Pela primeira vez, a Escola Internacional de Bioinsumos, da Associação Internacional para Cooperação Popular (AICP), Baobab, está sendo realizada na China, com a Universidade de Agricultura da China, como anfitriã. O programa de formação reúne, nesta sexta edição, camponeses, pesquisadores, integrantes de movimentos populares, representantes de governos e de empresas em torno da produção de bioinsumos: fertilizantes orgânicos, inoculantes microbianos, compostos e caldas minerais obtidos a partir de microrganismos e processos biológicos, que atuam na fertilidade do solo, na nutrição das plantas e no manejo de pragas e doenças.
A coordenação do programa do lado brasileiro é da pesquisadora Caroline Gomide, da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora visitante na Universidade de Agricultura da China (UAC). Gomide liga a escolha do país à estratégia de revitalização rural em curso na China desde 2017 e à capacidade do Estado de levá-la adiante: “Estamos no país que tem um Estado socialista com a capacidade de coordenar essas transformações ecológicas em escala nacional. Estou aqui há três anos e consigo ver como os avanços que acontecem: como a decisão da política é colocada em operação muito rapidamente”, diz Gomide.
A escola parte de um desafio identificado em todo o Sul Global: o crescimento dos volumes de resíduos orgânicos urbanos e rurais em ritmo superior à capacidade das infraestruturas de tratamento, com pressão sobre aterros sanitários, degradação do solo e emissões de gases de efeito estufa, em especial metano.
A China tem desenvolvido tecnologias de compostagem, entre elas reatores fechados e inoculantes microbianos, capazes de reduzir o tempo de processamento de resíduos orgânicos de meses para dias, e com custos abaixo de outros países que dominam essas tecnologias.
O curso começou nesta segunda-feira (15) e segue até 30 de junho na Escola de Revitalização Rural de Suzhou, na província de Jiangsu, reunindo 29 participantes de 13 países do Sul Global (incluindo a anfitriã China): Argentina, Bangladesh, Brasil, Egito, Gana, Iraque, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Tanzânia, entre outros. A edição integra o Programa Internacional de Treinamento em Manejo Sustentável e Tecnologia Acelerada de Compostagem de Resíduos Orgânicos, organizado pela UAC em parceria com a Baobab e a empresa Beijing Voto Biotech Group, sob orientação do Ministério da Ciência e Tecnologia da China.
O programa combina aulas expositivas sobre microbiologia, tecnologia de compostagem, tratamento anaeróbico e produção de fertilizantes, com demonstração prática de um reator de compostagem de 80 litros e quatro visitas técnicas a unidades em operação em Jiangsu e Xangai. Dois dias finais são reservados para que os participantes apresentem as condições do tratamento de resíduos orgânicos em seus países de origem e debatam modelos econômicos de economia circular aplicáveis ao Sul Global.
Papel dos bioinsumos na agroecologia
Bárbara Loureiro, coordenadora do Baobab no Brasil, situa o papel dos bioinsumos dentro da agroecologia a partir da dependência histórica do Sul Global. “Os sistemas alimentares do Sul Global foram construídos numa lógica de subordinação ao mercado internacional, seja para fornecer matéria-prima, seja para comprar insumos do Norte Global. A produção de bioinsumos está atrelada a uma lógica de construção de autonomia vinculada à agroecologia. Não é só uma disputa de modelo técnico de produção, mas passa pela organização do território, dos sistemas produtivos, do trabalho e da cooperação”, afirma.
Para Loureiro, a transferência de tecnologia historicamente também reproduz relações de subordinação, e o desafio agora é inverter essa lógica em direção à autonomia e à emancipação.
“Depois da Revolução Verde, que exauriu o solo, vem todo esse processo de recuperar não só a matéria orgânica, mas também a vida do solo. Esse é um elemento que os bioinsumos, em geral, trazem: a reativação da vida no solo, a recuperação do que a natureza, durante milhões de anos, foi construindo, trazendo a fertilidade do solo de volta”, avalia.
O processo da Escola de Bioinsumos
Paula Veliz, da equipe técnica de bioinsumos do Baobab, descreve o que a Boabab visa com as escolas de bioinsumos : “A ideia é criar um espaço de consolidação técnica em torno da tecnologia dos bioinsumos, que seja também um espaço de formação política e organizativa, e que acolha as propostas que os movimentos vêm construindo em seus territórios para a massificação dessa tecnologia, seja na identificação de necessidades tecnológicas, seja em propostas de política pública e de regulamentação”.
Entre os objetivos específicos, Veliz menciona a profissionalização de processos comuns de produção e comercialização de bioinsumos camponeses, como a organização de biofábricas por cooperativas, e a sistematização de experiências entre diferentes continentes.
Nesta edição, o perfil dos participantes foi ampliado. “Nas escolas, em geral, temos muitos camponeses, organizações de base, cooperativas e movimentos agroecológicos, além de pesquisadores e, em alguns casos, representantes de governo. Nessa escola, a diversidade é maior: temos representantes de governo, de empresas, o que nunca tinha ocorrido antes, e dos movimentos”, explica Caroline Gomide.
A escolha da China: revitalização rural e transição ecológica
Além da experiência mais recente da revitalização rural, a pesquisadora destaca o marco mais amplo da Civilização Ecológica para falar sobre a importância de realizar a escola na China.
