Camisa canarinho

Além do futebol: como o verde e amarelo se tornou um ‘símbolo flutuante’ da política brasileira

Historiador traça a linha do tempo das cores nacionais, desde o modernismo nos anos 1920 até os desafios atuais

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Camisa do Pelé em exposição "Amarelinha", no Museu do Futebol
Camisa do Rei Pelé na exposição “Amarelinha”, no Museu do Futebol | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

A camisa amarela da Seleção Brasileira, reconhecida e mundialmente respeitada no futebol, atravessa um momento de redefinição de seu papel no imaginário brasileiro. O que há algum tempo era o manto inquestionável da unidade nacional, vestida das periferias aos centros urbanos, tornou-se, na última década, o epicentro de uma disputa de narrativas sobre o que significa o principal símbolo representativo do Brasil no esporte mais popular do país.

Para entender esse fenômeno, é preciso mergulhar nas camadas históricas que o professor e historiador Flávio de Campos decodifica com precisão. Segundo ele, o nascimento da “amarelinha” não foi um ato de glória, mas uma resposta a um trauma profundo: a derrota de 1950 para o Uruguai, no Maracanã.

De acordo com o historiador, a substituição do uniforme branco pelo amarelo, consolidado em 1954 e vitorioso em 1958, funcionou como um amuleto, um mecanismo de superstição para exorcizar o fantasma do “Maracanaço”.

No entanto, a história das cores nacionais antecede o futebol. Conforme Flávio de Campos, o verde e amarelo já ocupavam o centro do debate sobre a identidade do país na década de 1920. O historiador aponta que, no centenário da Independência, os modernistas protagonizaram uma disputa ideológica entre o Movimento Pau-Brasil e o Movimento Verde-Amarelismo.

Segundo o professor, este último não era uma simples celebração folclórica, mas um projeto de direita e conservador que visava pautar a identidade brasileira a partir de uma ótica autoritária. Mas o surgimento da camisa verde e amarela, somado às conquistas da seleção do Pelé, apresentou o Brasil ao mundo como um país multicultural, com negros e brancos apresentando um futebol de excelência.

Essa carga histórica em cima da camisa amarelinha, que Flávio classifica como um “símbolo flutuante”, um operador cultural potente que pode ser capturado por diferentes ideologias, foi explorada durante a ditadura militar. O regime, segundo o historiador, “surfou” na euforia do tricampeonato de 1970, colando slogans ufanistas à imagem da seleção.

Para o professor, a apropriação foi eficaz porque misturou o sucesso esportivo, que encantava o mundo, à propaganda estatal que encobria o racismo estrutural e as desigualdades sociais, promovendo uma “ilusão de inclusão” por meio da imagem de um Brasil multicultural e vitorioso.

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A camisa em resistência

Apesar desse histórico, o símbolo nunca foi estático. Flávio de Campos destaca que, em 1984, durante a campanha das “Diretas Já”, o amarelo foi resgatado pelas forças populares e de esquerda como uma cor de esperança e oposição à ditadura.

Essa pluralidade de sentidos reflete o que pensam torcedores como Vanessa Santos, professora de educação física de 42 anos. Em visita ao Museu do Futebol, em São Paulo, ela rejeita a exclusividade política da camisa. “Não acredito que a nossa bandeira seja a representação, por meio da nossa camisa, de um viés político. O que importa é o amor ao nosso Brasil”, afirma Vanessa.

Para a professora da rede de educação de Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo, a apropriação por grupos políticos causa uma divisão da qual ela discorda, defendendo que a vestimenta “pertence ao conjunto da nação”.

O servidor público Fred Nachef, 66 anos, compartilha desse sentimento de que o símbolo deve ser retomado. Ao visitar o museu com a filha, o morador de Salvador lamenta o que considera o “sequestro” do manto. “Eu não concordo que a camisa seja usada como símbolo político, não importa de que lado seja. A camisa é para todos vestirem, torcerem pelo país”, pontua.

O sequestro da direita

A disputa pela camisa amarela ganhou contornos mais agudos a partir de 2013. Segundo Flávio de Campos, as Jornadas de Junho daquele ano representaram um ponto de inflexão na política brasileira. O professor explica que “a reação contra a lógica dos megaeventos esportivos e a influência do grande capital na organização das cidades abriu espaço para que grupos conservadores se apropriassem do verde e amarelo em uma chave conservadora”.

