A Cooperativa de Desenvolvimento Sustentável e Agroecologia (Codestac), que reúne agricultores assentados da reforma agrária organizados no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), celebrou nesta quinta-feira (2) um marco para a agricultura camponesa da região central do Brasil. Em cerimônia realizada no auditório da Fiocruz Brasília, na Universidade de Brasília (UnB), foi assinado o convênio para a implementação do programa Coopera Mais Brasil, que prevê a construção das duas primeiras agroindústrias da reforma agrária no Distrito Federal.
A iniciativa conta com um investimento total de R$ 2.108.168, sendo a maior parte composta por recursos sociais não reembolsáveis da Fundação Banco do Brasil (FBB) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O projeto busca modernizar a produção em assentamentos e acampamentos, permitindo que agricultores familiares acessem mercados institucionais e convencionais com produtos de maior valor agregado.
“Estamos construindo a nossa primeira agroindústria, que será no Centro de Formação Gabriela Monteiro, em Brazlândia (DF). Uma das unidades será dedicada ao processamento de mandioca descascada e embalada a vácuo. A outra produzirá polpas de frutas, doces, compotas e frutas minimamente processadas”, explicou Jovina de Oliveira Roque, presidenta da Codestac.
A Codestac, que atualmente organiza 276 famílias cooperadas em regionais do Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, será responsável pela gestão da iniciativa. O projeto terá duração de 24 meses e inclui diagnóstico produtivo, planejamento, capacitação técnica, apoio à transição agroecológica e fortalecimento da comercialização.
Benefícios
A secretária da cooperativa e dirigente do MST, Edineide Rocha, destacou o simbolismo da conquista para a região. “Hoje, para nós, é um momento muito importante, enquanto cooperada e gestora desta cooperativa, onde formamos essa parceria para a primeira agroindústria da reforma agrária no Centro-Oeste. Ela vem beneficiar milhares de famílias, moradores e trabalhadores dos assentamentos e acampamentos”, afirmou.
Segundo ela, o investimento fortalece não apenas a produção, mas toda a organização coletiva construída pelo movimento. “Nós precisamos não só produzir, mas também dar visibilidade aos nossos alimentos. E isso vem com qualidade. Apesar da gente ter força para trabalhar, precisamos de parceiros e de políticas públicas que deem esse pontapé para conseguirmos, de fato, trazer o alimento à mesa”, destacou.
Para Francis Rocha, assistente técnico da Codestac e do setor de produção do MST, a agroindustrialização é o passo necessário para profissionalizar a entrega dos alimentos. “A agroindústria vai fortalecer a produção para acessar mercados institucionais e convencionais, com alimentos preparados para exigências de rótulo e aparência. Isso aumenta a renda do trabalhador, agrega valor e exige organização, formação e planejamento da produção das famílias”, afirmou.
Ele ressalta que a consolidação da agricultura camponesa também depende da organização coletiva e da modernização da produção. “Se nós quisermos desenvolver os nossos territórios, tem que ser no trabalho cooperado, acessar a agroindustrialização e a mecanização agrícola adaptada para os pequenos agricultores camponeses”, pontuou.

Parcerias
O projeto também foi celebrado pelas instituições parceiras como um modelo de investimento social. Álvaro Campelo, representante da Fundação Banco do Brasil, reforçou a natureza do apoio financeiro oferecido à cooperativa. “Este projeto é um investimento não reembolsável, diferente de um Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], onde é necessário pagar parcelas. Ele nasce desta construção coletiva e de acreditar no trabalho de vocês para potencializar a organização e fazer a comida chegar à mesa de quem precisa”, ressaltou.
A cerimônia de lançamento reuniu autoridades e representantes do governo federal, além de organizações parceiras do projeto. Renata Porto, assessora da Secretaria Geral da Presidência, enfatizou o papel da agroindústria na luta camponesa. “Este convênio representa o fortalecimento da agricultura familiar e o processo de estruturação da agroindústria que potencializa a batalha da reforma agrária. É um marco importante para a geração de renda, o desenvolvimento sustentável e a segurança alimentar”, destacou.
A superintendente regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Distrito Federal e Entorno, Claudia Farinha, destacou que a iniciativa demonstra o avanço das políticas públicas voltadas aos assentamentos. “É muito importante ver essas políticas chegando aos agricultores familiares do Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. Esta cooperativa fortalece os territórios e potencializa a agricultura familiar”, disse.
O deputado distrital Chico Vigilante (PT) também esteve presente e lembrou que a organização coletiva é a garantia de que o projeto terá continuidade. “Precisamos deste trabalho sendo feito via cooperativa para que as agroindústrias não morram quando os governos mudam, como já vimos acontecer no passado. Defender iniciativas como esta é defender a sobrevivência do trabalhador rural que produz alimentos”, analisou.

Além da construção das agroindústrias, o Coopera Mais Brasil prevê ações de mecanização agrícola adaptadas aos pequenos produtores, fortalecimento da organização cooperativa e ampliação da comercialização por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A iniciativa reúne a Fundação Banco do Brasil, o Sebrae, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), a Fiocruz Brasília, o Instituto Federal de Brasília (IFB) – campus Planaltina, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF) e a União Nacional das Cooperativas da Reforma Agrária Popular do Brasil (Unicrab), responsáveis pelo financiamento, apoio técnico, formação e fortalecimento da organização produtiva das famílias assentadas.
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