros nacionais: Brasília (agosto de 1989), Belo Horizonte (março de 1990), Rio de Janeiro (setembro de 1990) e São Paulo (1991). Esses encontros buscavam organizar um trabalho articulado entre as diferentes entidades de solidariedade existentes e em vias de serem criadas e incentivar a criação de mais entidades para ampliar o trabalho de solidariedade com Cuba no Brasil. Em 1992, aprovada a proposta, no II Encontro Latino-americano de Solidariedade a Cuba, realizado em Havana, da transformação dos Encontros Nacionais no Brasil em Convenções Nacionais. Todos de “Solidariedade brasileira a Cuba: uma história de luta e paixão por Nossa América”.
E a solidariedade a Cuba é permanente ou efêmera?
O nosso movimento avança com ampliação na sua participação e realiza campanhas de doações de recursos para o envio de painéis solares a Cuba e de ajuda humanitária, por diferentes meios, como alimentos e medicamentos e de documentos contra o bloqueio recrudescido nesta conjuntura, com provocações e ameaças de invasão militar à Ilha.
Vamos realizar em maio de 2027 a 28ª Convenção Nacional de Solidariedade com Cuba em Brasília e estamos avançando na sua organização, formadas já comissões de trabalho nas quais participam representantes do Movimento de Solidariedade, organizações da sociedade civil, partidos políticos, sindicatos, movimentos populares e sociais.
Aqui em Havana, onde moro, tenho muitos amigos apaixonados pelo Brasil. Este é um povo sempre solidário
Entre 1996 e 2000, realizei meu doutorado em Ciências Sociológicas na Universidade de Havana como residente, no período especial e há uma publicação de minha tese em português e em espanhol “Mulher e Política Social em Cuba: o contraponto socialista ao bem estar capitalista”.
E a participação da Universidade de Brasília?
O núcleo de Estudos Cubanos da UnB oferece a estudantes de vários cursos a disciplina “Processo sócio-histórico cubano e contexto atual” há 20 anos. A cada semestre letivo realiza pesquisas sobre diferentes temas, firma convênios com universidades e organizações cubanas, organiza atividades políticas a favor de Cuba e das causas justas, organiza e participa de outras relativas às datas históricas de Cuba, promove intercâmbios, de estudantes e de formação de redes, sendo o mais recente, a cada ano, desde 2023, sobre as aproximações dos pensamentos libertários de José Martí e Paulo Freire.
Minha família sempre me apoiou nessas atividades e me visitaram os três filhos. Tenho quatro netos e a mais velha, formada em cinema, tem a aspiração de fazer um curso na Escola Internacional de Cine de San Antonio de los Baños. Aqui em Havana, onde moro, tenho muitos amigos apaixonados pelo Brasil. Este é um povo sempre solidário.
Como está a vida em Cuba depois das novas ameaças de Trump?
Cuba vive o período mais complexo de sua história, mais do que o chamado Período Especial em Tempos de Paz, quando desapareceu o campo socialista. Os Estados Unidos, desde o século XVIII, quer se apoderar de Cuba, conforme a história demonstra. Antes mesmo da assinatura oficial do embargo em outubro de 1960, e suas leis pertinentes, havia sérias ingerências históricas.
O objetivo central dos Estados Unidos sempre foi a mudança de sistema, não suportam que uma pequena ilha, geograficamente falando, gigante em exemplos de políticas sociais
Em épocas de crises nacionais e internacionais, as medidas se implementam de forma cruel e genocida. Como exemplo cito a época da pandemia, quando aqui vivi por quase um ano isolada e foram editadas por Trump 243 medidas a mais, relativas ao bloqueio. O governo seguinte, o de Biden, não retirou nenhuma delas. Além de tudo, Cuba é colocada na lista de países supostamente promotores do terrorismo, o que também impede o comércio por empresas e bancos.
