COPA DO MUNDO

O futebol visto como mercadoria

A má qualidade do jogo contra o Marrocos é apenas o sintoma visível

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Vini Jr. foi destaque na partida com várias chances de gol.
Vini Jr. foi destaque na partida com várias chances de gol. | Crédito: Foto: Fifa

A má qualidade do futebol brasileiro, na atualidade, deve ser motivo de exame criterioso.

Se observa que há um evidente paralelo entre a exportação de jovens craques para a Europa, sobretudo, e a exportação de matérias-primas como soja e minérios (commodities) que irão criar valor (muito valor) em outros países.

No futebol estamos cometendo os mesmos erros.

Exportamos precocemente talentos (riqueza primária) brutos no futebol, na agricultura e na mineração.

Assim como commodities (soja, minério, petróleo), o Brasil exporta jogadores cada vez mais jovens, muitas vezes antes de amadurecerem taticamente.

Clubes europeus os “beneficiam” (agregam valor tático, físico e emocional) e os revendem por muito mais.

O futebol brasileiro não consegue reter seus melhores talentos na fase produtiva madura. A seleção, então, recebe esses jogadores já “industrializados” pela Europa, com estilo de jogo europeizado e pouca identidade coletiva.

Assim como a soja brasileira gera empregos e tecnologia em Rotterdan, não no Mato Grosso, o “valor tático” do futebol brasileiro é gerado na Europa. O Brasil virou celeiro, não fábrica de futebol sofisticado.

Muitos atletas saem tão cedo que nem chegam a criar vínculo com escola tática brasuca. Viram peças ajustáveis ao sistema europeu, perdendo características próprias (ginga, improviso, criatividade e ímpeto próprio).

Jogadores não são idênticos. Há talentos diferenciados que, mesmo vendidos cedo, mantêm capacidade de decidir jogos. Foi o caso do Vini Jr. contra os marroquinos. Vini – vocês perceberam? – não é “soja”.

Uma fase ruim não significa transformação estrutural definitiva. O Brasil já teve ciclos ruins antes (1974, 1990, 2014) e se reergueu.

Embora reduzida, ainda há clubes (Flamengo e Palmeiras) que conseguem treinar, taticamente, jogadores e vendê-los mais acabados e prontos do que antes.

É razoável pois, como metáfora crítica, afirmar que o Brasil se “commoditizou” (um neologismo improvisado) no futebol mundial: exporta matéria-prima (jovens atletas com alto potencial bruto) para ser refinada na Europa.

A atual má qualidade da seleção reflete essa desconexão: jogadores desencontrados, sem entendimento coletivo, atuando como peças de sistemas diferentes montadas às pressas. Para agravar, um treinador europeu, que instrui o grupo a jogar como na Europa.

Resultado: tudo fica artificial e desenraizado da condição original do velho e bom futebol brasuca.

No entanto, não é uma lei imutável – o Brasil ainda tem capital humano e histórico para reverter esse quadro, desde que haja vontade estrutural para valorizar o futebol doméstico.

A tudo isso, Marx chamaria essa trama econômica envolvendo jogadores de futebol de reificação. Quer dizer: relações sociais entre pessoas que assumem a forma de relações entre coisas, ou melhor dito, mercadorias.

O jovem atleta brasileiro é tratado como ativo financeiro desde cedo (15-16 anos). Tem cláusulas de rescisão, percentuais de direitos econômicos fracionados, contratos de formação que são títulos negociáveis.

Sua subjetividade (desejos, dores, contexto cultural) é secundária diante do seu valor de troca. O “craque” vira “stock” a ser estocado (emprestado a clubes menores), valorizado e vendido.

Por qual motivo jogamos tão mal?

A seleção joga mal porque seus jogadores não conseguem transitar da consciência reificada (mercadoria) para a consciência coletiva (nação, brasilidade). Eles só sabem atuar como peças de um sistema quebrado.

Jogadores não jogam juntos. São onze mercadorias justapostas, cada uma com seu script de clube europeu. O jogo contra o Marrocos exibiu sobradas evidências acerca disso.

A identidade tática brasileira (se é que ainda existe) foi fragmentada pela lógica do mercado. Cada clube europeu tem seu método, e o atleta não tem tempo ou estímulo para construir um ser-coletivo nacional-popular.

Lukács identifica que a reificação atinge mais duramente aqueles cujo trabalho é diretamente subsumido ao capital sem mediações.

O jogador brasileiro típico vem de periferia (baixo poder de barganha), assina contratos restritivos na base (os chamados contratos de formação), tem seus direitos econômicos fracionados (clube formador, empresário, fundos de investimento).

Sua subjetividade – sonhos, medos, vontade de jogar – é secundária diante do valor de troca.

Ele sabe disso. Lukács diria que ele internaliza essa reificação: passa a se ver como “empresa de si mesmo”, negociando seu próprio corpo como coisa.

O jogador brasileiro é um produtor de riqueza alheia: sua ginga, seu drible (algo que está em extinção) gera bilhões para clubes europeus, enquanto ele fica com uma fração (mesmo que grande em termos absolutos, ínfima em relação ao valor que produz).

A má qualidade do jogo contra o Marrocos é apenas o sintoma visível.

A doença é estrutural. A vitória do valor de troca sobre o valor de uso do futebol como arte, identidade e alegria coletiva.

Ou, nas palavras do próprio Lukács (claro, adaptadas):

“O que era vivo e orgânico – o futebol do povo – se petrifica em um sistema formal de mercadorias que dançam sem alma sob as luzes do estádio.”

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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