CONTRADIÇÕES

O futebol analisado por um filósofo

Não podemos amar o futebol sem estar conscientes da sujeira e, de certa forma, ser cúmplices dela

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O que esse fenômeno, em que simultaneamente grandes massas estão “festejando” e participando de espetáculos de futebol e outras promovendo a morte de milhares de pessoas em guerras espalhadas pelo mundo, simboliza a respeito da humanidade?
O que esse fenômeno, em que simultaneamente grandes massas estão “festejando” e participando de espetáculos de futebol e outras promovendo a morte de milhares de pessoas em guerras espalhadas pelo mundo, simboliza a respeito da humanidade? | Crédito: Foto: Ndrej Isakovic/AFP

Em que Pensamos Quando Pensamos em Futebol é uma obra do filósofo britânico Simon Critchley que, com erudição e paixão, se debruça sobre o fenômeno global do futebol para bem além das quatro linhas. 

Publicado originalmente em 2017 como What We Think About When We Think About Football o livro é uma tentativa de responder a uma pergunta que parece simples, mas que o autor desdobra em vários estratos e níveis: o que realmente pensamos quando a nossa atenção se volta para o futebol?

A grande originalidade da obra reside na sua abordagem fenomenológica. Quer dizer, se trata de uma descrição atenta da experiência vivida no futebol. 

Critchley não se limita a analisar táticas ou estatísticas. Ele procura captar a essência do que significa ser um adepto, vivenciar um jogo e fazer parte dessa comunidade efêmera que se forma à volta de um estádio ou de uma tela de TV. 

Para o filósofo (com ensaios alentados sobre Hegel, Heidegger, Levinas, Jacques Lacan, Ernesto Laclau, etc.), o futebol é um fenômeno social de abrangência singular. Ele argumenta que o desporto proporciona um “acesso privilegiado a noções duradouras sobre o que significa ser humano no mundo”. Só um filósofo pode afirmar isso. 

Nesse sentido, o livro explora como o futebol está entrelaçado com memória, história, lugar, classe social, gênero, identidade familiar, tribal e nacional. É um espelho onde se refletem as nossas mais profundas construções sociais, individuais e subjetivas.

Um dos eixos centrais do livro é a contradição inerente ao futebol. 

Por um lado, Critchley defende que o jogo é “essencialmente colaborativo, mesmo socialista”, um espaço de coletividade e fruição partilhada. 

Por outro lado, reconhece que ele existe “embalado na mescla de ganância, corrupção, capitalismo e autocracia”. 

É o reconhecimento à complexidade de um esporte apreciado mundialmente. 

Futebol e seu lado sombrio 

O autor não foge à crítica, identificando as conexões perniciosas que atravessam o desporto, como a mercantilização, o nacionalismo exagerado, o patriarcado e a psicologia de massas.

É esta tensão que torna o livro tão rico. Critchley tenta, simultaneamente, estabelecer um sistema de estética – “mesmo uma poética” – para mostrar onde está a beleza do jogo, sem deixar de criticar os seus efeitos mais sombrios. 

Ele consegue captar a estupidez do futebol, expressa em superstições simplórias e no culto de objetos como as camisetas colecionáveis – mas também a sua racionalidade inerente, que o torna uma lente poderosa para interpretar o mundo.

Longe de ser um tratado abstrato, o livro é pontuado por figuras concretas que povoam o imaginário futebolístico. Critchley escreve sobre os seus heróis e vilões: Zidane e Cruyff, Clough e Revie, Shankly e Klopp, Ronaldinho e Mourinho. 

A sua paixão declarada pelo Liverpool torna a obra particularmente afetiva, especialmente na análise que faz de Jürgen Klopp – o grande jogador alemão que atuou no Liverpool e hoje dirige o complexo de investimento desportivo do grupo Red Bull, inclusive no investimento brasileiro Red Bull Bragantino. 

O estilo de Critchley é ao mesmo tempo erudito e acessível, mas não isento de desafios. A obra está repleta de referências a “Esperando Godot”, ao “Elogio da Loucura” de Erasmo e à “Utopia”, de Thomas More, o que pode tornar a leitura pesada em alguns momentos. Uma crítica recorrente é o seu viés “Liverpool-cêntrico” e uma postura por vezes rígida em relação aos que não apreciam o desporto originalmente bretão.

No entanto, para o adepto que se reconhece na descrição de Critchley – alguém irremediavelmente devotado a um jogo – o livro é um deleite. É uma obra que, nas palavras de um crítico, que funciona como uma “metafísica da partida de futebol”, validando a paixão de milhões com a profundidade que ela merece.

