PERDEU O MOLHO

O problema estrutural por trás da eliminação da Seleção

Jogar virou só atletismo, disputa e dinheiro, não é mais arte, beleza, invenção, diversão e afronta

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Vini Jr.
Vini Jr. marcou o terceiro gol da vitória da seleção | Crédito: Foto por JEWEL SAMAD / AFP

Faz tempo que não acompanho futebol, nem sei o retrospecto destes jogadores que estão na Seleção. Me incomodam a frivolidade dos atletas, a dominância das bets, o tipo de cartolagem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a privatização dos clubes e a elitização dos estádios. Então, acabei me afastando, mas a cada Copa volto a me envolver, porque gosto de jogo, de assistir grandes jogadores em atividade e, por que não dizer, de ver o Brasil vencer.

Com a eliminação da Seleção, pululam críticas pontuais: falam do técnico, da convocação política, da escalação, das substituições equivocadas, da passividade em campo, das falhas individuais, enfim. Tudo isso faz sentido, mas pra mim a questão central é uma só, e tem razões estruturais, não apenas conjunturais como estas: falta qualidade, grandes jogadores, craques, gente capaz de vestir as cores do Brasil e impor medo ao adversário a cada jogo e a cada vez q toca na bola; gente que faz o outro time escalar dois pra marcar. Como fazem o Halland, o Messi, o Mbape, e como faziam Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Rivaldo e tantos outros que já tivemos.

Falta aquele jogador que quando tem um pênalti bota a bola embaixo do braço e vai para o centro da área. Noutros tempos ninguém ficava fazendo estatística de treino pra decidir, porque a coisa era evidente e se impunha em campo. Quando tinha uma falta na frente da área era Ronaldinho, Zico, se fosse de longe, Roberto Carlos, Branco, em outros tempos Eder. Escanteio de cabeça, Lucio, bola lançada por baixo na grande área, Ronaldo, Romário, Bebeto, e eles botavam pra dentro. Romário dava uma cavadinha e encobria o goleiro, Ronaldo driblava o goleiro e entrava com bola e tudo, Bebeto metia no canto, Rivaldo limpava e jogava na gaveta. Se hoje divergimos sobre quem deveria bater um pênalti, imagina quem bateria uma falta na frente da grande área? Por certo iriam alçar a bola na área pra tentar a sorte de cabeça.

Enfim, a Seleção de hoje é um time comum. Bem treinado, organizado taticamente, com jogadores dedicados mas comuns, sem nenhuma qualidade diferencial para que mereça ser chamado de campeão do mundo. Então, é justo sair nesta fase, é justo perder pra um time que tem um armador como o Ordegaard, ou um atacante excepcional como Halland: três bolas metidas pra ele, uma defesa e dois gols. Nenhum chute pra fora, nenhuma furada em bola, nenhuma negaciada; ele se adianta aos zagueiros, se impõe e arremata com precisão, sempre no gol, não importa como nem de onde venha a bola. Isso é craque. É lamentável, mas o Brasil não tem ninguém a léguas de distância dele.

Se tivéssemos qualidade individual, não perderíamos tantos gols, não desperdiçaríamos tantos cruzamentos, tantos pênaltis, tantas jogadas promissoras. Poderíamos ter ganho o jogo já no primeiro tempo, mas desperdiçamos por falta de qualidade. Nem falo do pênalti mal batido, destes que querem fazer pegadinha com o goleiro prá depois ficar sem espaço pra pegar impulso e força pra bater na bola; o Dunga meteria uma bomba no meio do gol, e se pegasse no goleiro entrava junto com a bola. Cristiano Ronaldo bate assim hoje em dia também, sem manha, sem esquema, sem firula, sem paradinha, só precisão, força e autoconfiança.

Veja aquele gol perdido pelo Endrick, Ronaldo ou Mbappé teriam driblado o goleiro, Messi e Romário provavelmente dariam uma cavadinha e jogado por cobertura, e com a passada que tem, Halland teria chegado antes do goleiro piscar. Nenhum deles chutaria em cima de um goleiro que já tinha fechado o ângulo. Pensa também naquele cruzamento visto pela narração como uma grande jogada do Martineli, em que ele vai até o primeiro pau, quase rente à trave, e cruza baixo praticamente em cima do goleiro tendo um brasileiro livre dentro do gol prá marcar. Um desperdício. Ronaldinho ou Messi teriam dado um gancho por cima e colocado na cabeça do atacante.

