No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas de vigência no Brasil, o espetáculo “Divórcio” estreia no Complexo Cultural Funarte SP, convidando o público a um mergulho reflexivo nas dinâmicas da violência de gênero.
A montagem, que fica em cartaz entre 3 e 26 de julho, articula documentos reais, pesquisas de campo e testemunhos para debater como o patriarcado molda as relações afetivas e atravessa diferentes gerações e classes sociais.
O ponto de partida da dramaturgia, criada por Raíssa Gregori e Alexandre Dal Farra, foi a descoberta de cartas reais de um processo de divórcio na classe média alta paulistana, na década de 1980. Para a diretora Raíssa Gregori, trazer esse recorte temporal é fundamental para entender a própria existência da mulher na sociedade brasileira.
“Até 1977, os casais não tinham o direito de se divorciar. Quando a gente fala em ‘casais’, a gente está falando da mulher, porque toda a estrutura do matrimônio, a própria palavra, mater, anuncia a diferença de condição para uma mulher quando ela se casa, não para um homem”, explica Raíssa Gregori em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato.
Para Gregori, que também dirige o espetáculo, a Lei do Divórcio foi o marco que permitiu à mulher “existir na sociedade para além da instituição do casamento”.
Do documento ao palco
A peça transita entre a ficção e o testemunho real. Além das cartas da década de 1980, a pesquisa envolveu mais de dois anos de entrevistas com psicanalistas, advogados, mulheres acolhidas em centros de referência e homens que participam de grupos reflexivos previstos pela Lei Maria da Penha.
A proposta do espetáculo é enfrentar o paradoxo brasileiro: embora o país tenha uma legislação de proteção à mulher bastante sofisticada, que se moderniza constantemente, como a recente derrubada da tese da “legítima defesa da honra”, a tradição cultural machista ainda resiste.
“O Brasil é um país que tem uma legislação quanto à violência contra a mulher já bastante evoluída. É a nossa tradição cultural que ainda não seguiu a nossa legislação”, pontua a diretora.
Papel dos homens
Em cena, dois personagens masculinos tentam compreender seus próprios comportamentos em uma sociedade machista. Segundo Raíssa, o feminismo precisa ser uma pauta assumida também pelos homens, pois não há possibilidade de “separação” em uma sociedade em que as violências ocorrem entre amores, parentes e amigos.
“A gente tem os agressores achando que não são culpados e as vítimas se sentindo culpadas. A conta não fecha. A mensagem da peça é que a gente precisa aprender a amar melhor”, reflete a atriz.
Ao incorporar vozes como as do livro “Melhor não contar” (2024), de Tatiana Salem Levy, e relatos da coletânea “Histórias de Marias”, o espetáculo busca desconstruir a ideia de que a violência de gênero é um fenômeno estritamente biológico ou privado. “O que nos une enquanto gênero é justamente estarmos passíveis de desigualdades e diferenças de gênero”, conclui Gregori.
Serviço:
Espetáculo: Divórcio
Temporada: 3 a 26 de julho de 2026
Horários: Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h (em dias de jogos da Seleção Brasileira, o espetáculo será transferido para a quinta-feira seguinte)
Local: Complexo Cultural Funarte SP (Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo)
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), disponíveis na plataforma Sympla
Duração: 90 minutos | Classificação: 12 anos
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
