Polo histórico da cena cultural independente, a Praça Roosevelt une memória, formação artística, resistência cultural e construção de memória coletiva em meio às transformações urbanas do centro de São Paulo.
A sede da companhia teatral Satyros, o Espaço Parlapatões e a SP Escola de Teatro são alguns dos locais que fortalecem o papel da cultura na reocupação da região central de São Paulo, preservando modos de fazer teatro ligados à história da região e contribuindo para a continuidade dessa presença cultural no território.
Fundado em 1989, o Satyros chegou à praça Roosevelt em 2000, integrando a população em situação de vulnerabilidade social ao movimento artístico, ocupando a praça como um palco de criação e de encontros culturais, como conta Rodolfo Garcia Vásquez, um dos fundadores da companhia.

Essa presença e permanência acompanham as transformações sociais e urbanas, salvaguardando a memória e a identidade cultural do centro da cidade.
“A Praça Roosevelt era considerada um dos lugares mais perigosos do centro de São Paulo. E nós começamos a conviver com a comunidade local, principalmente os traficantes e as prostitutas, mulheres trans e os garotos de programa. Chamamos alguns deles para trabalhar conosco, porque a gente sentia que a gente tinha que se integrar nessa região e conviver e estabelecer um vínculo com a região. Então, foi aí que começamos a trabalhar também com temas relacionados à nossa convivência com essa realidade da Praça Roosevelt”, diz Vásquez.
A partir deste encontro com o espaço e da ocupação cultural, a realidade local começou a mudar. O que antes era uma calçada deserta transformou-se gradativamente em um polo de atração noturna e turística para a região central. “A praça começou a ficar mais segura, foram abrindo outros teatros e bares”, afirma o diretor dos Satyros.
A companhia Parlapatões, que fazia números de palhaçaria e de circo nas ruas desde 1991, chegou à praça em 2006. Desde sua inauguração, o Espaço Parlapatões recebe espetáculos do grupo, bem como de outros coletivos e companhias, nacionais e internacionais. Produz e sedia mostras, festivais e eventos, como o Festival de Cenas Cômicas e o Festival de Peças de Um Minuto. Por meio de uma parceria com os Satyros, o grupo viu a região se transformar e se tornar um polo teatral.

“A gente criou um binômio aqui entre cultura e boemia”, pontua Hugo Possolo, um dos fundadores da companhia teatral, que hoje é proprietária de um espaço que conjuga bar e sala de apresentações.
Convivência social e cultural
A Praça Roosevelt possui um histórico de convívio social e cultural rico. Para além da vida noturna, a praça já foi referência no esporte, pois ali ficava o Velódromo de São Paulo, estádio onde ocorreram os primeiros campeonatos paulistas de futebol. Hoje, skatistas frequentemente utilizam os corrimões da praça para praticar manobras e há equipamentos de ginástica públicos para quem quer se exercitar.
A história se reflete também na diversidade de estabelecimentos comerciais, como os bares que ali se instalaram. A década de 1960 foi marcada por um intenso movimento musical na região, com destaque para a boate Djalma’s, que sediou o primeiro show de Elis Regina na capital paulista. Hoje, o local abriga o bar Papo, Pinga e Petisco.
A sede dos Parlapatões, por sua vez, funcionou como padaria e supermercado nas décadas de 1970 e 1980. Durante o período, a praça também era lar de cineclubes e serviu como polo de produção cinematográfica das chamadas “chanchadas”.
Hugo Possolo relata que a união de forças gerou uma semente transformadora e defende a importância do acolhimento na reconfiguração urbana. “Eu acho que é isso que a gente tem que fazer: esse envolvimento de uma perspectiva de cidadania, de aproximação e não de expulsão. Eu acho que essa relação é fundamental para mudar um território, que ele esteja integrado.”
A Escola de Teatro SP
Toda essa bagagem e a articulação coletiva entre os grupos teatrais culminaram em projetos de impacto nacional. “Isso desembocou em várias coisas. Tanto que Satyros, os Parlapatões e uma série de outros grupos, pelo menos oito ou dez coletivos da cidade, acabaram se reunindo para gerar e desenvolver a SP Escola de Teatro, que é da Secretaria de Estado da Cultura, mas que é uma semente que foi colocada e que a gente conseguiu que o poder público apoiasse e tornasse uma realidade, uma escola de teatro, talvez a maior do país hoje”, segue Possolo.

Inaugurada em 2010, durante o mandato do ex-prefeito José Serra, a “SP”, como é apelidada, tornou-se um dos maiores projetos de formação das artes do palco do Brasil. “O Serra é um cara muito culto e frequentador de teatro e um dia ele chegou nos Satyros e percebeu a movimentação nossa ali. Nós tínhamos um projeto no Jardim Pantanal, bairro localizado na Zona Leste de São Paulo, em que trabalhávamos a formação principalmente nas áreas técnicas, com os meninos e meninas dali. Ele achou curioso e propôs, então, que criássemos uma escola de teatro no centro da cidade.”
Vinculada à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, a instituição é gerida pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap) e oferece oito cursos técnicos gratuitos com dois anos de duração: Atuação, Cenografia & Figurino, Direção, Dramaturgia, Humor, Iluminação, Sonoplastia e Técnicas de Palco. Também oferece dezenas de cursos livres de extensão e recebe apresentações teatrais e outros eventos culturais.
“A gente transformou essa Escola de Teatro num dos maiores projetos de formação, talvez o maior projeto de formação das artes do palco do Brasil. É um projeto bastante vitorioso. A gente recebe 400 estudantes em dois períodos, manhã e tarde, em formação regular, além dos cursos de extensão, e daí são milhares de estudantes que frequentam esses cursos durante o ano.”
A partir de 2017, a escola transformou o curso livre em um curso técnico e, neste ano, na SP Escola Superior de Teatro.
Atualmente, o espaço Parlapatões está com mais de dez peças e eventos em cartaz, entre eles o espetáculo “O Retrato de Dorian Gray”, “Dois Palitos” e a Oficina de Improvisação Teatral. Já a companhia de teatro Satyros está com inscrições abertas para a “Oficina Livre de Interpretação Os Satyros” e com sessões de filmes no Cine Satyros Bijou.
Hoje, os teatros da região ajudam a preservar a memória cultural, fortalecendo a relação entre arte, comunidade e o território do centro de São Paulo.
Acesse a programação completa:
https://parlapatoes.com.br/site/
https://satyros.com.br/em-cartaz/
https://www.cultura.sp.gov.br/sec_cultura/Programas/Forma%C3%A7%C3%A3o/SP_Escola_de_Teatro
* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.
