Antes de qualquer política pública, antes dos compromissos climáticos firmados pelo Brasil em fóruns internacionais, antes mesmo de se falar em Plano Nacional de Restauração, havia mulheres no Cerrado guardando sementes.
No Cerrado, elas conhecem o tempo da florada, o ponto da coleta, o momento exato da secagem, o cuidado no beneficiamento e o silêncio necessário da germinação. São elas que sustentam a base da cadeia produtiva da restauração ecológica. São elas que garantem que a diversidade saia do papel e crie raiz. E, ainda assim, essa presença histórica nem sempre se converte em poder de decisão.
O setor de restauração ecológica reproduz uma lógica já amplamente discutida, em que a função das mulheres se concentra na coleta de sementes, na produção de mudas, na manutenção de viveiros, atividades historicamente associadas ao cuidado.
Já o planejamento estratégico, a engenharia de campo e a definição de contratos permanecem majoritariamente masculinos. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), sistematizados em estudos recentes sobre o setor florestal brasileiro, indicam que a participação feminina em cargos de gestão nas atividades ligadas ao campo e à produção florestal gira entre 6% e 10%.
Relatório da Rede Mulher Florestal (2024) aponta que 88,2% das mulheres que alcançaram cargos de liderança no setor relataram ter enfrentado barreiras específicas de gênero. Mais de 70% afirmam já ter tido sua capacidade técnica questionada, e 61,8% relatam ter aberto mão de aspectos pessoais ou familiares para chegar ao comando.
No Brasil, o acesso à terra e ao financiamento agrícola permanece majoritariamente masculino, o que limita a participação feminina na chefia de grandes projetos de restauração e na definição do uso do solo.
Estudos ligados ao Pacto pela Restauração da Mata Atlântica mostram dinâmica semelhante na cadeia da Mata Atlântica, em que mulheres predominam nas etapas iniciais da restauração, mas tornam-se minoria nos conselhos diretores e instâncias de governança.
Além disso, os relatórios globais da IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) passaram a incluir capítulos específicos sobre Gênero e Biodiversidade, evidenciando que a governança ambiental ainda concentra poder em estruturas masculinizadas.
A mensagem é de que não há sustentabilidade real sem equidade de gênero. A restauração ecológica não pode ser medida apenas por hectares recompostos ou número de espécies plantadas. Projetos que ignoram a diversidade humana tendem a reproduzir desigualdades históricas.
Desafiando a regra
Na Rede de Sementes do Cerrado (RSC), a liderança feminina sempre foi fundamento. Mulheres estão na coleta, na coordenação, nos conselhos, na diretoria e na presidência. Estão no campo e também nas mesas onde se definem contratos, estratégias de mercado, posicionamentos institucionais e prioridades políticas.
A história da organização começa no início dos anos 2000, a partir de um projeto apoiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, quando já se identificava a ausência de sementes nativas disponíveis em escala para recuperar áreas degradadas no Cerrado. À frente dessa iniciativa estava a professora Linda Caldas, docente da Universidade de Brasília (UnB), que transformou uma necessidade técnica em um projeto estruturante para o bioma.
Visionária, Linda defendia que a restauração precisava ser feita com espécies nativas e que a cadeia de sementes deveria ser organizada com base científica, responsabilidade legal e inclusão social. Quando o projeto inicial chegou ao fim, tomou a decisão de transformar a iniciativa em organização da sociedade civil. Assim nasceu a Rede de Sementes do Cerrado como instrumento de transformação ambiental e social.
Desde então, a presidência da Rede sempre foi exercida por mulheres. Mais do que um dado simbólico, trata-se de uma construção política e institucional coerente com a prática da organização.
Da fundadora às gestões, consolidou-se uma cultura organizacional em que a liderança feminina é expressão de competência, compromisso e continuidade.
Mas, a Rede de Sementes do Cerrado não quer permanecer como exceção quando o tema é liderança feminina. Neste Dia Internacional da Mulher, celebramos nossa representatividade simbólica e destacamos a importância de transformar essa realidade em prática concreta. A restauração ecológica só será plena quando as mulheres forem reconhecidas não apenas como guardiãs das sementes, mas também como protagonistas nas decisões, na gestão e na condução dos processos que fortalecem essa agenda.
Se a base da cadeia é feminina, a liderança também precisa ser.
O futuro do Cerrado depende da diversidade biológica. Mas depende, igualmente, da diversidade de vozes que decidem seu destino.
*Thaís Souza é jornalista com trajetória em comunicação institucional e assessoria de imprensa. Atua em órgãos públicos e organizações socioambientais, com expertise em articulação política, gestão de narrativas e fortalecimento de agendas ligadas à sustentabilidade e às políticas públicas.
** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
:: Receba notícias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp ::


