Jovens realizadores do curso Jovem Produtor Audiovisual (JPA) levaram à comunidade do Jardim Itu-Sabará, na zona leste de Porto Alegre, o roteiro do curta-metragem “Paradoxo”, produção independente que tem como tema central a luta pela preservação da Floresta do Sabará, um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica da Capital. No dia 16 de maio, o grupo se reuniu com integrantes do coletivo SOS Floresta do Sabará na Biblioteca Pública Leopoldo Bernardo Boeck para debater a história com moradores e ativistas que vivem essa realidade.
O JPA é uma iniciativa gaúcha de formação cinematográfica voltada a jovens de diferentes contextos sociais. Após a conversa, os realizadores percorreram o bairro e áreas no entorno da Floresta do Sabará que aparecem no roteiro. A atividade buscou aproximar a produção audiovisual das experiências concretas da comunidade envolvida na defesa do território.

A floresta em disputa
A Floresta do Sabará ocupa uma área de aproximadamente 40 hectares remanescentes no bairro Jardim Itu-Sabará, na zona leste de Porto Alegre. Desde março de 2024, a área é afetada por obras do empreendimento Jardim Itália, do Grupo Zaffari, que prevê a construção de um condomínio residencial na região. Cerca de 10 hectares de vegetação já foram suprimidos para a construção de um atacarejo do grupo no local.
Segundo Morgana Marcon, integrante do SOS Floresta do Sabará, o movimento nasceu de uma situação concreta observada pelos próprios moradores: o aparecimento de graxains no entorno da floresta, revirando lixo em busca de alimento e sendo registrados pelas câmeras de segurança da vizinhança.
“A bióloga falou que realmente eles não tinham na lista da fauna ali existente esse animal, e inclusive a quantidade de butiazeiros era bem maior do que a citada no documento do Zaffari nesse levantamento que foi encaminhado para obter a licença das obras”, relata Marcon sobre a reunião inicial realizada na capela do bairro.
A partir desse episódio, a preocupação da comunidade se ampliou para o conjunto da fauna e da flora da região. “Nós sabíamos, os moradores antigos, que ali existiam nascentes”, afirma Marcon. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) confirmaram posteriormente a existência das nascentes e atestaram se tratar de remanescente de Mata Atlântica.
A mobilização da comunidade incluiu manifestações em frente ao canteiro de obras e reuniões sucessivas, até a abertura de um processo no Ministério Público, que segundo Marcon já resultou na suspensão das obras na área do atacarejo por dois anos.
De acordo com o projeto do empreendimento, conforme descrito pela integrante do SOS Floresta do Sabará, a intenção da empresa é preservar apenas três pequenas áreas verdes isoladas e desconectadas entre si, no lugar da floresta contínua atual. “E para onde irão esses animais que estão aí na floresta?”, questiona. Para ela, a luta da comunidade é “manter, fazer com que a floresta fique preservada e vire uma área de preservação”.
Graxains, bugios e o limite da convivência
A presença de fauna silvestre em deslocamento por conta da supressão de vegetação tornou-se um dos pontos centrais da disputa. Em fevereiro de 2025, foi registrada a morte de um bugio na região. Procurado pela reportagem, o Grupo Zaffari respondeu, por meio de nota, que lamenta o episódio, mas afirma que avaliações internas, de técnicos responsáveis pelo monitoramento da fauna e de órgãos oficiais de controle, não identificaram nexo causal entre a morte do animal e o empreendimento, atribuindo o evento ao “ambiente já antropizado no entorno da área” onde o projeto e outros empreendimentos estão situados.
O Grupo Zaffari afirmou que “prima pelo desenvolvimento econômico e social sustentável” e que todos os seus empreendimentos “são executados com observância às normas ambientais e urbanísticas vigentes, sobretudo aos princípios da prevenção e da precaução”. Segundo a empresa, o empreendimento Jardim Itália está regularmente licenciado, com licenças prévias, de instalação e de operação expedidas, incluindo aprovação de Relatório de Impacto Ambiental precedido de audiência pública.
