Sob o sol do Cerrado e o aroma de café recém-passado, cerca de 300 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) consolidam, desde a última sexta-feira (5), o Acampamento Chico Mendes. Localizada na Gleba 223 da Fazenda Sálvia, em Planaltina (DF), a ocupação reivindica uma área de aproximadamente 10.800 hectares pertencente à Secretaria de Patrimônio da União (SPU).
No local, a recepção aos visitantes e novos acampados é feita com café coletivo e partilha de alimentos, reforçando o espírito de solidariedade camponesa. O objetivo central da ação é transformar o território, que era explorado de forma irregular por setores do agronegócio e da grilagem, em um polo de reforma agrária popular e produção de alimentos saudáveis.
A escolha do nome do acampamento homenageia o seringueiro e líder sindical Chico Mendes, símbolo mundial da defesa do meio ambiente e da justiça social. Para o movimento, a memória do ambientalista representa a resistência contra o modelo de monocultivo e o uso intensivo de agrotóxicos que degrada o Cerrado.
Marco Baratto, da coordenação nacional do MST, afirma que a ocupação busca pressionar o Estado a retomar áreas públicas destinadas historicamente à especulação privada.
“Esse território vem, há décadas, sendo explorado pela grilagem de terra no DF e por setores ligados ao agronegócio. Nós precisamos retomar essas áreas para a União e criar assentamentos de reforma agrária. Não podemos aceitar que um grileiro como esse, que não mora aqui e que não tem documento, continue explorando a renda da terra em uma área que é pública”, declarou.
Agroecologia contra o monocultivo
Segundo o MST, a Fazenda Sálvia é utilizada atualmente para plantios de sorgo voltados à alimentação animal, em um modelo baseado no monocultivo e no uso de venenos agrícolas.
Baratto defende que o projeto do movimento representa uma alternativa ao modelo dominante no campo. “O nosso projeto apresenta contra-hegemonicamente a agroecologia como modelo produtivo alternativo ao agronegócio e ao veneno, trazendo a escola do campo e a cooperação para que o território possa de fato produzir comida e plantar água”, afirmou.
Como parte da Jornada Nacional em Defesa da Natureza, os acampados realizaram o plantio de 200 mudas de espécies nativas e frutíferas. A ação busca iniciar um processo de reflorestamento da área.

Nargila Alves da Silva, acampada em busca do primeiro lote, destacou a importância ambiental da iniciativa. “É muito importante porque as áreas do agronegócio derrubam as árvores todas. O plantio ajuda a trazer sombra, melhorar o ar e recuperar o território para as famílias que vão permanecer aqui no acampamento. Queremos que essa área vire assentamento para os militantes viverem da produção da terra”, afirmou.
O MST afirma que a ocupação também tem o objetivo de denunciar a apropriação privada de terras públicas no Distrito Federal. Segundo Marco Baratto, a área pertence integralmente à União e já existem diálogos entre SPU e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para destinação da gleba à reforma agrária.
“A nossa tarefa é ocupar e mostrar que essa terra está sendo invadida irregularmente por grileiros. Quando a gente ocupa, o problema aparece. Aqui o próprio arrendatário apareceu dizendo que queria tirar o sorgo, mas não apresentou documento nenhum. A terra é pública. Para nós, a terra não é mercadoria. Terra é um bem da vida, é para produzir comida e dar retorno para a sociedade”, ressaltou.
Universidades e formação
A ocupação está localizada próxima ao campus da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Federal de Brasília (IFB) de Planaltina, o que, segundo educadores, favorece a construção de projetos de extensão e qualificação técnica para as famílias.
Rafael Villasboas, professor da Licenciatura em Educação do Campo da UnB, avalia que a reforma agrária pode fortalecer o abastecimento alimentar no DF.
“A importância de ter mais acampamentos e assentamentos próximos de Brasília é posicionar a agricultura familiar, a alimentação saudável e a agroecologia no abastecimento das famílias do DF. Essa área hoje está completamente desmatada e tomada pelo sorgo. Daqui a algum tempo, ela pode estar produzindo legumes, verduras e frutas. Além disso, a proximidade com a UnB e o IFB permite que essas famílias se qualifiquem como agroecólogos, agrônomos e educadores do campo”, afirmou.

