Economia russa

Rússia revisa projeções de crescimento e enfrenta desafios para sustentar economia de guerra

Kremlin reconhece desaceleração da economia, mas defende que diminuição do ritmo ocorre de forma controlada

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Imagem da moeda de rublo com a cidade de Moscou, capital da Rússia, ao fundo.
Moeda de rublo com a cidade de Moscou, capital da Rússia, ao fundo | Crédito: Alexander Nemenov/AFP

A economia russa começa a dar sinais de desaceleração. Após anos sustentando crescimento e demonstrando resiliência diante das sanções ocidentais impostas com o início da guerra na Ucrânia, o país passou a exibir indícios de enfraquecimento econômico. Revisões para baixo nas projeções de crescimento, inflação persistente e impactos crescentes das sanções sobre setores estratégicos e exportações estão entre os fatores que têm despertado preocupação.

Na última quarta-feira (10), analistas de instituições financeiras e de crédito russas reduziram sua previsão de crescimento do PIB do país de 1,0% para 0,7% em 2026. A informação foi divulgada pelo Banco Central da Rússia, que anunciou uma revisão após uma pesquisa macroeconômica.

A previsão de crescimento do PIB para 2027 foi mantida em 1,5%, enquanto a de 2028 foi reduzida de 1,8% para 1,7%. Já a previsão de inflação para 2026 também foi reduzida, de 5,5% para 5,3%. As previsões para os anos subsequentes permanecem inalteradas: queda para 4,4% em 2027 e para 4% em 2028.

Conjuntura em debate

A conjuntura econômica da Rússia tomou as discussões do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, realizado entre os dias 3 e 6 de junho. Considerado um dos eventos mais importantes do calendário político e econômico da Rússia, o encontro funciona tanto como uma vitrine para atrair investimentos e apresentar novos projetos quanto como um termômetro da situação econômica do país.

Em seu tradicional discurso de encerramento do fórum, o presidente russo, Vladimir Putin, traçou um panorama do cenário econômico atual da Rússia, reconhecendo a desaceleração do crescimento do país.

“Sim, o ritmo de crescimento econômico está atualmente moderado. Aqui, gostaria de relembrar a tarefa definida para o governo: a partir do próximo ano, precisamos retomar taxas de crescimento sustentáveis na economia nacional. Isso só pode ser alcançado sob uma condição: aumentando o investimento de capital e iniciando um novo ciclo de investimentos. De 2021 a 2024, o investimento na Rússia cresceu quase 38% em termos reais, enquanto, no ano passado, obviamente, houve uma queda”, afirmou.

Apesar dos sinais de perda de ritmo da economia russa, o Kremlin sustenta que o país atravessa apenas uma fase de desaceleração controlada após dois anos de crescimento impulsionado pelos gastos públicos e pela indústria de defesa. Durante o fórum, Putin reconheceu que a prioridade do país agora é preservar o investimento e reduzir a inflação sem comprometer a atividade econômica.

“Gostaria de destacar que a dinâmica da produção industrial, do PIB e da atividade do consumidor na Rússia é positiva. Apesar de todos os desafios, a produção industrial na Rússia aumentou em abril. […] É claro que ouvimos críticas de todos os lados de que tudo desmoronou. Sim, mas caímos para o mesmo nível que os países da zona do euro vêm experimentando nos últimos anos e estamos sentindo uma recuperação”, disse o presidente russo.

“O principal é que mantivemos os fundamentos de nossa política macroeconômica. Estou confiante de que o progresso e a ascensão serão garantidos. Essas tendências devem ser consolidadas, e a posição do nosso país no mundo, bem como nossa soberania, devem se tornar mais seguras”, acrescentou.

‘Leve queda’

Em entrevista ao Brasil de Fato, o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada da Academia Russa de Economia Nacional, Andrey Zubarev, observou que a inflação anual do registro de maio de 2025 a maio deste ano está em torno de 5,3%, 5,4%, que eram números esperados.

“No momento, as previsões indicam que a inflação deve ficar em torno de 5,2% até o final do ano. Então a inflação anual deste ano será inferior à de 2025. E essa queda sistemática na inflação dá ao Banco Central a oportunidade de reduzir ainda mais a taxa de juros com cautela. Então, eu diria que sim, as expectativas negativas em relação à divulgação dos dados foram ligeiramente confirmadas, e algumas previsões positivas podem ser ajustadas. Elas foram ajustadas e anunciadas no fórum. As previsões de inflação, no geral, são bastante positivas. Houve uma leve queda”, afirmou.

