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Movimentos populares e entidades formam educadores para ampliar método cubano de alfabetização no RS

Turmas do 'Sim, Eu Posso' serão abertas em Porto Alegre, Viamão, Alvorada, Jaguarão, Pelotas e Santa Maria

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Formação de educadores marca a expansão do método cubano de alfabetização para novas comunidades do Rio Grande do Sul
Formação de educadores marca a expansão do método cubano de alfabetização para novas comunidades do Rio Grande do Sul | Crédito: Divulgação/MST

Foi concluída no Rio Grande do Sul a formação de educadores que vão conduzir as novas turmas de alfabetização de jovens e adultos pelo método cubano Sim, Eu Posso. A formação, realizada em um fim de semana em Porto Alegre, reuniu entre 30 e 40 pessoas vindas de diferentes regiões do estado e marca o início de uma nova fase de expansão do programa, que chega a este ano com a perspectiva de funcionar em seis a sete turmas simultâneas.

As novas turmas serão organizadas em Porto Alegre, nos bairros Cristal (CEFER II), Cavalhada (Vila Maria), Glória (Vila Graciliano Ramos) e Aparecida (Chácara do Primeiro), além de Viamão, Alvorada, Pelotas, Santa Maria e Jaguarão. A iniciativa é construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pelo Levante Popular da Juventude e pela rede Mãos Solidárias, em articulação com cozinhas solidárias e associações de moradores das comunidades atendidas.

A formação contou também com a parceria da Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul (ACJM-RS), do Instituto Koinós e do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS).

Educadores e educadoras participam de formação de fim de semana para conduzir as novas turmas do método cubano Sim, Eu Posso no Rio Grande do Sul | Crédito: Divulgação/MST

Da terra para a cidade

O Sim, Eu Posso chegou ao Rio Grande do Sul em outubro de 2024, mas a presença do MST com o método no Brasil é mais antiga e historicamente ligada às áreas de reforma agrária. Segundo Lucas Monteiro, do MST, o estado tinha uma trajetória de formações voltadas principalmente para assentamentos e acampamentos no campo, e a chegada do método às periferias urbanas de Porto Alegre representou uma mudança de escala e de público.

A primeira experiência urbana ocorreu na Vila Pedreira, no bairro Cristal, ainda em 2024, com dois educandos. A partir dali, o trabalho se espalhou para a Vila Jardim, a Glória, o Morro da Cruz e o Cruzeiro. Ao longo de 2025, segundo Monteiro, cada turma reuniu em torno de oito a dez educandos, com a formação de cerca de 16 pessoas pelo método no ano.

Como funciona o método

O Sim, Eu Posso (Yo, sí puedo, no original em espanhol) foi criado em 2001 pela pedagoga cubana Leonela Inés Relys Díaz, a pedido do governo de Cuba, no Instituto Pedagógico Latino-Americano e Caribenho (Iplac). A proposta nasceu de uma campanha de alfabetização por rádio realizada no Haiti e, desde então, se espalhou por dezenas de países.

O método parte do conhecido: os números. Em direção ao desconhecido: as letras. Construindo a aprendizagem de forma progressiva. O programa foi premiado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com o prêmio Rey Sejong em 2002, 2003 e 2006, distinção criada pela organização em 1989 para reconhecer iniciativas de combate ao analfabetismo no mundo.

No Brasil, o método é adotado pelo MST desde 2006, sendo o movimento pioneiro em sua implementação no país. A entidade estima que mais de 100 mil pessoas já tenham sido alfabetizadas pelo Sim, Eu Posso em território brasileiro, com experiências em estados como Rio de Janeiro, Paraná e em assentamentos de diferentes regiões do Nordeste.

