Parceria estratégica

China e Rússia ampliam cooperação militar e Pequim testa míssil nuclear no Pacífico

Movimentos ocorrem em meio à escalada de tensões e alianças militares lideradas pelos EUA no Indo-Pacífico

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Navios de guerra, destróieres, fragatas, submarinos e aeronaves navais chinesas e russas participam do exercício conjunto Joint Sea-2026, realizado na província de Shandong, no leste da China.
Navios de guerra, destróieres, fragatas, submarinos e aeronaves navais chinesas e russas participam do exercício conjunto Joint Sea-2026, realizado na província de Shandong, no leste da China. | Crédito: CCTV

A China e a Rússia realizam desde segunda-feira (6) o exercício naval conjunto “Joint Sea-2026”, nas proximidades da cidade de Qingdao, sede de uma das principais bases da Marinha do Exército de Libertação Popular, na província chinesa de Shandong. As manobras seguem até a próxima segunda-feira (13) e serão sucedidas por patrulhas conjuntas no Pacífico Ocidental, reforçando a aproximação militar entre Pequim e Moscou.

O exercício ocorre em um contexto de aumento da presença militar dos Estados Unidos e de seus aliados no Indo-Pacífico, região que concentra parte da disputa estratégica entre as grandes potências. Embora China e Rússia afirmem que as atividades fazem parte do calendário anual de treinamentos entre suas Forças Armadas, elas acontecem em meio ao acirramento da competição militar na região.

Nesta semana, Pequim também anunciou o sucesso no lançamento, a partir de um submarino em direção ao oceano Pacífico, de um míssil balístico capaz de transportar ogivas nucleares. Segundo o governo chinês, o teste utilizou uma ogiva simulada para avaliar a confiabilidade do sistema de armas e o nível de prontidão das forças estratégicas.

Desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, Pequim e Moscou ampliaram a coordenação diplomática e militar, intensificando exercícios no mar e no ar, além de patrulhas estratégicas em diferentes áreas da Ásia-Pacífico.

Para China e Rússia, essas atividades têm caráter defensivo e não são dirigidas contra terceiros. O fortalecimento dessa parceria, porém, ocorre em um momento de reorganização das alianças militares na região. Nos últimos anos, os Estados Unidos fortaleceram a cooperação com Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália e impulsionaram iniciativas como a aliança AUKUS, voltada ao compartilhamento de tecnologias militares avançadas, incluindo submarinos de propulsão nuclear.

Pequim considera esse movimento parte de uma estratégia de contenção liderada por Washington. O governo chinês acusa os Estados Unidos de militarizar o Indo-Pacífico e de incentivar tensões em temas considerados centrais para sua segurança nacional, como Taiwan e o Mar do Sul da China. Moscou compartilha avaliação semelhante e defende uma ordem internacional multipolar, posição reiterada em sucessivas declarações conjuntas entre os dois governos.

Joint Sea-2026 amplia cooperação naval e militar entre China e Rússia

Realizado desde 2012, o Joint Sea tornou-se o principal exercício naval conjunto entre China e Rússia e um dos símbolos mais visíveis da aproximação militar entre os dois países. Ao longo da última década, as manobras passaram pelo Mar Amarelo, Mar do Japão, Mar do Sul da China, Mar Mediterrâneo, Mar Báltico e Mar da Arábia, acompanhando a ampliação da parceria entre Pequim e Moscou.

Na edição de 2026, de acordo com o Ministério da Defesa da China, o treinamento está dividido em três fases: concentração das forças, planejamento conjunto em porto e operações no mar. Após a abertura oficial, militares chineses e russos instalaram um centro de comando conjunto para coordenar as atividades.

A Rússia participa com um grupo naval liderado pelo cruzador lança-mísseis Varyag, capitânia da Frota do Pacífico, além da fragata Rezkiy, do submarino Ufa e do navio de resgate Igor Belousov. A China mobilizou o destróier Tipo 055 Anshan, um dos mais modernos de sua frota, o destróier Tipo 052D Kaifeng, a fragata Tipo 054A Wuhu, além de submarinos, navios de apoio, helicópteros embarcados e unidades de fuzileiros navais.