Apesar de a economia russa ter demonstrado vulnerabilidades significativas pela primeira vez em anos, há alguns indicadores positivos, como a desaceleração do déficit orçamentário, que, em maio, apresentou uma dinâmica positiva pela primeira vez no ano. Além disso, as receitas apresentaram crescimento anual devido ao aumento dos preços do petróleo em função da guerra no Irã. E os gastos desaceleraram em maio pela primeira vez desde o início do ano, embora tivessem aumentado 17% em relação ao ano anterior nos primeiros cinco meses.

No entanto, estes indicadores positivos continuam esbarrando nos obstáculos atrelados aos gastos com o conflito da Ucrânia. Zubarev explica o paradoxo de se ter uma transição para uma economia de guerra, voltada para a aceleração do complexo industrial-militar.

“Por um lado, os gastos militares obviamente não levam a lugar nenhum, não contribuem para o PIB; não é como se estivéssemos produzindo metal para fabricar carros e vendê-los. Estamos produzindo algo que depois queima, explode. Essa não é uma parte produtiva do PIB. Isso é realmente ruim para a economia”, explicou.

Por outro lado, o analista aponta que há um inegável efeito econômico positivo no aquecimento da indústria militar com a injeção de investimento no setor de defesa em meio ao cenário de conflito. De acordo com Zubarev, há um aumento da circulação de dinheiro, da produtividade, então é observado um crescimento.

“As pessoas estão recebendo salários, as fábricas trabalham em três turnos, as pessoas estão ganhando mais, demonstrando demanda por bens e serviços, elas simplesmente estão indo a restaurantes e gastando dinheiro. A economia está crescendo por causa disso. Ou seja, o dinheiro começa a circular, a economia está crescendo, mesmo que esses não sejam gastos produtivos. E esse efeito existe, e é um efeito bom, por assim dizer. Mas o dinheiro tem que vir de algum lugar. Os impostos na Rússia aumentaram significativamente nos últimos três anos. No geral, a população lidou bem com isso. Sim, é desagradável, mas não surtiu grandes preocupações”, completou.

Esforço de guerra

Desde o início da guerra na Ucrânia, a política econômica russa vem sendo submetida a um teste constante. Por um lado, o governo ampliou os gastos públicos para sustentar a atividade econômica e financiar o esforço de guerra. Por outro, as autoridades buscaram conter a inflação e preservar a estabilidade financeira em meio às sanções ocidentais e à flutuação do câmbio de sua moeda, o rublo.

Para o economista Andrey Zubarev, as instituições financeiras russas desempenharam um importante papel para lidar com os desafios da economia do país. Ao mesmo tempo, o analista ressalta que, apesar dos esforços, o cenário contínuo de guerra tende a deixar a economia em segundo plano em termos de prioridades de Estado.

“O governo como um todo, o Ministério do Desenvolvimento Econômico e o Banco Central são órgãos praticamente independentes. Eles estão agindo profissionalmente, lidando com o problema na Rússia profissionalmente em geral. O Banco Central montou uma equipe que é praticamente a melhor do mundo em termos de qualidade. Eles lidaram muito bem com a crise de 2022 e não cederam a nenhuma provocação. Bem, sim, eles conseguiram desacelerar um pouco a economia. Mas reduziram a inflação. Isso também é muito importante”, afirmou.

Desde o início da guerra da Ucrânia, Moscou aumentou drasticamente os gastos com defesa para 40% do orçamento federal, com os gastos militares atingindo um patamar histórico desde a Guerra Fria. O resultado é uma economia que passou a canalizar recursos para o complexo militar-industrial em detrimento dos setores civis.

“Portanto, no geral, eu diria que todos agiram profissionalmente. Sim, erros foram cometidos, mas não vi nenhum erro grave de cálculo. E aqui é importante entender que a agenda econômica não tem sido a agenda principal há muito tempo. Ou seja, ela é secundária. Isto é, existem certos interesses que o Estado atende, e a agenda econômica é então construída com base nesses interesses, e não o contrário”, completa Zubarev.

Editado por: Rafaella Coury

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