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Um ano da prisão e inabilitação de Cristina Fernández de Kirchner: lawfare, desestatização e ajuste na Argentina

O que está em jogo não é apenas o destino de uma pessoa; o que está é a qualidade da democracia na Argentina e na região

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com Cristina Kirchner. Buenos Aires, Argentina.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com Cristina Kirchner. Buenos Aires, Argentina. | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

No dia 10 de junho de 2025, os três juízes da debilitada Suprema Corte de Justiça da Nação Argentina — Horacio Rosatti, Ricardo Lorenzetti e Carlos Rosenkrantz — ratificaram a condenação contra Cristina Fernández de Kirchner (CFK) no caso conhecido como “Vialidad”. Sete dias depois, 17 de junho, a ex-presidenta passou a cumprir prisão domiciliar em seu apartamento no bairro portenho de Constitución. Esta semana completa-se um ano desse momento. Este aniversário não é apenas uma data: é a ocasião para reafirmar que o ocorrido com CFK, dirigente política que foi eleita pelo voto popular como presidenta entre 2007 e 2015 e vice-presidenta entre 2019 e 2023, constitui um dos casos mais emblemáticos de lawfare na América Latina.

A condenação ratificada pela Corte (apenas oito dias após CFK tornar pública sua intenção de candidatar-se a deputada provincial de Buenos Aires nas eleições de setembro) estabelece seis anos de prisão e inabilitação perpétua para exercer cargos públicos, além do confisco de bens no valor aproximado de 500 milhões de dólares. Na prática, essa pena implica a proscrição vitalícia da principal dirigente da oposição argentina (ao governo de Javier Milei), líder do peronismo e presidenta do Partido Justicialista.

Além disso, as condições da prisão domiciliar impostas a CFK são mais severas do que as aplicadas a condenados por crimes contra a humanidade ou por delitos graves, como o narcotráfico. Cristina tem as visitas restringidas (deve solicitar autorização para cada uma delas e recebe permissão por apenas algumas horas por semana), é obrigada a usar tornozeleira eletrônica e até mesmo seus deslocamentos dentro do apartamento são monitorados. O lawfare na Argentina encontra nesse ponto sua expressão máxima, corroendo gravemente a democracia e a vigência do Estado de Direito.

Um processo repleto de irregularidades

A causa Vialidad tem origem em uma investigação sobre a adjudicação de obras públicas na província de Santa Cruz durante os governos de Néstor Kirchner e CFK. Segundo a acusação, um empresário em particular, Lázaro Báez, teria sido favorecido ilegalmente, ao mesmo tempo em que os promotores alegaram a existência de sobrepreços. Contudo, o que deveria ter sido uma oportunidade para esclarecer com rigor jurídico se ocorreram ou não delitos, acabou transformando-se em um processo marcado por graves violações ao devido processo legal e permeado por interesses políticos. A sentença de primeira instância, proferida pelo Tribunal Oral Federal nº 2 em dezembro de 2022 (apenas dois meses após a tentativa de magnicídio contra CFK, cujas autorias mediatas jamais foram investigadas em profundidade), e confirmada pela Sala IV da Câmara Federal de Cassação Penal em novembro de 2024, baseou-se em irregularidades processuais e vícios de mérito: ausência de provas diretas, testemunhas desconsideradas e provas rejeitadas em violação ao direito de defesa, afronta ao princípio do non bis in idem (os mesmos fatos já haviam sido julgados), perícias forçadas e falsas, promotores e juízes suspeitos de parcialidade e nomeados de forma irregular, em violação ao princípio do juiz natural. Em nenhum momento foi comprovada a responsabilidade de CFK na prática de qualquer delito.

O jurista E. Raúl Zaffaroni sintetizou a situação com uma metáfora contundente: a causa Vialidad pode ser descrita pela imagem de que “sob a toga está o machado do carrasco”, advertindo que a Argentina estava “chegando ao fundo do poço” em matéria de justiça, por responsabilidade de um pequeno grupo de juízes posicionados em lugares estratégicos. O ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, por sua vez, classificou o processo como “juridicamente inadmissível”, afirmou que “é evidente que o objetivo é político” e denunciou um “linchamento político” por parte dos juízes argentinos em uma carta aberta dirigida aos magistrados envolvidos.

O objetivo político: proscrição e inabilitação

Entre a dúzia de processos construídos e acumulados contra CFK nos últimos anos, o que mais avançou foi a chamada causa Vialidad, que configurou de forma clara um cenário de inabilitação política da ex-chefe de Estado. Atualmente, busca-se dar continuidade ao lawfare por meio de outro processo absolutamente viciado: a causa Cuadernos. Essa acumulação de processos não é casual nem resultado de investigações independentes: trata-se da expressão de uma estratégia deliberada de desgaste, deslegitimação e proscrição. Ao mesmo tempo, o Observatório Lawfare demonstrou a existência de denunciantes seriais, pessoas que denunciaram CFK dezenas de vezes com base em fatos inventados ou sem qualquer prova, mas que serviram de maneira significativa à estratégia de desgaste público.