Há também o componente histórico mais longo: “A China é uma civilização de agricultura muito antiga, e a região onde estamos realizando a escola é uma das mais antigas do mundo, com sete mil anos de história agrícola. A China alimentou historicamente uma população muito densa, enfrentando todos os desafios que isso traz”, diz.
Ela explica que a China tem uma agenda de transição em termos de fertilizantes, que está em andamento. A meta do país é chegar, entre 2035 e 2040, a uma proporção de 50% de fertilizantes sintéticos e 50% de orgânicos. “Isso está nos planos quinquenais, assim como o conceito de civilização ecológica, que entrou na Constituição chinesa em 2018 e trata a ecologia como fundação do progresso civilizacional”, explica Gomide.
Para a professora Gomide, a agroecologia funciona como um espaço compartilhado entre ciência, prática e movimento político, conectando conhecimento tradicional e agricultura sustentável.
Escola de Revitalização Rural de Suzhou
O curso está sendo realizado na Escola de Revitalização Rural de Suzhou, fundada em abril de 2018 e reconhecida como a primeira base integral de educação e treinamento em revitalização rural da província de Jiangsu. A instituição é administrada pelo Centro de Desenvolvimento da Academia de Revitalização Rural de Suzhou, vinculado ao Departamento de Organização do Comitê Distrital de Wuzhong do Partido Comunista da China (PCCh).
Instalada em uma área de cerca de 102 mu (6,8 hectares), a escola tem capacidade para receber cerca de 300 pessoas por dia. Desde a fundação, já realizou mais de 600 sessões de treinamento, com mais de 100 mil participantes, além de receber quase 800 visitas de estudo e inspeção, somando cerca de 130 mil pessoas, vindas de regiões como Hebei, Xizang, Guizhou e Mongólia Interior.
O currículo da escola é dividido em mais de 500 cursos organizados em dois eixos: um voltado à formação política e à construção do Partido, e outro dedicado ao desenvolvimento industrial, civilização ecológica e governança de base. O corpo docente reúne mais de 600 instrutores, entre especialistas, quadros locais e lideranças de desenvolvimento rural.
A escola é credenciada pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais e pelo Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural da China como base de formação de quadros do Partido na província de Jiangsu. Segundo proposta de consultoria elaborada em 2025, a instituição opera em prédio alugado e enfrenta pressão orçamentária sobre os governos distrital e municipal para cobrir custos operacionais e de aluguel, da ordem de 2,28 milhões de yuans por ano (mais de R$ 1,7 milhão), depois do fim de subsídios diretos do nível municipal.
Desafios e horizontes da agroecologia no Sul Global
Questionadas sobre os principais obstáculos à massificação da agroecologia, as integrantes do Baobab convergem na necessidade de enfrentamento ao modelo do agronegócio.
“Massificar a agroecologia se coloca diretamente em enfrentamento ao modelo do agronegócio, não só no Brasil, mas no Sul Global e no mundo. É uma disputa por acesso a tecnologias acessíveis, popularizadas e adaptáveis ao contexto territorial camponês e à diversidade de biomas e agroecossistemas, ao contrário do agronegócio, que produz cinco ou seis commodities. A agroecologia camponesa produz muito mais diversidade”, afirma Loureiro.
“A agroecologia não é só uma alternativa, ela é o caminho que precisamos construir, uma resposta à crise civilizatória, ambiental, ecológica e climática que vivemos, parte da crise do capitalismo”, diz.
Veliz elenca o acesso à terra como o desafio mais evidente para o desenvolvimento da agroecologia, mas aponta também para a mercantilização da produção orgânica.
“O agronegócio entendeu o potencial dessa tecnologia, e os bioinsumos hoje são o setor de maior crescimento dentro do mercado de insumos agrícolas. O agronegócio está tentando se apropriar dessa tecnologia e empacotá-la do mesmo jeito que fez com os fertilizantes químicos. Para nós, movimentos, o desafio é manter essa tecnologia soberana, sob controle dos camponeses e de suas estruturas de organização, sejam cooperativas, associações ou parcerias com o Estado”, explica.
“Sem o debate da reforma agrária e do acesso à terra, o insumo vira a mesma lógica de mercado, de nicho de orgânicos, e não resolve esses enfrentamentos civilizatórios maiores. Por isso dizemos que agroecologia sem reforma agrária é uma aposta sem projeto político”, afirma.
Perspectivas para a Escola de Bioinsumos
A professora da UnB coloca a escola dentro de um “processo de cooperação Sul-Sul, em que estamos acessando uma tecnologia das mais avançadas do mundo, de uma das melhores universidades agrícolas do mundo”.
Para frente, ela afirma que “a partir da diversidade de participantes, a expectativa é construir planejamentos de cooperação futura para adaptar essa tecnologia em cada país, como já estamos fazendo no Brasil, e ampliar essa rede entre os países do Sul Global”.
No Brasil, Gomide coordena projetos de cooperação com a UAC, a AICP, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Beijing Voto Biotech, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) para adaptar a tecnologia de compostagem ao país.
Segundo a pesquisadora, a tecnologia desenvolvida na China é capaz de enfrentar três problemas centrais para os países do Sul Global: o tratamento do resíduo orgânico, do qual cerca de 50% do volume gerado é hoje destinado a aterros sanitários ou a lixões a céu aberto, a dependência de fertilizantes sintéticos e a produção de bioinsumos voltada à massificação da agroecologia.