Formação reuniu entre 30 e 40 educadores de diferentes regiões do Rio Grande do Sul para atuar nas novas turmas de alfabetização | Crédito: Divulgação/MST

O retrato do analfabetismo no estado e no país

A expansão do programa no Rio Grande do Sul ocorre num cenário em que o analfabetismo, embora em queda, ainda atinge parcela expressiva da população. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, a taxa de analfabetismo entre a população gaúcha com 15 anos ou mais caiu para 2,4% em 2024, contra 3% em 2016. O índice, no entanto, não é uniforme entre faixas etárias e grupos raciais: entre pessoas com 60 anos ou mais, a taxa chega a 5,8%, e entre pessoas negras de 15 anos ou mais o índice é de 3,6%, frente a 2% entre pessoas brancas.

Em nível nacional, segundo dados do IBGE, 2024 registrou a menor taxa de analfabetismo da série histórica iniciada em 2016, mas o país ainda soma 9,1 milhões de pessoas que não sabem ler ou escrever um bilhete. Ricardo Haesbaert, da ACJM-RS, situa o problema em outra escala ao mencionar uma referência de 7% de analfabetismo no país, o que equivaleria, segundo ele, a algo entre 14 e 15 milhões de pessoas.

Quem constrói as turmas

A organização das novas turmas segue uma lógica de base comunitária: as cozinhas solidárias e as associações de moradores funcionam como ponto de partida para a formação dos grupos, identificando educandos e oferecendo espaço para os encontros. Segundo Lucas Monteiro, essa relação entre alfabetização e cozinhas solidárias tem se mostrado um caminho de organização que vai além da merenda e da segurança alimentar, fazendo com que lideranças comunitárias e voluntárias das cozinhas passem a enxergar essas estruturas também como instrumento de mobilização em torno de outras demandas que as políticas públicas não alcançam, na avaliação do militante do MST.

Já a Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul atuou desde 2024 como uma das primeiras entidades procuradas para iniciar o processo no estado, articulando-se com o MST e o Levante Popular da Juventude para desenhar, ao longo de quatro a cinco meses, o formato da formação dos educandos. Segundo Haesbaert, a entidade trabalhou inicialmente com cartilhas já existentes do método e agora elabora material próprio, adaptado à linguagem das comunidades atendidas, para uso em novas turmas.

Ao longo do processo, a rede de parceiros se ampliou: além do Instituto Koinós, passaram a integrar a articulação o Sinpro-RS e, mais recentemente, o Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato).

Encontro de formação combinou o aprendizado do método de alfabetização com debates sobre educação popular e conjuntura | Crédito: Divulgação/MST

Desafios e o que vem a seguir

Nem todos os educandos que iniciam as turmas chegam à formatura. Monteiro atribui parte das dificuldades de conclusão a problemas estruturais enfrentados pelas periferias, como questões de segurança, falta de infraestrutura e dificuldades de locomoção até os locais de encontro. Ainda assim, o MST projeta a abertura de quatro novas turmas em julho e outras a partir de agosto, com a possibilidade de o número total chegar a seis ou sete turmas até o fim de 2026, incluindo, eventualmente, uma turma em algum acampamento do movimento no campo, etapa que, segundo Monteiro, ainda está em fase de construção.

Para Haesbaert, a ausência de uma política pública permanente de alfabetização de jovens e adultos nas esferas federal, estadual e municipal é um dos principais obstáculos enfrentados pelo programa, que opera com recursos próprios das entidades envolvidas, sem qualquer dependência de repasses governamentais. O presidente da ACJM-RS defende que o enfrentamento ao analfabetismo se torne uma política de Estado permanente, citando a experiência cubana de erradicação do analfabetismo como referência concreta de que o problema pode ser superado.

Para além da alfabetização, o conjunto de iniciativas educacionais construído pelo Mãos Solidárias, pelo MST e pelo Levante Popular da Juventude nas comunidades inclui também reforço escolar para crianças e adolescentes e cursinhos populares voltados ao ingresso no ensino superior, segundo Monteiro.

Editado por: Marcelo Ferreira

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