Os exercícios incluem reconhecimento marítimo, defesa aérea e antimísseis, guerra antissubmarino, operações de busca e salvamento, treinamentos com armamentos, comunicações e coordenação tática. As atividades também buscam ampliar a interoperabilidade entre as duas marinhas, permitindo operações coordenadas e maior integração entre seus sistemas de comando.

Concluído o treinamento, embarcações chinesas e russas seguirão para patrulhas conjuntas no Pacífico Ocidental. Diferentemente dos exercícios, essas missões consistem em operações de navegação em águas internacionais e se tornaram mais frequentes nos últimos anos. Segundo Pequim e Moscou, o objetivo é ampliar a coordenação operacional entre as duas marinhas e contribuir para a segurança das rotas marítimas da região

Teste de míssil balístico com capacidade nuclear reforça estratégia de dissuasão da China

O lançamento na segunda-feira envolveu um míssil balístico lançado por submarino, conhecido pela sigla em inglês SLBM (Submarine-Launched Ballistic Missile), uma das principais plataformas da estratégia de dissuasão nuclear de uma potência militar. Diferentemente dos sistemas instalados em bases terrestres, os submarinos estratégicos podem permanecer ocultos durante longos períodos, aumentando a capacidade de sobrevivência de um país em um eventual cenário de conflito nuclear.

A China não divulgou oficialmente o modelo do míssil utilizado nem o submarino responsável pelo lançamento. Especialistas, porém, acompanham o desenvolvimento dos sistemas JL-2 e JL-3, mísseis balísticos projetados para serem lançados por submarinos nucleares estratégicos chineses. O JL-3 é considerado uma evolução tecnológica em relação ao modelo anterior, com maior alcance e capacidade de transportar múltiplas ogivas, embora detalhes técnicos permaneçam sob sigilo.

O teste ocorre em meio ao processo de modernização das forças estratégicas chinesas. Durante décadas, Pequim manteve um arsenal nuclear significativamente menor que o dos Estados Unidos e da Rússia, mas nos últimos anos passou a investir na ampliação e diversificação de suas capacidades, incluindo novos submarinos lançadores de mísseis balísticos, sistemas terrestres de longo alcance e estruturas de armazenamento e lançamento.

Os submarinos nucleares estratégicos representam um elemento central dessa transformação. A China opera a classe Jin (Tipo 094), responsável por transportar mísseis balísticos lançados por submarinos, e trabalha no desenvolvimento de futuras plataformas mais silenciosas e avançadas. A base naval de Yulin, na ilha de Hainan, é considerada uma das principais instalações chinesas para operações desse tipo de embarcação, devido à sua localização estratégica próxima ao Mar do Sul da China.

O objetivo declarado por Pequim é manter uma capacidade de dissuasão e garantir que suas forças estratégicas possam sobreviver a um eventual primeiro ataque. A China afirma seguir uma política de não realizar o primeiro uso de armas nucleares, mas defende que precisa modernizar sua capacidade militar diante das mudanças no ambiente internacional.

O lançamento ocorreu no mesmo período do Joint Sea-2026, exercício naval que reúne forças chinesas e russas no litoral da China. Embora Pequim não apresente oficialmente as duas atividades como operações relacionadas, ambas evidenciam a crescente importância do domínio marítimo na estratégia de segurança chinesa e acontecem em um momento de aumento da competição militar no Indo-Pacífico.

O teste também gerou questionamentos de governos estrangeiros sobre transparência e comunicação prévia. Enquanto a China classificou o lançamento como uma atividade de treinamento regular, países da região acompanham com atenção a expansão das capacidades estratégicas chinesas e seus possíveis impactos no equilíbrio militar da Ásia-Pacífico.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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