Dezenas de pessoas em situação de rua e crianças em situação de vulnerabilidade social assistiram à classificação da Seleção Brasileira para a segunda fase da Copa do Mundo, na noite desta quarta-feira (24), em um telão instalado dentro da Casa de Oração do Povo Pobre, na região da Luz, no centro de São Paulo.
Um dos torcedores mais empolgados era Nelson Ortiz Mello, de 49 anos. Muito fã do Vinícius Jr., ele acredita que o Brasil vai ser hexa porque essa é a “alavanca que o brasileiro precisa para seguir a luta”.
Ele não era o único empolgado com a atuação do camisa 7 da seleção brasileira. A cada um dos três gols de Vinícius Jr. (dois validados e um anulado por falta), a expectativa em torno da seleção aumentava. “Esse moleque é muito craque. Pode vir França, Espanha, qualquer uma, que ele vai colocar a sexta estrela no nosso peito”, disse Nelson, enrolado em seu cobertor na fria noite paulistana, que registrava 13 ºC.
Em situação de rua desde 2023, Nelson participou da janta na Casa de Oração do Povo Pobre, que foi oferecida pouco antes do início do jogo que terminou na vitória e classificação do Brasil contra a Escócia, que aconteceu em Miami (EUA).
A refeição no local também contou com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, da equipe do ministério e de ativistas da Pastoral do Povo de Rua. Mais cedo, o ministro anunciou a Política Nacional de Saúde para população em situação de rua.
Também otimista com a Seleção, a aposentada Aline Gonçalves, de 64 anos, disse que tem certeza de que “o Brasil vai ser campeão”, porque, segundo ela, a festa que o brasileiro faz mesmo diante das dificuldades “é para ser campeão em toda Copa”.
O frisson causado por Vinícius Jr. só não foi maior do que nos momentos em que a transmissão mostrava Neymar. O camisa 10 da Seleção Brasileira entrou quando a partida já estava 3 a 0, e fez sua primeira participação no mundial da América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá).

Responsável pelo local, padre Júlio Lancellotti acredita que a relação entre o futebol e a população em situação de rua vai muito além de uma simples distração. Para o religioso e ativista, o esporte deve ser encarado como uma forma de “alegria” e não como um mecanismo de “alienação”.
Lancellotti pontua que, para quem vive em condições de vulnerabilidade extrema, a prática ou a torcida esportiva precisa carregar uma vivência saudável, evitando que o futebol se torne apenas uma válvula de escape para uma realidade em que, muitas vezes, não há perspectivas concretas de transformação para o indivíduo.
Ao abordar a intensidade que as Copas do Mundo despertam na sociedade, o padre destaca que o interesse pelo esporte é um reflexo de um “comportamento coletivo”.
Esse fenômeno, segundo avalia Lancellotti, mobiliza desde as classes mais abastadas até quem vive à margem. E demonstra como o futebol possui uma capacidade única de contagiar o comportamento social.
Para ele, no entanto, é fundamental que essa euforia não encubra a dura realidade dos mais pobres, que, em meio à festa, encontram no esporte uma saída para a alegria.
Embora o esporte tenha o poder de unir o país, padre Júlio enfatiza que essa alegria deve ser acompanhada por um olhar atento às necessidades básicas dessa população. “O esporte não pode servir como uma cortina de fumaça, mas sim como um momento de convivência que, idealmente, ajude a despertar a sociedade para a importância de oferecer, no dia a dia, mais do que puro entretenimento”, afirma.
Com a vitória por 3 a 0, o Brasil garantiu a primeira colocação do Grupo C da Copa do Mundo e volta a campo na próxima segunda-feira (29), às 14h. O adversário será o segundo colocado do Grupo F (Holanda, Japão ou Suécia), que tem sua última rodada nesta quinta-feira (25), às 20h.
