Nem com orgulho, nem tanto com constrangimento, me reconheço entre os milhões de brasileiros que vestem a carapuça ufanista de alguém nascido no “país do futebol”. Sou um dos tantos que fecha – de vez em quando – os olhos pras injustiças, trambiques e politicagens do mundo da bola para se embriagar sem culpa no prazer cego de ver a pelota rolando, embalado pelos gritos estridentes de algum narrador afetado.
Nessa Copa do Mundo, a despeito de todas as questões geopolíticas e migratórias, de uma guerra a pleno vapor e das ações fascistoides do presidente mais escroto (dentre tantos presidentes escrotos) que já vimos nos Estados Unidos, aponto o meu olhômetro para uma questão mais doméstica, que intriga a mim e, aparentemente, a muitos que ainda se prestam a torcer pela Seleção Canarinho: afinal, por que tanta gente ainda acredita em Neymar?
A escalação do jogador de pôquer entre os 26 convocados para defender a Seleção Brasileira foi um verdadeiro espetáculo que oscilou entre o mambembe e o pirotécnico, com aquele cheirinho de milhões de dólares dos patrocinadores satisfeitos exalando no ar. Sua apresentação, porém, veio nublada por uma lesão mal explicada, uma explicação mal entendida e um tempo de recuperação física difícil de engolir. Mas engolimos.
O “adulto Ney” é uma figura controversa. Sem dúvidas, o maior talento e a maior frustração que o torcedor brasileiro a duras penas vem cultivando nos últimos quase 20 anos. Aos 34, Neymar Jr. é pai de cinco filhos (uma ainda em gestação) e principal mentor comportamental de toda uma geração de meninos e adultos deslumbrados que enxergam nele o ápice de um sucesso regado a resenhas, parças, games, redes sociais, monetização, ostentação e pouca responsabilidade.
Apesar de todo sucesso e idolatria, o cria da Vila Belmiro já perdeu o bonde das maiores conquistas coletivas e individuais que cabem a um futebolista, quais sejam, a Copa do Mundo e a Bola de Ouro.
Não sei quanto aos crentes, mas ao meu ver, faltou ao jogador para tais feitos a força de uma personalidade que se equiparasse ao próprio talento. Na contramão, o “menino Ney” é inseguro, busca sempre aprovação, bate-boca com torcedores e parece ter uma autopercepção frágil, forjada na companhia mimosa do pai-empresário e de um batalhão de bajuladores.
Retomo a pergunta. Por que, mesmo após tantos anos do auge da sua carreira, tantos ainda seguem acreditando que um Neymar lesionado, fora de forma e cada vez mais distante da própria habilidade, seria fundamental para levar a Seleção Brasileira à conquista do hexacampeonato?
Não tenho uma resposta objetiva, mas pressinto que em uma sociedade fortemente inclinada a acreditar em pastores profissionais trajados em roupas de grife, em tigrinhos vorazes fantasiados de influencers bobinhas e em feijões mágicos vendidos por coachs harmonizados, depositar todas as esperanças na ressurreição esportiva de um ex-jogador em atividade é realmente o caminho mais óbvio que se pode esperar.
É como dizem, todo dia sai de casa um malandro e um otário. Ou ainda: o golpe tá aí, cai quem quer.
O choque de realidade também tá aí pra quem quiser ver, em plena Copa do Mundo. Só alcança a redenção quem pode correr atrás dela, mas o nosso craque imaginário há muito pendurou as chuteiras e esqueceu de avisar a nação. Não quero soar derrotista, mas quem sabe não esteja justamente nesse iminente novo fracasso do nosso futebol a oportunidade coletiva de reposicionar as expectativas em novas e mais honestas esperanças.
Pra frente, Brasil! E se não der? Supera, Brasil!
*Tacio Pimenta é jornalista, poeta e autor do livro de poesia Algibeira dos Olhos.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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