Segundo turno

Eleição na Colômbia: apuração preliminar indica vitória da extrema direita

Diferença entre Espriella e Cepeda é de aproximadamente 250 mil votos entre 25 milhões de eleitores

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Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022
Iván Cepeda (esq.) e Abelardo de la Espriella (dir.) disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022. | Crédito: Francisco Calderon e Manuel Pedraza/AFP

A apuração preliminar da eleição presidencial da Colômbia, realizada neste domingo (21), mostra o candidato de extrema direita, Abelardo de la Espriella, à frente com 49,65% dos votos. O senador de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro, tem 48,71% dos votos. A diferença é de aproximadamente 250 mil votos.

A apuração preliminar é realizada com os boletins de totalização das urnas e não é considerada para declaração oficial do candidato eleito. Encerrada esta etapa, tem início a contabilização voto a voto, chamada escrutínio. Esse processo deve ter início na manhã desta segunda-feira (22) e não tem prazo para ser concluído.

Petro usou as redes sociais para denunciar que alguns boletins de urna estavam irregulares, sem assinatura de todos os mesários, por isso não se pode declarar um vencedor até que a apuração voto a voto seja realizada.

“Não se pode proclamar nenhum presidente. É o escrutínio que determina quem é o presidente. Obedeço aos juízes. Tranquilidade entre a cidadania, por favor. A realidade nos dá um país dividido ao meio, e interferência estrangeira nos tira a liberdade. Impõe-se um acordo nacional se quisermos manter a pátria e a paz nos anos por vir”, escreveu Petro.

Ignorando que os números atuais são preliminares, Espriella celebrou a vitória vestido com a camiseta da seleção colombiana e defendeu acordos com os Estados Unidos para combater o crime organizado. “Hoje, a Colômbia venceu o seu jogo mais importante”, afirmou.

O candidato de extrema direita também disse ter recebido os parabéns de Trump. “Acabei de falar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele manifestou seu apoio à nossa vitória. Todas as democracias do mundo estão reconhecendo este triunfo”, afirmou.

Já Cepeda fez um pronunciamento a apoiadores e afirmou que não trata o resultado como oficial e que vai aguardar o escrutínio, ressaltando que há questões a analisar, como as atas sem assinatura, que devem ser impugnadas. “Com o escrutínio oficial, reconheceremos o resultado”, afirmou, agradecendo os votos recebidos, sobretudo dos jovens, mulheres e trabalhadores pobres.

Mais de 41 milhões de colombianos estavam aptos a votar neste segundo turno das eleições presidenciais, que definirão os rumos do país pelos próximos quatro anos, após o primeiro governo de esquerda da história do país, comandado por Petro e marcado por reformas populares importantes como a agrária, da saúde e do trabalho.

No primeiro turno, realizado em 31 de maio, De la Espriella terminou à frente com 10.366.143 votos, o equivalente a 43,3% dos votos válidos. Cepeda recebeu 9.703.921 votos, ou 40,5%, uma diferença de pouco mais de 662 mil votos. A participação eleitoral alcançou 57,9% do eleitorado, a maior já registrada em uma eleição presidencial colombiana.

Quem é Iván Cepeda

Filósofo, senador e defensor dos direitos humanos, Iván Cepeda construiu sua trajetória política ligada às vítimas do conflito armado colombiano. Seu pai, Manuel Cepeda Vargas, senador da União Patriótica, foi assassinado em 1994 em um dos episódios mais emblemáticos da violência política do país.

Ao longo das últimas décadas, Cepeda se tornou uma das principais vozes na defesa da memória das vítimas, da implementação dos acordos de paz e da busca por soluções negociadas para o conflito armado. Foi também um dos articuladores da política de “paz total” defendida pelo governo Petro.

Na campanha presidencial, apresentou-se como herdeiro político do ciclo iniciado em 2022, mas procurou dialogar com setores de centro e reduzir resistências entre eleitores moderados. Após o primeiro turno, passou a enfatizar a defesa da Constituição de 1991 e sinalizou que uma Assembleia Constituinte, pauta amplamente defendida por Petro, não seria prioridade em um eventual governo.

Sua candidatura reúne o Pacto Histórico, coalizão liderada por Gustavo Petro, além de setores da Alianza Verde, do movimento En Marcha, do Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS) e de organizações articuladas na chamada Alianza por la Vida.

A campanha também recebeu apoio de centrais sindicais, organizações camponesas, movimentos indígenas e afro-colombianos, além de artistas, estudantes e entidades ligadas às vítimas do conflito armado.

Para a colombiana Laura Capote, secretária continental da Alba Movimentos e pesquisadora do Instituto Tricontinental, a base eleitoral de Cepeda expressa as mudanças sociais produzidas nos últimos anos. Segundo ela, os bairros populares das grandes cidades e as regiões com forte presença de populações rurais, indígenas e afrodescendentes foram os principais redutos do candidato da esquerda no primeiro turno.

Capote afirma que a campanha ganhou novo impulso após a derrota na primeira volta. “Não é somente a militância. É a cidadania comum que subiu nos transportes públicos, ocupou esquinas e organizou atividades para mostrar às pessoas o que está em risco no país”, diz.

Quem é Abelardo de la Espriella

Advogado criminalista, empresário e figura conhecida da televisão colombiana, Abelardo de la Espriella disputa sua primeira eleição. Sua campanha foi construída em torno de uma imagem de autoridade, ordem e enfrentamento ao que chama de decadência das instituições políticas tradicionais.

Embora tenha se apresentado como outsider, sua candidatura se consolidou com o apoio de lideranças tradicionais da direita colombiana. Após o primeiro turno, recebeu o respaldo formal do Centro Democrático, do Partido Conservador, do Partido de la U e de Cambio Radical, reunindo um amplo bloco conservador contra o governo Petro.

A campanha utilizou intensamente símbolos nacionalistas e religiosos. Em seus atos, Espriella costuma aparecer cercado por seguranças, discursar atrás de vidros blindados, utilizar referências militares e apresentar-se como o “Tigre”, personagem central de sua identidade eleitoral.

Entre suas principais propostas estão a redução de 40% da estrutura do Estado, a retomada de projetos de exploração petrolífera e fracking, a construção de megacárceres e o encerramento das negociações com grupos armados.

Editado por: Rodrigo Gomes

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