Os corredores do Palácio da Revolução em Havana, capital de Cuba, estão vazios. Do lado de fora, o governo percorre municípios e bairros da ilha, mantendo contato direto com uma população que enfrenta diversas dificuldades no dia a dia.
O presidente Miguel Díaz-Canel recebe o Brasil de Fato logo após retornar de uma dessas caminhadas que fazem parte da rotina de sua gestão, nas quais ele conversa com moradores e ouve reivindicações, preocupações e propostas. Enquanto se acomoda para a entrevista, que faz parte de um documentário que o BdF está produzindo, ele conta que, além dessas agendas na capital, todos os meses visita alguma região remota do interior da ilha.
No momento da conversa, a Revolução atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. Desde o fim de janeiro deste ano, Washington intensificou suas medidas de agressão ao ameaçar qualquer país que venda ou forneça petróleo ou combustíveis à ilha e ao ampliar, de forma sem precedentes, o alcance extraterritorial do bloqueio. Essas medidas agravaram a guerra econômica que Cuba enfrenta há mais de 60 anos.
“Você percebe como o povo cubano reage. Não há apagão que apague a nossa vontade, nem escassez que destrua a nossa esperança”, afirma.
“E o povo, em nível comunitário, se organiza. Então, não há transporte, mas todos os dias os médicos, as enfermeiras e os demais profissionais da saúde chegam aos seus postos de trabalho e, mesmo sem luz, atendem seus pacientes. Os professores dão aulas mesmo sem luz, e os camponeses plantam e produzem alimentos mesmo sem combustível. Essa é a imagem dessa resistência heroica e criativa do povo cubano.”
Desprovido de qualquer respaldo legal, o estrangulamento energético imposto pelos Estados Unidos tem um impacto devastador sobre todos os aspectos da vida cotidiana do povo cubano e provoca danos incalculáveis à economia do país.
Impedida de importar petróleo e combustíveis, a ilha foi obrigada a operar com sua limitada produção nacional. Nesse contexto, o fornecimento de energia precisou ser racionalizado para garantir o funcionamento dos setores mais críticos, como saúde e produção de alimentos. Ao mesmo tempo, o país acelera a transição para fontes renováveis de energia, sobretudo a solar fotovoltaica, como estratégia para mitigar os efeitos das agressões promovidas pela Casa Branca.
Sobre a relação com os EUA, Díaz-Canel foi enfático ao afirmar que pretende manter aberta a porta para o diálogo, mas ressaltou que a soberania do país é um princípio que o governo cubano não está disposto a ceder nem a negociar.
“Dialogar, conversar é uma coisa; outra coisa é negociar. Nós sempre defendemos isso, esta é a história da revolução. Sempre, na revolução, defendeu-se a possibilidade de ter uma relação civilizada com os Estados Unidos e de que, pela via do diálogo, sejamos capazes de resolver nossas diferenças bilaterais, sabendo que vamos ter diferenças ideológicas”, afirmou o presidente, insistindo no que pretende levar adiante em eventuais conversas com Donald Trump.
“Mas sempre sob o preceito de que não é negociável, nem na mesa de conversações, o nosso sistema político, a nossa soberania e a nossa autodeterminação. E tem que ser em condições de igualdade. Você não pode conversar, dialogar ou negociar sob pressão. Nós não somos uma nação em disputa, nós não somos uma colônia, nem somos uma possessão para que alguém se aproprie de nós. Somos uma nação soberana, independente e livre, que tomou como decisão da maioria um processo de construção socialista em meio a essas condições tão adversas”, conta o mandatário de Cuba.
Acúmulo da revolução
Há 13 dias no país caribenho, a reportagem do Brasil de Fato registrou panelaços em duas noites de apagão. O cansaço das pessoas é evidente. A falta de energia, somada ao sufocamento econômico, afeta o cotidiano, obrigando a população a fazer verdadeiros esforços para conseguir dar conta das necessidades mais básicas.
Nas ruas, cubanos afirmam que a situação do país é resultado do bloqueio imposto pelo governo dos EUA. Essa reflexão, para Díaz-Canel, é resultado do acúmulo gerado pela revolução socialista no país.
“A imensa obra social da revolução abriu novos horizontes para as pessoas. Portanto, elas sabem o que se perde ao perder a revolução. E por isso existem essas convicções que se expressam dessa maneira popular, em que você encontra um camponês e ele diz: ‘Eu dou a vida pela revolução, eu vou fazer isso'”, comenta o presidente.
Por fim, Díaz-Canel conta que buscará a paz com os EUA e pediu que as ameaças militares cessem. “O que deveríamos buscar é um mundo melhor. Um mundo em que predomine o multilateralismo, em que se elimine a filosofia da espoliação, a filosofia da guerra, as ameaças, as sanções e os bloqueios unilaterais e coercitivos.”