Segundo o historiador, o uso do símbolo se intensificou em 2014, quando a campanha de Aécio Neves convocou seus eleitores a comparecerem às urnas, no segundo turno, trajando a camisa da Seleção. O efeito foi imediato e visualmente poderoso, consolidando a peça como um uniforme da oposição ao governo Dilma, prática que se estendeu pelos acampamentos golpistas na Avenida Paulista e, posteriormente, na apropriação quase total feita pelo bolsonarismo em 2018.

Apesar desse histórico, Flávio de Campos é enfático ao negar a ideia de que a esquerda deveria abandonar o símbolo. Para o professor, a “amarelinha” continua sendo um patrimônio da sociedade brasileira e, como um “símbolo flutuante”, deve ser disputada constantemente.

O historiador acredita que ceder o uniforme à extrema-direita é um erro tático, uma vez que o futebol e suas cores possuem uma força simbólica maior do que qualquer corrente política específica.

O professor defende que é essencial que figuras políticas do campo democrático apareçam com a camisa em momentos como a Copa do Mundo. Segundo ele, apenas por meio dessa retomada e de um enfrentamento sério, por vezes usando o humor e a ridicularização contra o fanatismo, é que se conseguirá diminuir resistências em setores da população que ainda estão em disputa, garantindo que o símbolo retorne ao seu propósito original de representar o conjunto dos brasileiros.

Exposição no Museu do Futebol

Exposição Amarelinha, no Museu do Futebol
Exposição Amarelinha, no Museu do Futebol, em São Paulo – Foto: Vitor Shimomura/Brasil de Fato | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

O Museu do Futebol, ao lançar a exposição “Amarelinha”, busca exatamente situar o torcedor nesse turbilhão de significados. Segundo o jornalista e curador Marcelo Duarte, o objetivo da mostra é trazer a história para o centro da mesa, tratando a camisa como um patrimônio que, apesar dos conflitos, permanece vivo.

Para Duarte, a exposição não se resume a um arquivo estático. O curador defende que, ao exibir as diferentes facetas da camisa — desde os ídolos do passado até jogadores que ainda são esperanças do hexa —, o museu oferece ao visitante o instrumental necessário para compreender as complexidades da camisa verde e amarela.

Em um momento de acirramentos políticos intensos, Duarte traz uma perspectiva otimista e inovadora sobre o debate. Na visão do curador, a discussão sobre a politização da camisa amarela pode estar atingindo um patamar de exaustão, permitindo, enfim, que o torcedor a enxergue novamente como um objeto de esporte e memória.

Duarte vai além e acredita, no entanto, que o horizonte dos debates mudou. O jornalista avalia que o foco atual já não é apenas a disputa pela camisa amarela, mas a possibilidade de novas discussões no futebol, como o possível uso da camisa vermelha pelos goleiros da Seleção.

A exposição “Amarelinha” está no Museu do Futebol, localizado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, até o dia 7 de setembro. O espaço convida o público a uma imersão que vai muito além das quatro linhas. Segundo o curador, “a mostra é um organismo vivo, acompanhando o tempo presente”.

Em uma aposta confiante na seleção brasileira, a equipe responsável pela exposição fez uma promessa aos visitantes: caso o Brasil conquiste o hexacampeonato, a exposição será atualizada, encerrando o ciclo com a inclusão de pelo menos uma camisa do time do campeão do mundo entre as peças históricas expostas.

Para quem deseja visitar, o Museu do Futebol funciona de terça a domingo, das 9h às 18h, com a bilheteria permitindo a entrada até as 17h. Os ingressos custam R$ 24,00 (inteira) e R$ 12,00 (meia-entrada), sendo que crianças de até 7 anos não pagam.

Às terças-feiras, a entrada é gratuita para todos os públicos. O museu oferece uma estrutura acessível e é uma oportunidade para refletir sobre como o esporte se entrelaça com a identidade social do país. É recomendável que os visitantes consultem o site oficial do Museu do Futebol para checar possíveis alterações de horários em dias de jogos ou eventos especiais no Pacaembu.

Editado por: Rodrigo Gomes

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