Paulo Cabral, professor de agroecologia do IFB, afirma que a reforma agrária é fundamental para ampliar a produção de alimentos saudáveis e fortalecer formas coletivas de organização no campo.
“Para nós é muito importante trabalhar com a questão da reforma agrária, pois os agricultores familiares e assentados são os maiores produtores de alimento saudável, desenvolvendo práticas voltadas tanto para a produção quanto para a organização cooperativa”, afirmou.
Críticas ao GDF e denúncia
A presença de parlamentares no acampamento reforçou o tom político da ocupação. O deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF), presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Reforma Agrária da Câmara Legislativa, criticou o tratamento dado pelo Governo do Distrito Federal às ocupações populares.
“É impressionante como os governos Ibaneis e Celina tratam de forma diferente os conflitos por terra no Distrito Federal. Quando é para atender interesses da especulação e dos mais ricos, geralmente fingem que não estão vendo. Mas, quando é para garantir reforma agrária, moradia popular e produção de alimentos saudáveis, o tratamento costuma vir com força policial e fiscalização”, afirmou.
Magno afirmou ainda que o MST realiza uma ação legítima ao pressionar os órgãos públicos. “O MST, numa ação legítima, legal, faz a pressão necessária para o Estado garantir o que tá na Constituição, que é o direito à terra, à produção de alimentos saudáveis. Estamos em diálogo com a SPU, com o Incra, para que a SPU possa imediatamente transferir a propriedade dessa gleba pro Incra para que ele faça reforma agrária e possa assentar os companheiros e companheiras que estão aqui nessa ocupação”, disse.
´A terra tem que servir ao povo´
A deputada federal Érica Kokay (PT-DF) também participou da atividade e associou a ocupação à luta histórica contra a grilagem e a concentração fundiária.
“Esse acampamento leva o nome de Chico Mendes para nos lembrar que a terra precisa cumprir sua função social. A terra da União tem que servir ao povo, não à grilagem e à especulação imobiliária. Vocês respeitam a terra, querem água limpa, ar puro e comida sem veneno na mesa do povo brasileiro ”, declarou.
Segundo a parlamentar, o conflito envolve não apenas a disputa pela terra, mas também diferentes projetos de ocupação do território no Distrito Federal.
“Quem não tem nenhum tipo de pudor para pegar uma área como a da Serrinha e entregar para construir condomínio de luxo não tem compromisso com o povo desta cidade”. declarou, citando o caso da Serrinha do Paranoá, que foi um dos imóveis envolvidos no escândalo do Banco de Brasília (BRB).

A ouvidora agrária nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Gilda Diniz, esteve no local para ouvir as famílias e afirmou que as ocupações revelam os problemas estruturais do acesso à terra no país.
“Todas as ocupações são importantes porque demonstram o quanto ainda precisamos avançar no Brasil em relação ao acesso à terra, à regularização fundiária e à distinção entre terra pública e privada. Esse conflito revela uma realidade histórica que ainda permanece viva no país”, observou.
Para militantes veteranas como Francisca das Chagas, a Chiquinha do MST, a luta de 15 anos no movimento é movida pela esperança de ver novos assentamentos florescerem. Mesmo já sendo assentada, ela retornou à ocupação para apoiar novos companheiros.
“A importância dessa ocupação é fazer a reforma agrária popular acontecer no DF. Através do nosso trabalho e da resistência, vamos mostrar que queremos a terra para viver da produção com alimentação saudável para todo o povo”, destacou Chiquinha.

Próximos passos
Marco Aurélio Bezerra da Rocha, representante do Incra e integrante da Câmara Nacional de Conciliação Agrária, esteve presente no acampamento e afirmou que o órgão poderá atuar rapidamente assim que a área for oficialmente transferida pela SPU. Um dos próximos passos será a realização do pré-cadastro das famílias acampadas.
Enquanto as negociações avançam nos gabinetes, o Acampamento Chico Mendes segue se estruturando sob regras internas de convivência, com proibição de álcool e drogas e foco na organização coletiva. A expectativa é que, em menos de um ano, o processo judicial e administrativo possa avançar para a posse definitiva das famílias.
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