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Instituto Federal pode suspender oferta de cursos de artes visuais e cinema na Cidade de Goiás

Mobilização durante festival questiona plano que ameaça formação artística e produção cultural na antiga capital goiana

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Estudantes, professores, egressos e artistas realizaram ato em frente ao Cine Teatro São Joaquim durante a abertura do Fica 2026, na capital goiana.
Estudantes, professores, egressos e artistas realizaram ato em frente ao Cine Teatro São Joaquim durante a abertura do Fica 2026, na capital goiana. | Crédito: João Palhares/Brasil de Fato DF

A realização da 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) ocorre em meio a uma disputa que mobiliza estudantes, professores e artistas da Cidade de Goiás. A comunidade acadêmica do Instituto Federal de Goiás (IFG) questiona uma proposta que pode suspender a oferta de novas turmas dos cursos de Artes Visuais, Cinema e Audiovisual.

A medida faz parte do Plano de Oferta de Cursos e Vagas (POCV), instrumento utilizado para definir os rumos da instituição nos próximos anos. O plano prevê mudanças que podem afetar a oferta de cursos a partir de 2027. Em votação eletrônica realizada na última segunda-feira (8), a proposta de suspensão recebeu 85,7% dos votos válidos no curso de Cinema e Audiovisual e 80,8% em Artes Visuais. 

Docentes, estudantes e egressos, porém, afirmam que a condução do processo foi marcada por falta de diálogo, pouca transparência e decisões tomadas sem participação efetiva da comunidade acadêmica.

Renato Naves Prado, coordenador do bacharelado em Cinema e Audiovisual, explica que o POCV é um instrumento que orienta os rumos futuros da instituição e define quais formações poderão ser ofertadas nos próximos anos. “Nem tudo que está nele será concretizado, mas é em direção a esse plano que o campus caminha”, explicou.

Segundo ele, desde o início do processo houve críticas de coordenadores e estudantes sobre a metodologia adotada para elaboração e votação das propostas. O docente afirma que pedidos para ampliar o debate não foram acolhidos pela direção.

Para Fabiana Lula, docente e coordenadora do curso de licenciatura em Artes Visuais, a ameaça de fechamento é o ápice de um processo de precarização que já vinha ocorrendo nos bastidores da instituição. A professora destaca que a falta de investimento em recursos humanos e assistência estudantil serve como justificativa para decisões administrativas drásticas.

“É uma ameaça que começa com a precarização do trabalho docente e com a insuficiência da assistência estudantil. O colegiado de Artes Visuais possui somente sete docentes da área específica de arte e educação, sendo um número muito baixo de docentes que precisam cumprir uma carga horária alta de aulas”, analisou a coordenadora.

Contradição

A mobilização ganhou força durante a abertura do Fica, nesta terça-feira (16), quando manifestantes ocuparam a porta do Cine Teatro São Joaquim. O grupo critica a contradição de a cidade sediar um festival internacional enquanto o IFG, que deveria fomentar a produção local, decide paralisar os cursos que formam os profissionais da área.

Reivindicando a realização de uma assembleia geral, os manifestantes alertam para o impacto da medida na região, que historicamente sedia as edições do Fica. “Desde 2015, viemos ocupando a programação do Fica. Tirar os cursos de artes de Goiás vai enfraquecer um ecossistema de produção cultural que existe aqui na cidade”, explicou o produtor audiovisual goiano Rafael Freire.

Neste ano, ambos os cursos completaram dez anos de existência. Ao longo desse período, as graduações formaram artistas, professores, pesquisadores e profissionais que atuam em diferentes áreas da cultura e do audiovisual em Goiás e em outros estados.

A comunidade acadêmica e externa temem os reflexos da decisão, argumentando que, ao longo de mais de uma década, esses cursos formam profissionais essenciais para a economia criativa local e nacional. “Levantamentos do setor apontam que projetos ligados a egressos e professores já captaram mais de R$ 3 mi em editais públicos de cultura, além de produzirem dezenas de obras exibidas em diversos festivais”, explicou Freire. 

Segundo os manifestantes, a suspensão das turmas enfraquece o ecossistema cultural da antiga capital goiana, que há décadas respira arte e audiovisual. O impacto social é visto como um retrocesso para a interiorização da educação pública, que permitiu a muitos moradores da região o acesso a sonhos antes restritos aos grandes centros.

A moradora da Cidade de Goiás e egressa do curso de Cinema Maiári Iasi expressou indignação com o que chama de “visão utilitarista” da gestão atual sobre a identidade da cidade e de seus moradores. Ela defende que a formação de artistas no interior é uma forma de resistência contra modelos de desenvolvimento que ignoram a cultura local.

“Fechar os cursos de artes e um de cinema dessa cidade reforça a ideia utilitarista de usar a cidade como cenário e seus moradores como mão de obra barata. Mas formar no interior, formar artistas, está na contramão do que alguns gestores antidemocráticos desejam, com uma justificativa que culpabiliza os estudantes e professores pela falta de políticas públicas”, defendeu.