O objetivo central dos Estados Unidos sempre foi a mudança de sistema, não suportam que uma pequena ilha, geograficamente falando, gigante em exemplos de políticas sociais efetivas de saúde e educação e de manifestações de solidariedade internacionalista, situada a 90 milhas de distância do Império, resista, busque alternativas, conte com apoio de países, especialmente Rússia e China, defende seus princípios socialistas, haja vista as massivas manifestações recentes da comemoração do 1º de maio e do dia 22, quando indiciaram o General de Exército Raúl Castro líder da Revolução Cubana, por incidentes provocados por Estados Unidos há 30 anos.
Assim, nesta conjuntura, quando o mundo passa por problemas econômicos, políticos, sociais, de guerras, o bloqueio a Cuba aumenta para asfixiar o povo cubano e causar indignação e revolta, incluindo as notícias falsas que confundem o povo e as pessoas que apoiam a revolução. E as ameaças crescem por parte do Império. Essa é a aposta daqueles que asfixiam a Cuba, ao governo e especialmente ao povo cubano.
E a questão da crise energética?
Hoje o bloqueio não é só econômico, comercial, financeiro, extraterritorial, mas energético. A falta de energia, os apagões em toda Cuba, afetam o sistema de educação, saúde, transporte, enfim, causam impactos no cotidiano dos cubanos.
Por outro lado, os apoios e a resistência do povo também crescem. As ajudas humanitárias de diversos países, organizações e amigos e amigas de Cuba para infraestrutura energética também são consistentes, especialmente da Rússia e China. Cuba não está só. A cultura, permeada historicamente na vida dos cubanos, com Fidel Castro como seu maior incentivador desde os primórdios da Revolução, é aspecto importante nestes tempos. Um povo sem transporte forte faz sacrifícios para ver uma obra de teatro, um filme, uma dança seja clássica, seja popular, desafia dificuldades e persiste, como tenho presenciado pessoalmente.
As ajudas humanitárias de diversos países, organizações e amigos e amigas de Cuba para infraestrutura energética são consistentes
Ameaças existem, mas aqui houve uma revolução e, como dizem os cubanos, parafraseando o revolucionário histórico Juan Almeida Bosque, “Aqui no se rinde nadie” (lema de perseverança na luta por ideais coletivos e dignidade). Assim, ampliemos nossa solidariedade, tudo que possamos fazer a favor de Cuba será pouco, diante do que tem demonstrado este país ao longo de seu processo revolucionário. Solidariedade se paga com solidariedade. Cuba tem demonstrado ser o país mais solidário do mundo.
Qual a sua especialidade na área educacional como professora?
Sou aposentada da UnB, graduada em Sociologia e Serviço Social, mestre em Política Social pela UnB e doutora em Ciências Sociológicas pela Universidade de Havana. Continuo dando aula no curso do Nescuba do qual falei, dou palestras, entrevistas, apresento livros, etc. – penso que esta é a batalha de ideias que nós, militantes, temos de realizar, e que aprendi nos escritos e discursos de José Martí, herói e libertador de Cuba, e de Fidel, o mais martiano dos cubanos, chamado de Soldado das Ideias.
Há publicações importantes de Martí no site do Nescuba, cuja tradução no caso de Nossa América (Dionísio Baró e Maria Auxiliadora César) e de compilação, seleção e tradução de textos das obras completas sobre o Partido Revolucionário Cubano, que é concepção original ética e política original de partido (Dionísio Baró e Maria Auxiliadora César) e que nos oferece conceitos importantes também para a construção de um mundo justo e solidário. E como a história se vive em Cuba e Martí é o herói nacional da República de Cuba e Fidel o Comandante Histórico da Revolução Cubana, repito: “Aqui no se rinde nadie”
*Hélio Dutra Domingues nasceu em 1908 no Rio. Ele chegou a Cuba em 1945, logo após o término da 2ª Guerra Mundial, para instalar uma filial do Laboratório Labrápia. Se apaixonou pelo país. Publicou o livro “Querida Ilha” em 1988. Entusiasta de Cuba, comunista e participate do poder revolucionário do país. Dutra faleceu em 18 de março de 2004, 20 dias após a morte de Ela Álvarez Delgado, sua companheira nos últimos 40 anos de vida na luta por um mundo melhor e que dividia com ele o trabalho de solidariedade entre brasileiros e cubanos.
