O CANTO FICA

Homenagens a Zé Martins reúnem familiares, artistas, entidades e movimentos populares

Músico, educador popular e militante da cultura tem legado celebrado na despedida em São Leopoldo (RS) e nas redes

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Zé Martins se apresentou na Caravana do FNDC, em Porto Alegre, em março de 2026
Zé Martins se apresentou na Caravana do FNDC, em Porto Alegre, em março de 2026 | Crédito: Jorge Leão

A despedida de José Carlos Martins, o Zé Martins, lotou o plenário da Câmara de Vereadores de São Leopoldo na manhã de domingo (28). Familiares, amigos, companheiros da cultura, lideranças políticas, militantes de movimentos sociais, colegas do jornalismo e pessoas que acompanharam a trajetória do artista prestaram homenagens ao músico, compositor, artista plástico, educador popular e militante da cultura popular latino-americana.

Zé morreu na manhã de sábado (27), em Novo Hamburgo, aos 64 anos, após sofrer uma parada cardíaca no ateliê onde vinha vivendo e criando nos últimos anos, espaço que mais amava. Ele deixa dois filhos, Tobias Martins e Gabrielle Martins.

“O que vivemos hoje não foi um velório, fizemos coletivamente a passagem do Zé, devolvendo a ele tudo o que ele nos proporcionou: amor, generosidade, convicção, ideias, utopias e sonhos de um mundo melhor”, escreveu sobre a despedida a deputada estadual suplente Ana Affonso (PT) nas redes sociais.

Um dos fundadores do Grupo Unamérica, Zé Martins construiu uma trajetória marcada pela defesa da integração latino-americana, pela educação popular e pela compreensão da cultura como instrumento de transformação social. Entre vários projetos desenvolvidos atualmente, era integrante do Comitê Gestor do Ponto de Cultura Cantalomba, na Lomba Grande, em Novo Hamburgo, território escolhido por ele como lugar de vida, criação e pertencimento.

Cerimônia de despedida lotou a Câmara de Vereadores de São Leopoldo (RS)
Cerimônia de despedida lotou a Câmara de Vereadores de São Leopoldo (RS) | Crédito: Marcos Corbari

Casado com a editora-chefe do Brasil de Fato RS, a jornalista Katia Marko, Zé também manteve uma ligação afetiva com o jornal. Além de participar de debates, entrevistas e iniciativas culturais, foi o compositor da música-tema que acompanha a identidade sonora da redação gaúcha desde o início.

‘Arte como instrumento’

Em depoimento publicado nas redes sociais do Grupo Unamérica, Dão Real Pereira dos Santos, parceiro de Zé Martins por mais de quatro décadas, afirmou que a partida do amigo deixa “um imenso vazio”. “Partiu um guerreiro, um amigo, um irmão. Meu compadre Zé Martins nos deixou de susto, sem avisar ninguém, de repente desembarcou da vida”, escreveu.

Dão destacou que Zé transformava em arte tudo o que passava pelas mãos dele. “Tudo o que passava por suas mãos se transformava em arte, em poesia, em música, em quadros, em esculturas, em literatura. O Zé era um homem de causas, de projetos, era um militante social que utilizava a arte como instrumento”, afirmou.

O músico lembrou que, desde 1983, os dois compartilhavam no Unamérica o sonho de construir uma sociedade mais justa por meio da música. “A arte não era pela arte, mas por alguma coisa maior”, resumiu Dão. “Tenho muito orgulho de ter convivido e aprendido tanto com esse meu companheiro, por 43 anos de Grupo Unamérica.”

Para Dão, Zé era “inquieto, rebelde, irreverente, irresignado” e vivia de forma intensa tudo o que fazia. “Nos deixa um enorme legado, suas músicas, seus poemas, suas obras e seus ensinamentos. Era um professor entusiasmado, um estudioso das coisas da natureza e das gentes”, escreveu.

‘Entidades destacam legado nas lutas populares’

A homenagem do Unamérica soma-se a diversas manifestações publicadas nas redes sociais desde a partida de Zé Martins. Entidades, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas destacaram a generosidade, o compromisso com a cultura popular, a presença nas lutas sociais e a capacidade de fazer da arte uma forma de organização, memória e esperança.

Zé Marins e Dão Real integram o Grupo Unamérica há mais de 40 anos
Zé Marins e Dão Real integram o Grupo Unamérica há mais de 40 anos | Crédito: Fabiana Reinholz

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) lembrou a presença das canções de Zé em momentos de mística, formação, celebração e resistência. “As canções de Zé acompanharam incontáveis momentos de mística, formação, celebração e resistência do Movimento dos Pequenos Agricultores. Embalaram encontros, fortaleceram a organização popular e ajudaram a alimentar a certeza de que outro Brasil e outra América Latina são possíveis”, afirmou a entidade.