Em que Pensamos Quando Pensamos em Futebol é muito mais do que um livro sobre desporto. 

É um ensaio filosófico que usa o futebol como um ponto de partida para explorar a condição humana e o próprio sistemão capitalista. Isso não é pouca coisa. 

Simon Critchley consegue o feito notável de unir a análise social, a estética e a memória afetiva, mostrando que, por detrás da aparente simplicidade do jogo, se escondem questões profundas sobre quem somos, o que valorizamos e como nos relacionamos com os outros. 

Para qualquer pessoa que já tenha sentido o coração acelerar com um gol, este livro oferece uma reflexão inteligente e apaixonada sobre essa experiência universal.

Futebol e dinheiro  

O filósofo torcedor do Liverpool também aponta que o futebol contemporâneo está transfigurado pela lei do valor, da mercadoria, e do fetichismo – os conceitos marxistas essenciais. 

Para o filósofo, essa é a contradição fundamental e mais profunda do futebol moderno. Ele a descreve nos seguintes termos:

“A sua forma é associação, socialismo, a sociabilidade e a ação coletiva de jogadores e torcedores, e – no entanto – o seu substrato material é o dinheiro: dinheiro sujo, muitas vezes de fontes altamente questionáveis e com pouca supervisão.”

Critchley é particularmente cáustico ao descrever o grau de saturação comercial do futebol. Na sua visão, o esporte está não apenas inserido, mas completamente tomado por esse sistema, qual seja: “O futebol é completamente mercantilizado, saturado de patrocínios e do ‘branding’ mais vulgar e estúpido.”

“Branding” neste caso é o esforço comercial das grandes empresas em associar suas marcas a emoções/paixões das massas. No Brasil, isso se vê a todo o momento na TV e nas redes. 

Para Critchley, não se trata de uma relação periférica, mas de uma característica definidora do futebol atual, onde a lógica da mercadoria parece ter subjugado a essência do jogo.

O filósofo argumenta que o aspecto corrupto e capitalista do futebol é personificado pela Fifa, mencionando explicitamente figuras como Sepp Blatter (o ex-dirigente, anterior a Infantino). A crítica vai além, mostrando como a instituição tenta usar o próprio espetáculo para se absolver: “É assim que chegamos com Gianni Infantino à frente e no centro de cada jogo, na final, empurrando-se para a frente, associando-se a si mesmo e à corrupção da Fifa com a beleza do jogo. Entrando nas águas curativas do futebol e esperando que elas lavem as manchas da corrupção.” – registra o filósofo. 

Esta passagem é uma descrição precisa do “fetichismo da mercadoria” (em Marx): a imagem do dirigente e da instituição buscando se revestir da aura sagrada e bela do futebol para ocultar a sua verdadeira natureza financeira e negocial. 

Critchley descreve o futebol como sendo, na sua essência, associativo e coletivo – “socialista” na sua forma -, mas flutuando num poço de ganância, capitalismo e autocracia. Este é o que ele chama de “substrato material” do jogo: dinheiro e dinheiro – sempre de fontes questionáveis.

As epidêmicas casas de apostas (bets) são uma manifestação contemporânea e agressiva dessa contradição. A sua infiltração no futebol, através de patrocínios de camisetas e publicidade massiva, é um exemplo claro de como o jogo se tornou um veículo para a mercantilização, ajudando a criar uma geração de adeptos que, como alertam especialistas, “acreditam que é preciso apostar no futebol para desfrutá-lo”.

A cumplicidade da mídia como parte do espectáculo

Para Critchley todo o ecossistema do futebol moderno – do qual a mídia é parte integrante – é um “espetáculo monetizado e por vezes insuportável” do capitalismo tardio.

A mídia, ao promover incessantemente as “odd’s” (índices que determinam o potencial de retorno sobre a aposta), as apostas ao vivo e os mercados de apostas durante as transmissões, não está apenas relatando um fato, mas está normalizando e naturalizando a relação entre o jogo e o vício, tornando-a parte do entretenimento. 

O autor não isenta ninguém: a sua crítica abrange o dinheiro sujo, os patrocínios, a corrupção da Fifa e o papel dos agentes e dos clubes.

Critchley faz uma abordagem – como já disse – fenomenológica: ele descreve a experiência do futebol com honestidade, reconhecendo tanto o seu poder de encantamento como a sua cumplicidade com estruturas que nos repugnam.

Ele arremata em definitivo: não podemos amar o futebol sem estar conscientes dessa sujeira e, de certa forma, ser cúmplices dela.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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