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Cepeda x De la Espriella: Colômbia decide entre continuidade do ciclo Petro e avanço da extrema direita apoiada por Trump

Eleição deste domingo (21) decidirá futuro das reformas sociais, da política de paz e da relação com os EUA e

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Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022
Iván Cepeda (esq.) e Abelardo de la Espriella (dir.) disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022. | Crédito: Francisco Calderon e Manuel Pedraza/AFP

Mais de 41 milhões de colombianos estão aptos a votar neste domingo (21) no segundo turno das eleições presidenciais que definirão os rumos do país pelos próximos quatro anos. A disputa opõe o senador Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, ao advogado e empresário Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita que recebeu apoio público do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A eleição é vista como um plebiscito sobre o governo Petro, o primeiro de esquerda da história colombiana. De um lado, Cepeda defende a continuidade das reformas sociais, como a reforma agrária e a política de negociação com grupos armados. Do outro, De la Espriella promete endurecer o combate ao crime, ampliar o papel das Forças Armadas, interromper negociações de paz e reduzir o tamanho do Estado.

“No fim de semana se define na Colômbia o processo eleitoral presidencial que vai estabelecer com clareza o rumo que o país vai tomar”, afirma René Ayala, analista político e diretor da agência Prensa Rural. Para ele, a disputa contrapõe o aprofundamento das transformações iniciadas por Petro e o retorno de um projeto político ligado à tradição conservadora do país.

No primeiro turno, realizado em 31 de maio, De la Espriella terminou à frente com 10.366.143 votos, o equivalente a 43,3% dos votos válidos. Cepeda recebeu 9.703.921 votos, ou 40,5%, uma diferença de pouco mais de 662 mil votos. A participação eleitoral alcançou 57,9% do eleitorado, a maior já registrada em uma eleição presidencial colombiana.

Em terceiro lugar ficou a candidata uribista Paloma Valencia, com 1,64 milhão de votos, cerca de 6,9% do total. O uribismo é a corrente política ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), principal referência da direita colombiana nas últimas duas décadas e defensora de políticas de combate militar aos grupos armados.

O candidato de centro, Sergio Fajardo, obteve pouco mais de 1 milhão de votos, equivalente a 4,2%. Nas semanas seguintes, a disputa pelo eleitorado dos candidatos derrotados se tornou um dos principais focos da campanha.

A reorganização dos apoios fortaleceu especialmente De la Espriella. Paloma Valencia declarou voto no candidato da extrema direita logo após a derrota, movimento acompanhado por Álvaro Uribe e pelos principais partidos de direita e centro-direita do país. Cepeda, por sua vez, recebeu o apoio da ex-prefeita de Bogotá, Claudia López, além de ampliar alianças com organizações populares, sindicatos, movimentos indígenas e afro-colombianos.

Ayala avalia que a esquerda chega à votação em condições mais competitivas do que indicava o resultado da primeira volta. Segundo ele, parte do campo progressista apostava em uma vitória de Cepeda já na primeira etapa da disputa, o que reduziu a mobilização eleitoral. “Hoje, com o temor diante do que representa um projeto antidemocrático, as pessoas vão se mobilizar para responder a esta exigência do momento histórico”, afirma.

Pedestres passam por cartaz com imagens de Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella em Bogotá, na Colômbia, na quinta-feira (19), antes do segundo turno presidencial. (Foto: Juan Barreto/AFP)

Quem é Iván Cepeda

Filósofo, senador e defensor dos direitos humanos, Iván Cepeda construiu sua trajetória política ligada às vítimas do conflito armado colombiano. Seu pai, Manuel Cepeda Vargas, senador da União Patriótica, foi assassinado em 1994 em um dos episódios mais emblemáticos da violência política do país.

Ao longo das últimas décadas, Cepeda se tornou uma das principais vozes na defesa da memória das vítimas, da implementação dos acordos de paz e da busca por soluções negociadas para o conflito armado. Foi também um dos articuladores da política de “paz total” defendida pelo governo Petro.

