Cientistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) conduziram uma pesquisa que mapeia terras agrícolas abandonadas no Cerrado com auxílio de inteligência artificial. Utilizando técnicas de deep learning (aprendizado profundo) e imagens de satélite, o estudo é considerado inédito na região. Pesquisadores apontam que o bioma se tornou o mais degradado no Brasil, concentrando mais da metade dos desmatamentos em território nacional.
O estudo utilizou imagens capturadas por satélite e constatou que 87% das áreas abandonadas eram, anteriormente, utilizadas para plantio de eucalipto e para a produção de carvão vegetal.
Segundo os pesquisadores, após o fim da extração da madeira, essas áreas foram degradadas pela falta de manutenção ou acabaram se transformando em vegetação campestre ou arbustiva, compostas por plantas de baixo porte. Também foram abandonadas áreas que antes serviam para a criação de gado e apresentavam baixa produtividade.
Abandono de terras produtivas
A pesquisa aponta ainda o abandono de mais de 13 mil hectares de terra entre 2018 e 2022, quase 5% da área agrícola existente no período. O número é quatro vezes maior do que o constatado em 2017, com 1,2%. Em Minas Gerais, estado que concentra 24% das plantações nacionais, o município de Buritizeiro, está entre as áreas com maiores extensões de terras produtivas abandonadas do bioma. O cultivo de eucalipto, comum no município, foi considerado em decadência devido à queda no preço do carvão e pela falta de mão de obra. A madeira produzida era destinada ao abastecimento do pólo Siderúrgico de Sete Lagoas, importante complexo industrial que reúne empresas ligadas à produção de ferro e aço.
“O abandono dessas áreas foi motivado principalmente pela queda brusca no preço do carvão vegetal, pela escassez de mão de obra na região para a produção de carvão e pelo aumento dos custos de transporte, considerando que Buritizeiro está localizado a cerca de 300 km de Sete Lagoas”, observa Ivo Magalhães, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo.
Outro ponto observado pela pesquisa é que, dos 73 milhões de hectares do território do Matopiba — região produtiva que abarca áreas dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, cerca de 31,5 milhões são classificados como terras agrícolas, número que corresponde a cerca de 43,2%.
“O Matopiba é frequentemente considerado a última grande fronteira agrícola do Cerrado, o que torna fundamental que seu desenvolvimento ocorra de forma ambientalmente sustentável, conciliando aumento da produção, conservação dos recursos naturais e redução da pressão sobre os remanescentes de vegetação nativa”, argumenta Edson Sano, pesquisador da Embrapa Cerrados.
Embora tenha se tornado uma das fronteiras agrícolas mais competitivas do mundo, o Cerrado tem sofrido com graves impactos ambientais nas últimas décadas. Cobrindo quase 24% do território nacional, o bioma tornou-se o mais prejudicado no Brasil, com índices maiores do que a Amazônia. Mais da metade dos desmatamentos no país (52,5%) se concentra na região, de acordo com o relatório de 2024 do MapBiomas. Hoje, 46% do Cerrado têm seu solo utilizado em atividades antropogênicas, ou seja, quase metade da vegetação nativa foi substituída ou alterada para uso do ser humano.
Método
Para identificar as áreas abandonadas, os pesquisadores utilizaram técnicas de deep learning (aprendizado profundo), um tipo de inteligência artificial capaz de reconhecer padrões em grandes volumes de dados. A tecnologia foi aplicada à análise de imagens de satélite, permitindo diferenciar automaticamente áreas de cultivo, pastagens, vegetação nativa e terrenos abandonados ao longo do período estudado.
Sano explica que a inteligência artificial consegue mapear áreas improdutivas a partir da análise de milhares de exemplos de áreas produtivas e abandonadas em imagens de satélite. Com essas informações, o algoritmo é treinado para reconhecer padrões que sugerem se uma área está em produção agrícola ou se foi abandonada.
“A IA consegue diferenciar uma área produtiva de uma área abandonada desde que o analista forneça, ao modelo, centenas ou milhares de exemplos de ambas as situações em imagens de satélite. Essas amostras são utilizadas para treinar o algoritmo, permitindo que ele reconheça padrões associados a cada classe. O sistema analisa estatisticamente as áreas de treinamento fornecidas pelo usuário e aprende quais características estão associadas a áreas produtivas e quais indicam abandono agrícola”, explica o professor.
Além de analisar um grande volume de dados, a inteligência artificial consegue identificar, após treinamento intensivo, alvos específicos, como as terras abandonadas, o que foi feito no estudo a partir do cruzamento de informações de diferentes períodos. Segundo Ivo, o levantamento tem precisão de 94,7%, índice considerado excelente para classificações de uso da terra com sensoriamento remoto.
“O treinamento do algoritmo foi realizado com base na identificação em campo de áreas com plantio de eucalipto em produção e áreas com plantio de eucalipto abandonado. A partir da imagem de satélite adquirida em 2018, o algoritmo identificou as áreas ocupadas por plantios de eucalipto. Já na imagem de 2022, o algoritmo identificou as áreas de eucalipto abandonado”, detalha Sano.
Foram consideradas abandonadas aquelas áreas uma vez utilizadas em atividades agropecuárias, mas que permaneceram por três anos ou mais sem uso produtivo.
“O maior desafio foi definir com segurança o que caracteriza uma área agrícola abandonada. Nem toda área sem cultivo está necessariamente abandonada. Ela pode estar, por exemplo, em pousio temporário, em processo de renovação de pastagem ou em preparação para um novo ciclo produtivo. Para superar esse obstáculo, foi necessário combinar séries temporais de imagens de satélite com conhecimento de campo, permitindo distinguir situações temporárias de abandono efetivo”, enfatiza Sano.
A expectativa é de que o levantamento seja estendido, ainda este ano, para toda a área do Cerrado e, posteriormente, para outros biomas. “As áreas agrícolas abandonadas no Cerrado representam uma importante oportunidade para o desenvolvimento de políticas públicas de restauração ambiental, voltadas à recuperação da vegetação nativa e, consequentemente, à mitigação das emissões de dióxido de carbono”, finaliza.
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