O lawfare é uma estratégia de desestabilização multidimensional que recorre a diversas ferramentas que podem operar simultaneamente e em paralelo, com um timing específico, já que decisões judiciais cruciais são tomadas em determinados momentos para exercer maior pressão política. Nesse sentido, a inabilitação perpétua constitui a pena mais reveladora dos objetivos reais do processo. Como assinala Gisele Ricobom no livro “Objetivo Cristina”, essa pena equivale a um “magnicídio civil”: a eliminação de uma figura política sem derramamento de sangue, por meio de uma sentença judicial. A jornalista Sofía Caram documenta no livro “Condenada” que o pedido de inabilitação perpétua formulado pelos promotores Diego Luciani e Sergio Mola foi interpretado desde o início como “uma tentativa de proscrição diante das eleições presidenciais de 2023”. Os tempos do processo judicial e os tempos do processo eleitoral não estiveram dissociados.

Um fenômeno regional

O caso de CFK não pode ser compreendido plenamente se for isolado de seu contexto regional. O lawfare baseia-se em uma guerra travada pela via judicial-midiática: denúncias e processos judiciais são utilizados de forma seletiva e permanente, sendo amplificados pelos meios de comunicação. O lawfare é a resposta dos centros de poder, alinhados particularmente aos interesses dos Estados Unidos e de seus aliados locais, para conter o ciclo de governos populares que hegemonizou a política latino-americana na primeira década do século 21.

O Brasil foi o laboratório daquilo que depois seria aplicado na Argentina, no Equador, na Bolívia e em outros países. A Operação Lava Jato, o maior processo judicial da região, foi uma fabricação de acusações de corrupção contra Lula da Silva, que se somou ao impeachment ilegal contra Dilma Rousseff, tudo com o objetivo de retirar o Partido dos Trabalhadores do governo e impedir que Lula concorresse às eleições de 2018. Por meio de promotores e juízes submetidos a esses interesses corporativos, impulsionaram-se processos destinados a proscrever lideranças progressistas e populares, violando o direito de defesa, o princípio da presunção de inocência e a independência judicial. O lawfare opera na América Latina às custas de nossas democracias.

Os interesses por trás do lawfare: desestatização e ajuste

O lawfare não é apenas uma disputa política: possui interesses econômicos e geopolíticos concretos. Um de seus objetivos centrais é a desestatização: a reversão de políticas estatais que ampliam a presença pública em setores estratégicos da economia, o desmantelamento de projetos de desenvolvimento soberano e a subordinação das economias nacionais aos interesses do capital transnacional. Esse fenômeno de desestatização busca avançar em reformas legais favoráveis às corporações financeiras globais, garantindo-lhes rendas extraordinárias que dependem da superexploração do trabalho e do ajuste das funções fundamentais do Estado em áreas como educação, saúde, infraestrutura, cultura, proteção ambiental e defesa.

Nesse contexto, a perseguição a CFK possui um sentido preciso: eliminar do cenário político a liderança que mais consistentemente encarnou, neste século na Argentina, uma proposta de desenvolvimento nacional com autonomia frente aos condicionamentos externos. O lawfare, em última instância, invade a soberania, rompe a democracia e transforma a Constituição Nacional em uma folha de papel, permitindo o avanço de transformações regressivas em matéria de direitos humanos.

Um ano depois

Um ano após o início da prisão domiciliar de CFK, o julgamento oral da causa Cuadernos, outro dos processos que compõem a engrenagem do lawfare argentino, encontra-se em pleno andamento perante o Tribunal Oral Federal nº 7. Nesse julgamento, quase trinta acusados e advogados de defesa relataram, em audiências públicas, pressões, coações e condicionamentos que comprometem a validade da instrução do processo. Os depoimentos confirmam um padrão sistemático: o uso da prisão preventiva como instrumento de extorsão para obter confissões e comprometer dirigentes políticos.

O que está em jogo não é apenas o destino de uma pessoa, por mais relevante que seja sua trajetória política. O que está em jogo é a qualidade da democracia na Argentina e na região, o direito dos povos de escolher seus representantes sem que o aparato judicial-midiático opere como filtro dos candidatos considerados admissíveis, e a possibilidade de construir projetos políticos soberanos em um continente que historicamente luta para resistir e reverter diferentes formas de tutela externa.

*Silvina Romano, Marcelo Maisonnave, Tamara Lajtman e Aníbal García Fernández são membros do Observatório Lawfare.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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