O julgamento do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no Supremo Tribunal Federal (STF) começa nesta terça-feira (16). O filho 02 do ex-presidente Jair Bolsonaro responde por coação do Judiciário, após ser acusado de atuar para interferir nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. A sessão foi mantida após o ministro Alexandre de Moraes rejeitar, nesta segunda-feira (15), um pedido da Defensoria Pública da União (DPU) para adiar a análise do caso.
O cientista político Rafael Cortez afirma que a decisão de Moraes mostra um recado de que o STF, recentemente colocado em xeque com envolvimento de alguns de seus membros com o escândalo do Banco Master, vai enfrentar o episódio envolvendo Eduardo. “A Corte mostra a disposição de enfrentar esse tema. Há alguma incerteza do nível de coesão; algum pedido de vista sempre está no radar, especialmente diante de algum sinal de desunião ou divergência entre os ministros do STF. Como o STF tem estado reiteradamente na arena política, há sempre algum nível de estresse. A gente viu, por exemplo, disputas em relação à existência ou não de um código de ética que seria aplicado aos ministros do Supremo. Essa exposição política em algum momento vai se chocando com uma unidade institucional que se espera dos ministros do STF”, avalia.
Para o cientista político, independentemente do resultado, o julgamento repercutirá politicamente . “A simples presença dessa discussão na arena pública tem potencial de impactar o cenário eleitoral. Ainda que eu não espere nenhuma reversão muito aguda a partir desse desdobramento, porque isso está de alguma maneira incorporado no olhar do eleitorado, seja o crítico, seja o favorável à família Bolsonaro e mais particularmente ao Eduardo Bolsonaro”, defende.
A pesquisa de intenção de voto Futura/Apex, divulgada nesta terça-feira (16), mostra Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, com 48,1% contra 42,9%. Segundo Cortez, a reportagem que expôs a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro impactou bastante sua trajetória na corrida presidencial; contudo, ele ainda conta com o apoio automático de uma parcela considerável bolsonarista que votaria em qualquer pessoa que o ex-presidente indicasse.
“Não é um capital político dele, mas foi transferido e reforçado pelo fato de que metade do eleitorado não gosta do governo Lula. Esse eleitorado precisaria de uma indicação porque não quer a continuidade do governo. Quando o pai indica seu filho, Flávio cresce, mas não é um crescimento por atributos políticos dele”, explica. “Flávio vinha com mais graus de liberdade para construir uma candidatura, numa tentativa de dizer que ele era seu pai mais humanizado, e com isso ele constrói seu personagem com mais liberdade. Mas o caso Master evita isso. E agora, com o episódio de Donald Trump, ele se aproxima cada vez mais de seus familiares.”
Rafael Cortez não acredita que uma condenação de Eduardo vá gerar um impacto direto nas intenções de voto na disputa eleitoral; contudo, segundo ele, é possível imaginar um efeito no índice de rejeição.
“O efeito que eu enxergo é que o atual patamar de rejeição que Flávio enfrenta hoje permanecerá mais resiliente ao longo da campanha, em parte abastecida por esses vínculos de que o Flávio é parte desse núcleo que tem uma alta rejeição, e isso deixa ele com menos liberdade para construir um outro personagem e fica cada vez mais preso ao passado”, destaca o cientista político.
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