Não adianta, nossos jogadores são comuns; Vini, o melhor deles, é homem de um drible só, de uma perna só, e é meio fominha às vezes. Mesmo assim é o que ainda faz as melhores jogadas, como aquele lançamento magnífico para o Endrick perder. Mas no geral, não temos um talento capaz de desequilibrar um jogo, um atacante matador que meta medo nos adversários como um Ronaldo, Rivaldo ou Ronaldinho, meio campistas que tomem conta da faixa central, como já tivemos Kaká, Zico, Falcão, Dunga, Rivaldo, Sócrates e Rivelino. Hoje todos são jogadores comuns, até conseguem pressionar, tocar a bola, mas não tem repertório pra furar bloqueios bem montados e desperdiçam boa parte do que produzem por falta de qualidade individual, de atitude e de ousadia.

Mas, e porque isso é assim hoje em dia, porque nos faltam craques, habilidades diferenciadas, ousadia e inovação individual no futebol? Bem, como eu estou na vibe da simplificação, vou dar o meu diagnóstico de palpiteiro. Eu acho que o Brasil se europeizou demais, se encantou com os esquemas táticos europeus, com o rigor atlético dos jogadores, com o toque de bola, com a tecnologia esportiva, com a técnica, a planilha, o “jeito certo” de fazer as coisas que eles inventaram. Com isso deixamos a brasilidade de lado, a molecagem, o molho, a alegria de jogar, a ousadia do drible, o prazer de exibir a própria habilidade, a invenção de jogadas novas. Jogar virou só atletismo, disputa e dinheiro, não é mais arte, beleza, invenção, diversão e afronta.

Hoje as crianças não aprendem mais futebol no campinho do bairro, não jogam pra se divertir, para se alegrar, pra tirar onda do outro; desde cedo o futebol não é mais uma irreverência esportiva, lúdica e artística, é uma indústria. Os meninos vão já na primeira infância prás escolinhas de futebol, pros clubes; treinam, aprendem a técnica certa, treinam de novo, aprendem sobre tática, recebem orientações muitas vezes ríspidas, se enquadram em esquemas táticos, às vezes passam a semana treinando fundamentos sem brincar com a bola, sem uma partida descontraída, sem se divertir jogando. E assim vão se tecnificando, e na sequência se “normalizando”, se tornando iguais uns aos outros; vão reprimindo a inspiração, a irreverência, a ousadia, o drible, o sorriso, e com isso a diversão e a função lúdica do esporte, mesmo ainda na tenra infância.

Hoje os pequenos participam de competições como gente grande. Você assiste um campeonato de meninos de 12 anos e parece um jogo adulto, com jogada ensaiada, domínio técnico, esquema tático, equipes bem treinadas, jogadorzinhos que “sabem o que estão fazendo” em campo. Na sequência vem o assédio dos empresários, e logo a imerção precoce no mundo profissional do futebol, das exigências contratuais, das responsabilidades adultas de um jogador.

A europeização e a tecnicidade reprimiram nossa cultura, secaram nosso molho, pasteurizaram nossa arte, censuraram nossa ousadia, moralizaram nossa molecagem e normalizaram nosso jeito de jogar; enlataram nosso futebol pra ser vendido na prateleira do supermercado mundial da bola. E assim temos uma geração de jogadores iguais, bons mas medianos, ok para os clubes mas comuns demais pra serem campeões mundiais.

Muitos acham este tipo de visão romântica, utópica, pouco eficaz para os padrões atuais do futebol. Falam isso sem questionar a ineficácia que tem sido adotar este “espírito” e este modelo europeu, e que isso se tornou um problema estrutural. Agora até o técnico é europeu. A única maneira de voltarmos a ser relevantes e competitivos concorrendo com quem tem mais grana, mais tecnologia, mais disciplina e mais poder que nós é sermos nós mesmos, é basearmos nossa vantagem competitiva naquilo que eles não podem copiar, naquilo que é irreplicável porque é fruto da nossa particular condição cultural, social e histórica: nossa enorme capacidade de formar craques hábeis e ousados a partir dos campinhos de bairro, na pelada, no rachão, jogando com aquele “molho” e com aquele espírito que só o brasileiro tem.

Se quisermos continuar nos europeizando vamos continuar sendo derrotados, porque, em ser europeu eles não só chegaram antes como são melhores que nós nisso

*Renato Santos de Souza é professor da UFSM.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


Editado por: Vivian Virissimo

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