O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), anunciou Márcio França (PSB) como candidato a vice em sua corrida ao governo de São Paulo. Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), a formação da chapa ocorreu porque França, de certa forma, ficou impossibilitado de candidatar-se a outro cargo. Além disso, o ex-governador demonstrou grande capacidade em outras disputas de angariar votos no estado.
“Foi uma estratégia para somar forças. Melhor ter o PSB e o próprio Márcio França como aliado do que fora do baralho, já que, como candidato a governador, ficou muito próximo de ser eleito quando disputou com Doria. Ele tem muito voto em alguns lugares do estado, especialmente na Baixada Santista”, explica em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Ramirez destaca que, provavelmente, o PT encontrará o desafio de sempre para conseguir vencer o governo: o interior paulista, onde Tarcísio de Freitas tem amplo apoio. “É uma região onde a ideologia mais reacionária e conservadora tem mais potência. É totalmente o oposto do que acontece na cidade de São Paulo, onde Haddad tem bom desempenho. O interior é o grande desafio, onde o agronegócio domina e, consequentemente, controla meios de comunicação, a educação e boa parte da opinião pública. Caberá ao Márcio França fazer uma boa campanha com Haddad no interior para tentar pegar esses votos do Tarcísio”, afirma.
Paulo Niccoli Ramirez avalia como acertada a saída de Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, assim como sua substituição pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). “A gente não pode esquecer de imagens muito tristes que vimos de Jaques Wagner conversando ao pé do ouvido com Flávio Bolsonaro e também sendo um dos articuladores do fracasso da escolha de Jorge Messias como ministro do STF. Há indicações, portanto, de que ele tinha ligações com grupos de direita no Senado”, critica. “Tirar o Jaques Wagner é importante porque sinaliza que essa situação não é do PT como um todo. Manter o senador no posto só atrapalharia a candidatura de Lula à reeleição”, defende.
Guerra de família
O racha da família Bolsonaro ficou exposto depois que a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro publicou um vídeo dizendo ter sido maltratada e humilhada pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e endereçou críticas diretas ao senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O cientista político afirma que o vídeo demonstra que não existe qualquer coesão dentro da família Bolsonaro e destaca a importância de Michelle para o bolsonarismo. “Ela percorreu os 27 estados da federação, criando polos das posições femininas do seu partido. Ela se articula e fala bem melhor do que Flávio e os outros filhos de Bolsonaro. Mas essa disputa mostra que não existe coesão familiar e ataca um dos principais pontos da campanha de Bolsonaro, o calcanhar de Aquiles, que é a defesa da família. O único que poderia estancar essa questão é o Bolsonaro, só que ele está preso. Tenho a impressão de que a orientação que Bolsonaro passará tanto para Michelle quanto para Flávio é para que eles se apresentem juntos, em gravações, mostrando que estão unidos”, aponta.
Ao mesmo tempo, o vídeo expõe o que já se sabe: que o bolsonarismo é misógino e machista. “Michelle chegou a dizer que ouviu de Flávio que não entendia nada de política e a diminuiu na sua condição de mulher. Isso, claro, atrai o voto bolsonarista dos homens, porque reforça esse pensamento, mas, para as mulheres, mesmo as conservadoras, fica uma pulga atrás da orelha”, avalia Paulo Niccoli Ramirez.
Para ouvir e assistir
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