Manifestantes levaram faixas e cartazes para a abertura do Fica em protesto contra as mudanças previstas no Plano de Oferta de Cursos e Vagas do IFG. Crédito: João Palhares/Repórter do Brasil de Fato DF

Críticas 

Outro ponto de crítica é a ausência de estudos técnicos que fundamentam a decisão de suspender os cursos. Professores alegam que a direção-geral do campus utilizou indicadores isolados, como a relação professor-aluno, sem promover um debate aprofundado sobre os problemas estruturais que causam a evasão.

A coordenação de Artes Visuais afirma que a direção condicionou a criação de novos cursos, voltados ao setor tecnológico e agroindustrial, ao fechamento das graduações em artes por “falta de professor”. Essa manobra é vista pelos docentes como uma tentativa de dar credibilidade a uma decisão já tomada previamente pela gestão.

“A questão específica aqui é que não aconteceu um diagnóstico sobre o problema da nossa licenciatura em Artes Visuais. Apenas identificou-se uma RAP [relação professor-aluno] baixa e a direção decidiu que o curso não tinha futuro. Nisso, embarcou na mesma análise o curso de bacharelado em Cinema, e fez-se a proposta de suspensão da oferta deste curso também”, explicou Fabiana Lula.

Em carta pública divulgada durante o Fica, os Centros Acadêmicos dos cursos afirmam que a defesa das graduações vai além da manutenção das vagas. “Estamos defendendo o direito da comunidade acadêmica de participar das decisões que afetam o presente e o futuro do campus. Estamos defendendo a permanência de cursos que possuem relevância cultural, artística, social e educacional para a Cidade de Goiás e para toda a região”, diz o documento. 

Questionamentos

A condução do POCV também é alvo de um pedido formal de impugnação protocolado pelos colegiados de Cinema e Artes Visuais. O documento aponta irregularidades graves, como o desequilíbrio no peso dos votos entre diferentes segmentos da comunidade acadêmica e a paralisia do Conselho de Campus (Concampus), que não realizou reuniões ordinárias em 2026.

Para Renato Naves Prado, o principal problema não está na existência de propostas de reformulação dos cursos, mas na forma como o processo vem sendo conduzido.

“Boa parte da comunidade reclama de não ser ouvida, de suas sugestões não serem contempladas e da direção não promover o diálogo necessário. Então, a gente sente que o processo é tocado de uma maneira antidemocrática, de uma maneira autoritária pela direção do campus, que fica eternamente se justificando. Quando a gente tenta impugnar quem analisa sozinho os nossos pedidos é a própria direção”, criticou.

Para o cineasta Roger Martins, o enfraquecimento desses cursos representa um “salto para trás” para o estado de Goiás e para o Brasil, dada a raridade de cursos de Cinema em Institutos Federais. Ele argumenta que a existência desses cursos em uma cidade patrimônio da humanidade é fundamental para romper com traços coloniais ainda presentes.

“Estar com o curso de artes visuais e de cinema em uma cidade como Goiás só reforça a importante fixação de ter cursos em lugares como esse, que também é bebida da fonte da cultura”, pontuou Martins.

Mobilização realizada na última quinta-feira (11) reuniu comunidade acadêmica contra a suspensão da oferta dos cursos de Artes Visuais e Cinema. Crédito: Triz de Sá

Outro lado

Em resposta ao Brasil de Fato DF, a direção-geral do IFG campus Cidade de Goiás afirmou que a aprovação da suspensão da oferta de novas turmas não significa o fechamento imediato dos cursos, nem o cancelamento das matrículas dos estudantes atualmente vinculados às graduações.

Segundo a gestão, a medida aprovada no âmbito do Plano de Oferta de Cursos e Vagas (POCV) busca abrir uma etapa de reavaliação da oferta acadêmica a partir de indicadores institucionais como permanência estudantil, evasão, demanda social e sustentabilidade dos cursos.

“A suspensão temporária de novas entradas tem justamente o sentido de abrir uma etapa de reavaliação mais qualificada da oferta, sem prejuízo aos estudantes que já estão em formação, cujos direitos serão preservados”, informou a direção.

O IFG também argumenta que o processo de reorganização não representa um abandono das áreas artísticas e culturais. De acordo com a instituição, a mesma votação aprovou a criação de novas formações para a região, entre elas os cursos superiores de Tecnologia em Produção Audiovisual e Tecnologia em Agrocomputação, além da previsão de um futuro mestrado profissional na área de Cinema, Audiovisual e Artes.

A direção afirma ainda que o planejamento institucional precisa conciliar a relevância cultural dos cursos com a responsabilidade administrativa e as transformações econômicas e profissionais observadas na região.


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Editado por: Clivia Mesquita

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