A nota acrescenta que os estudos preparatórios ao licenciamento avaliaram os efeitos da supressão vegetal, determinando, quando necessário, medidas compensatórias e mitigatórias, e que questões relativas a alagamentos, biodiversidade e segurança da fauna silvestre também foram consideradas nesses estudos. O Grupo Melnick, citado como parceiro em fases anteriores do empreendimento, não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
O presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda, avalia que áreas verdes urbanas, importantes para a qualidade de vida da população e da fauna das cidades, não deveriam mais ser destinadas à especulação imobiliária e a projetos que poderiam ser viabilizados em terrenos já urbanizados. Já a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) afirma que o avanço da devastação em Porto Alegre tende a intensificar a crise climática, com tempestades, enchentes e temperaturas mais altas — fenômenos que, segundo a parlamentar, a cidade já enfrenta e que devem se agravar.
O que mudou na comunidade

Ester Freitas, integrante do SOS Floresta do Sabará, afirma que desde o início das obras, em março de 2024, “a comunidade está atenta a qualquer movimentação que ocorre no bairro”, reportando observações ao movimento e contribuindo para centralizar informações sobre o que ocorre na área.
Ela destaca que moradores de regiões mais distantes do entorno da floresta “começaram a conhecer o movimento”, em um processo gradual de integração que, segundo ela, é lento por conta da extensão territorial da floresta: “a área é grande, então muitos moradores do entorno acabam morando longe um do outro”.
O cinema como ferramenta de luta
Para a roteirista do curta, identificada como Crua, a luta pela Floresta do Sabará é anterior até mesmo ao início das obras de construção do supermercado, remontando à compra do terreno onde a mata está situada. “A articulação dessa luta atravessa as pessoas que moram lá e também a cidade como um todo, e depois da enchente isso intensificou”, afirma. A roteirista relaciona esse episódio a um processo de gentrificação que, para ela, “vem crescendo constantemente, cada vez mais, em todo o Brasil e especificamente em Porto Alegre”.
“Materializar isso em um curta é a materialização da realidade que está em volta, só abrir os olhos e ver”, diz Crua sobre o processo de transformar a luta em roteiro. Para ela, construir a história junto a uma comunidade que segue mobilizada há anos permitiu que ela fosse contada “a partir do senso de coletivo”. “É o que o filme quer transmitir também, que essa floresta não é de uma empresa X, é de todas que habitamos esse território, todos os seres.”
Morgana Marcon reforça essa avaliação sob a perspectiva do movimento: “Para nós é muito importante ter essa luta retratada nesse curta, vai dar uma abrangência maior pra nossa causa”.
Ela destaca ainda o significado da iniciativa partir de um grupo de jovens: “A gente sabe que hoje em dia parte dessa geração não está muito ligada no que acontece no seu entorno, nessas causas, esses movimentos ambientais e sociais. É muito importante que vocês estejam pensando nesse tema para fazer um curta-metragem e dar visibilidade ao que tá acontecendo com essa grande área de mata no meio da cidade.”
O curso que forma fazendo
O Jovem Produtor Audiovisual (JPA) existe desde 2023 e chegou na quarta edição em 2025, financiado pela Lei Paulo Gustavo. O curso seleciona 30 alunos a cada edição com o objetivo de formar profissionais capacitados para atuar no setor audiovisual. Ao longo de cinco meses, os alunos percorrem todas as etapas da produção — da teoria sobre história do cinema e escrita de roteiro à prática com equipamentos de filmagem, sonorização e iluminação — culminando na realização de curtas-metragens e na participação em mostras e festivais.
O curso reserva 60% das vagas para cotas raciais e sociais, recebendo alunos negros, indígenas, ciganos, pessoas trans e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, com fornecimento de passagens de ônibus para os alunos com maior dificuldade de deslocamento.
Campanha e próximos passos
O orçamento total do curta é de aproximadamente R$ 16 mil. Para viabilizar etapas como transporte, alimentação da equipe, direção de arte, locações e pós-produção, a equipe lançou uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Vakinha, com meta de R$ 8 mil, aceitando contribuições via Pix. A equipe ainda não divulgou data de estreia ou participação confirmada em festivais.
