A Copa de 2026 já entrou para a História como a Copa da Vergonha. Não pelo futebol, mas pelo que aconteceu fora dele: uma competição marcada por discriminações políticas, pelo tratamento desigual entre seleções, pelo silêncio conveniente da FIFA e pela naturalização de critérios que jamais seriam aceitos se atingissem outros países que não os EUA. O futebol voltou a servir de palco para a política — e as instituições preferiram olhar para o outro lado.
Se esta é a Copa da Vergonha, Brasil 1 x 2 Noruega foi o Jogo do Medo.
Talvez a síntese da partida tenha acontecido logo aos quatorze minutos.
Matheus Cunha recebeu a bola, ganhou de Kristoffer Ajer naquilo que o futebol brasileiro sempre fez de melhor: talento. O zagueiro norueguês, mais alto, mais forte e incapaz de acompanhar o atacante na habilidade, só encontrou uma saída: a falta. O árbitro precisou do VAR para enxergar o óbvio, mas o pênalti foi marcado.
Parecia um sinal de que o Brasil havia escolhido o caminho certo.
Então veio a cobrança.
Bruno Guimarães caminhou para a bola, denunciou o canto e facilitou a defesa do goleiro Ørjan Nyland.
Em poucos segundos, a partida contou sua própria história.
Primeiro, o talento venceu a força.
Depois, o medo venceu o talento.
Era para ser o confronto entre duas maneiras de entender o futebol. De um lado, a técnica, a criatividade, o drible, a capacidade de conversar com a bola. Do outro, uma equipe forte, disciplinada, rápida, alta e fisicamente dominante, comandada por um gigante chamado Haaland. Ele fez os dois gols da Noruega e decidiu a partida. Mas nem ele nem seus companheiros transformavam aquele time numa seleção tecnicamente superior ao Brasil.
Pelo contrário.
Sempre que pressionados, os noruegueses erravam passes, perdiam bolas relativamente simples e revelavam dificuldades para jogar em espaços curtos. Era ali que estava o caminho da vitória brasileira.
Não vou discutir tática. Carlo Ancelotti entende disso milhões de vezes mais do que eu. Mas estratégia é outra coisa. Estratégia diz respeito à identidade de um time, à forma como decide enfrentar o adversário.
E o Brasil resolveu enfrentar a Noruega jogando o futebol que interessava à Noruega.
Existe uma velha lenda do futebol brasileiro segundo a qual, na Copa do Mundo de 1958, justamente a primeira conquistada pelo Brasil, Garrincha chamava todos os jogadores da União Soviética simplesmente de “Joões”. Não fazia diferença quem era o lateral, o zagueiro ou o ponta. Eram todos “Joões”. O importante não era saber seus nomes, mas descobrir por onde passaria o drible.
Não deixa de ser simbólico que essa história tenha nascido justamente na Copa em que o Brasil encontrou o futebol que o transformaria em pentacampeão do mundo. Naquele momento, o adversário não era um gigante a ser temido. Era apenas mais um “Ivan” que precisava ser driblado.
Contra a Noruega, durante alguns minutos, Vini Jr. fez exatamente isso. Transformou o lateral norueguês em mais um “João”. Ganhou no um contra um, desmontou a marcação e mostrou que havia uma diferença técnica evidente entre quem sabe tratar a bola com intimidade e quem depende, sobretudo, da força física.
Era esse o jogo que o Brasil precisava impor.
Mas desistiu dele.
Aos poucos, recuou. Entregou a posse de bola, o território e a iniciativa justamente para quem mais se beneficiava disso. E, quando o relógio passou a correr contra a Seleção, veio o gesto mais revelador da noite: começaram os cruzamentos para uma área ocupada por jogadores de quase dois metros de altura.
Foi como tentar vencer Haaland jogando o jogo de Haaland.
Os noruegueses nunca deveriam ter deixado de ser “Joões”. Não por arrogância, mas porque o futebol brasileiro construiu sua história olhando para qualquer marcador como alguém que podia ser driblado. Nunca como um gigante a ser temido.
Foi assim que conquistamos cinco Copas do Mundo.
Nenhuma outra seleção conseguiu fazer o mesmo.
Durante décadas, a Europa estudou o Brasil porque nós jogávamos um futebol que eles não sabiam jogar.
Curiosamente, houve um tempo em que o país também acreditava poder construir um caminho próprio fora dos gramados. Era o Brasil da Era Vargas, que apostou na industrialização, nas empresas nacionais, na infraestrutura, na ciência e na ideia de que desenvolvimento não se importava: construía-se.
Depois fomos perdendo essa confiança. Fosse pelo “entreguismo” de alguns dirigentes, fosse pela pressão dos “mercados”, passamos a seguir, cada vez mais, cartilhas escritas pelos países que já haviam alcançado o desenvolvimento — curiosamente, cartilhas bem diferentes das que eles próprios seguiram quando ainda estavam construindo suas economias.
Talvez não exista relação entre uma coisa e outra.
Ou talvez exista.
Porque o futebol brasileiro nunca foi grande quando tentou copiar a Europa. Assim como o Brasil nunca sonhou grande quando acreditou que seu destino era apenas repetir o caminho prescrito pelos outros.
Nossa força sempre nasceu da confiança em fazer diferente.
Há estatísticas que impressionam. Faz muitos anos que a Seleção Brasileira não vence uma grande seleção europeia em partidas decisivas. A Noruega, por sua vez, continua sendo a única seleção que o Brasil jamais conseguiu derrotar.
São números incômodos.
Não justificam medo.
O futebol brasileiro nunca foi grande porque copiou a Europa. Tornou-se grande porque obrigou a Europa a estudá-lo.
Perder faz parte do futebol.
O que dói é perder renunciando justamente àquilo que sempre nos fez diferentes.
Foi acreditando naquilo que sabia fazer melhor que o Brasil inventou um estilo de jogar admirado no mundo inteiro.
Foi assim que conquistou cinco Copas do Mundo.
Todas nasceram da coragem de ser Brasil.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