Na campanha presidencial, apresentou-se como herdeiro político do ciclo iniciado em 2022, mas procurou dialogar com setores de centro e reduzir resistências entre eleitores moderados. Após o primeiro turno, passou a enfatizar a defesa da Constituição de 1991 e sinalizou que uma Assembleia Constituinte, pauta amplamente defendida por Petro, não seria prioridade em um eventual governo.

Sua candidatura reúne o Pacto Histórico, coalizão liderada por Gustavo Petro, além de setores da Alianza Verde, do movimento En Marcha, do Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS) e de organizações articuladas na chamada Alianza por la Vida.

A campanha também recebeu apoio de centrais sindicais, organizações camponesas, movimentos indígenas e afro-colombianos, além de artistas, estudantes e entidades ligadas às vítimas do conflito armado.

Para a colombiana Laura Capote, secretária continental da Alba Movimentos e pesquisadora do Instituto Tricontinental, a base eleitoral de Cepeda expressa as mudanças sociais produzidas nos últimos anos. Segundo ela, os bairros populares das grandes cidades e as regiões com forte presença de populações rurais, indígenas e afrodescendentes foram os principais redutos do candidato da esquerda no primeiro turno.

Capote afirma que a campanha ganhou novo impulso após a derrota na primeira volta. “Não é somente a militância. É a cidadania comum que subiu nos transportes públicos, ocupou esquinas e organizou atividades para mostrar às pessoas o que está em risco no país”, diz.

Quem é Abelardo de la Espriella

Advogado criminalista, empresário e figura conhecida da televisão colombiana, Abelardo de la Espriella disputa sua primeira eleição. Sua campanha foi construída em torno de uma imagem de autoridade, ordem e enfrentamento ao que chama de decadência das instituições políticas tradicionais.

Embora tenha se apresentado como outsider, sua candidatura se consolidou com o apoio de lideranças tradicionais da direita colombiana. Após o primeiro turno, recebeu o respaldo formal do Centro Democrático, do Partido Conservador, do Partido de la U e de Cambio Radical, reunindo um amplo bloco conservador contra o governo Petro.

A campanha utilizou intensamente símbolos nacionalistas e religiosos. Em seus atos, De la Espriella costuma aparecer cercado por seguranças, discursar atrás de vidros blindados, utilizar referências militares e apresentar-se como o “Tigre”, personagem central de sua identidade eleitoral.

Laura Capote avalia que existe uma contradição entre a imagem pública do candidato e as forças políticas que o sustentam. “Ele se vende como um outsider, mas todas as forças políticas tradicionais de peso no nosso país estão apoiando sua candidatura”, afirma.

René Ayala faz avaliação semelhante. Segundo ele, setores que historicamente orbitavam o uribismo abandonaram suas candidaturas próprias para se concentrar em torno de De la Espriella. “O uribismo puro e duro deixou abandonada Paloma Valencia para apoiar um suposto outsider”, afirma.

Entre suas principais propostas estão a redução de 40% da estrutura do Estado, a retomada de projetos de exploração petrolífera e fracking, a construção de megacárceres e o encerramento das negociações com grupos armados.

O candidato presidencial colombiano Abelardo de la Espriella, do movimento político Defensores de la Patria, discursa atrás de um vidro blindado durante ato de campanha em La Ceja, no departamento de Antioquia, em 23 de fevereiro de 2026 (Foto: Jaime Saldarriaga/AFP)

Paz, segurança e democracia no centro da disputa

A segurança se tornou o principal tema da campanha presidencial. A expansão de grupos armados em diferentes regiões do país, somada às dificuldades enfrentadas pelo governo Petro para consolidar a política de “paz total”, abriu espaço para o crescimento dos velhos discursos favoráveis ao endurecimento das respostas estatais.