O movimento também relacionou a trajetória do artista à agroecologia, à Pachamama e aos povos do campo. “Sua paixão pela cultura, pela agroecologia, pela Pachamama e pelos povos do campo encontrou no MPA uma caminhada comum: a defesa da vida, da terra, da soberania alimentar e da dignidade de quem cultiva o alimento e a esperança”, registrou.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) afirmou que Zé esteve presente em lutas, místicas, celebrações, festas da colheita, encontros e canções que fortaleceram a esperança de um Brasil mais justo. “Sua música sempre foi mais do que expressão artística: foi instrumento de resistência, de educação popular e de construção da solidariedade”, destacou.

Para o MST, Zé acreditava que a cultura é um direito do povo e fez da arte um caminho para aproximar pessoas, fortalecer identidades e manter viva a memória das lutas populares. “Sua voz, seu violão e sua sensibilidade marcaram gerações e seguirão ecoando em cada espaço onde o povo se reúne para sonhar e transformar a realidade”, afirmou o movimento.

‘Música, política e América Latina’

O colunista do Brasil de Fato RS e deputado estadual constituinte Selvino Heck recordou uma apresentação do Unamérica no início dos anos 1990, quando presidia o PT do Rio Grande do Sul. Segundo ele, durante um encontro do partido no plenário da Assembleia Legislativa, propôs que a atividade unisse discursos, música, mística e política. “Foi difícil convencer a Executiva do PT RS. Mas o Unamérica esteve lá. Cantou, dançamos, em nome da América Latina. Foi tri. E todo mundo gostou e aprovou”, relatou.

O músico Raul Ellwanger também lamentou a perda e destacou a originalidade do Unamérica em um período em que poucos artistas se dedicavam à música latino-americana. “Faleceu o Zé Martins. Fora de época, ainda havia muitas canções por trilhar, Zé!”, escreveu.

Ellwanger lembrou que conheceu Zé ao lado de Dão Real no Unamérica, quando o grupo lançou um disco que classificou como “muito original”. Também citou a gravação de “Paz Pra Nicarágua”, canção dele em homenagem ao padre Ernesto Cardenal, além de parcerias em eventos solidários, sindicais, políticos, de arrecadação para pessoas em situação de necessidade e em defesa dos direitos humanos.

O músico Antônio Gringo afirmou que a música popular perdeu “um grande companheiro”. Ele recordou o Unamérica como um grupo comprometido com a música engajada e com as lutas sociais. “Vai em paz, companheiro, tua arte seguirá viva”, escreveu.

‘Sindicatos e comunicação’

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) destacou Zé como artista, companheiro, pai e lutador das causas sociais. A entidade manifestou solidariedade a Katia Marko, coordenadora-geral do Fórum, e lembrou a presença do músico na abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em Porto Alegre, em março. “A voz e a energia vibrante de Zé Martins animaram a abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em Porto Alegre”, registrou.

O Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) também lamentou a morte do artista e prestou solidariedade à família, em especial a Katia, 1ª vice-presidenta da entidade. O sindicato lembrou que Zé abrilhantou diversas iniciativas do SindJoRS, entre elas a comemoração dos 80 anos da entidade, a Conferência Internacional Antifascista e a etapa de Porto Alegre da Caravana do FNDC.

Para o SindJoRS, Zé “fez da arte um caminho de educação, solidariedade e integração entre os povos latino-americanos”.

Gestão pública e militância

O ex-prefeito de São Leopoldo Ary Vanazzi (PT) afirmou ter recebido com profunda tristeza a notícia da morte de Zé, a quem definiu como “um grande amigo, companheiro de caminhada e uma referência da cultura popular gaúcha”. Vanazzi lembrou que esteve com o artista na noite anterior à morte. “Tivemos a oportunidade de conversar e nos abraçar. Recebi dele o carinho, a energia e a disposição de sempre para seguir contribuindo com as lutas que compartilhamos”, escreveu.

Vanazzi também recordou a atuação de Zé como primeiro secretário de Cultura de São Leopoldo no governo dele, em 2005. Segundo o ex-prefeito, a sensibilidade, a criatividade e o compromisso do artista ajudaram a construir projetos importantes para a cidade e marcaram a história da caminhada política e cultural do município.

O ex-presidente do PT Davi Stival lembrou a presença de Zé e do Unamérica em 1989, em Portão, em apoio à campanha de Adão Preto e Marangon. Segundo Stival, Zé sempre apoiou candidaturas populares do campo e fará falta “nas trincheiras da luta pela democracia”.

‘Zé Martins, presente!’

Na despedida em São Leopoldo, a dimensão artística e humana de Zé apareceu nas falas de quem conviveu com ele. Ele foi lembrado como “cantador do povo” e alguém que fazia arte e música com qualquer coisa e para todos.

Entre canções, memórias, poemas e relatos, a despedida de Zé Martins reuniu aquilo que marcou a vida do artista: cultura popular, luta social, América Latina, educação, afeto e compromisso coletivo. Por diversas vezes, os presentes entoaram: “Zé Martins, presente, presente, presente!”.

Editado por: Marcelo Ferreira

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