De la Espriella transformou esse tema em um dos pilares de sua candidatura. O candidato promete abandonar negociações com organizações armadas, ampliar operações militares e adotar medidas inspiradas em experiências defendidas por líderes como Nayib Bukele, em El Salvador.

Cepeda sustenta que a saída para o conflito passa pela combinação entre presença estatal, reformas sociais e negociação política. Sua campanha argumenta que a militarização adotada por governos anteriores não foi capaz de resolver problemas históricos relacionados à violência.

Para Ayala, a disputa extrapola o debate sobre segurança pública. “Está em disputa o avanço da mudança ou o uribismo recarregado”, afirma. Na avaliação do analista, uma eventual vitória da extrema direita poderia significar retrocessos em áreas como direitos sociais, participação política e implementação dos acordos de paz.

Capote também vê riscos na retomada de estratégias centradas exclusivamente na repressão. Segundo ela, a experiência colombiana mostra que a guerra não produziu soluções duradouras para os conflitos territoriais. “A mão dura como solução já demonstrou ao longo das décadas que não resolve o conflito”, afirma.

O debate também envolve o futuro das reformas iniciadas por Petro. Durante os últimos quatro anos, o governo aprovou mudanças na legislação trabalhista e previdenciária, ampliou programas sociais e acelerou a implementação da reforma agrária.

Apoiador de Iván Cepeda segura cartaz contra Abelardo de la Espriella durante ato em Bogotá, na segunda-feira (15). (Foto: Juan Barreto/AFP)

A sombra de Trump

Em 3 de junho, Donald Trump declarou apoio a Abelardo de la Espriella e vinculou a eleição colombiana ao futuro da relação da Colômbia com os EUA. A manifestação veio após um período de choques entre os dois governos, desde a posse de Trump, incluindo sanções dos Estados Unidos contra Petro e pessoas próximas a ele, além de divergências sobre política antidrogas e segurança regional.

A postura de Trump provocou reações do governo colombiano e de parlamentares democratas nos Estados Unidos, que classificaram a manifestação como uma forma de interferência política.

Capote avalia que o apoio do presidente estadunidense conecta a eleição colombiana ao avanço internacional da extrema direita. “Ganhar no domingo com Iván Cepeda é um elemento fundamental, não somente para o projeto de soberania continental, mas também para o futuro dos nossos países”, afirma.

Segundo ela, o próprio candidato colombiano tem buscado aproximação com experiências políticas representadas por Trump, Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador. “O que acontece na Colômbia importa para o futuro dos bens comuns no continente”, sintetiza.

Imagem divulgada pela Presidência da Colômbia mostra o presidente Gustavo Petro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante encontro na Casa Branca, em Washington, em 3 de fevereiro de 2026. O encontro selou uma trégua entre os líderes após a escalada de tensões do último período (Foto: Presidência da Colômbia / AFP)

Como os candidatos chegam ao segundo turno

As últimas pesquisas divulgadas antes do final das campanhas, ocorrido no último domingo (14), apontavam vantagem de De la Espriella, embora dentro de uma disputa considerada aberta por analistas e pelas próprias campanhas.

O candidato da extrema direita chega à votação apoiado por praticamente todo o espectro da direita colombiana e com forte presença nos meios de comunicação e nas redes sociais. Cepeda aposta na mobilização de sua base social, na ampliação de apoios ao centro e na participação de testemunhas eleitorais para acompanhar a apuração.

A expectativa das campanhas é de que o resultado seja definido por margens estreitas, especialmente em Bogotá e nas regiões periféricas do país, onde a esquerda obteve seus melhores desempenhos no primeiro turno. Para Ayala, a presença dos eleitores nesses territórios pode ser decisiva para o desfecho da eleição deste domingo.

“Vai ser chave a presença dos territórios. Como vocês sabem, na periferia do país ganhou a proposta da esquerda. Em Bogotá, se fez um esforço importante para recuperar votos que eram historicamente da esquerda e dos setores democráticos”, afirma.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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