ERVA NATURAL

Cannabis terapêutica e saúde do trabalhador: seminário debate acesso ao tratamento e combate ao preconceito

CUT-RS e Acuracan reúnem trabalhadores e especialistas em Porto Alegre para discutir uso medicinal da planta

No audio source provided.
Seminário teve como tema 'Saúde do Trabalhador: o Direito ao Uso da Cannabis Terapêutica'
Seminário teve como tema ‘Saúde do Trabalhador: o Direito ao Uso da Cannabis Terapêutica’ | Crédito: Matheus Piccini

A relação entre saúde do trabalhador, envelhecimento com qualidade de vida e acesso a tratamentos com derivados da cannabis pautou o seminário “Saúde do Trabalhador: o Direito ao Uso da Cannabis Terapêutica”, promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS) e pela Associação de Cannabis Medicinal (Acuracan). Realizado nesta sexta-feira (10), no Auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), o encontro reuniu dirigentes sindicais, profissionais da saúde e representantes de entidades ligadas ao debate.

Na abertura do seminário, a secretária-geral da CUT/RS, Silvana Piroli, afirmou que o debate sobre a cannabis terapêutica está diretamente relacionado à saúde da classe trabalhadora e à busca por alternativas aos tratamentos convencionais. Segundo ela, os interesses econômicos da indústria farmacêutica influenciam as formas de cuidado oferecidas à população, o que torna necessário ampliar o debate sobre outras possibilidades terapêuticas.

A dirigente chamou atenção para o envelhecimento dos trabalhadores e a necessidade de garantir qualidade de vida nessa etapa. “Precisamos discutir o envelhecimento com qualidade. O objetivo deste seminário é trazer informações, discutir o tema, falar sobre a cannabis medicinal, entender como ela funciona, por que é importante e conhecer as experiências das pessoas que fazem uso desse tratamento”, afirmou.

Piroli ressaltou ainda que a CUT apoia iniciativas voltadas à promoção da saúde dos trabalhadores. “Todas as alternativas que buscam esse caminho têm o nosso apoio, principalmente quando tratam da saúde dos trabalhadores, que sustentam este país e são os mais explorados. Precisamos lutar para melhorar as condições de vida e de trabalho.”

“Nossa planta nos ajuda e nos dá qualidade de vida”

Mediadora do debate, integrante da associação de paciente Acuracan e do Conselho Estadual de Saúde, Rosa Beltrame compartilhou sua experiência pessoal com o uso da cannabis terapêutica e defendeu que o tema seja tratado sem preconceitos. “Nós somos os primeiros que trouxemos à tona, não só para os trabalhadores, mas para o Rio Grande do Sul, que não temos que ter vergonha”, afirmou.

Aos 74 anos, Beltrame relatou que convive há mais de uma década com enfisema pulmonar grave e contou que, em 2021, iniciou o tratamento com cannabis após conhecer Patrícia da Rosa, presidente da Acuracan. “Eu estava em cima de uma cama e tive o prazer de conhecer a querida Patrícia, que me ofertou fazer um tratamento com a cannabis.”

Beltrame contou que antes do tratamento precisava utilizar oxigênio continuamente. Após iniciar o acompanhamento, recuperou autonomia e qualidade de vida. “Para quem estava com oxigênio direto e hoje anda por tudo que é lugar, vocês me veem continuamente por aí na luta. Isso é a melhor prova de que nossa planta nos ajuda, nos dá qualidade de vida e nos dá condições de seguirmos construindo caminhos melhores para uma sociedade mais justa e igualitária.”

‘Nós somos os primeiros que trouxemos à tona, não só para os trabalhadores, mas para o Rio Grande do Sul, que não temos que ter vergonha’, afirmou Rosa Beltrame  | Crédito: Matheus Piccini

‘O corpo produz e a planta suplementa’

Presidente da Acuracan, Patrícia da Rosa apresentou aspectos históricos e científicos da cannabis medicinal. Ela afirmou que uma das principais dificuldades ainda é romper o desconhecimento e o preconceito em torno da planta. “Muita gente que está aqui, acredito, não tem conhecimento sobre essa planta, sobre como ela funciona e por que ela funciona. Cresceu a vida inteira entendendo que maconha é droga, que maconha faz mal. De repente, alguém diz que maconha é remédio. Como assim? É isso que eu vou tentar elucidar para vocês aqui hoje”, expôs.

Rosa contextualizou o uso medicinal da cannabis, destacando que ele não é recente e que há registros de sua utilização há milhares de anos. Ela também explicou que cannabis e maconha são a mesma planta, mas fez uma distinção entre a cannabis prensada e a destinada ao uso terapêutico.

De acordo com ela, a principal diferença está na forma de cultivo, processamento e controle de qualidade. Enquanto a cannabis utilizada na produção de medicamentos passa por cultivo controlado, seleção genética e análises laboratoriais, a cannabis prensada não segue esses processos. A presidente da Acuracan observou, porém, que famílias sem acesso ao tratamento já recorreram à cannabis prensada para produzir extratos medicinais e afirmou que essa realidade não pode ser ignorada.

Ao longo da apresentação, Rosa explicou o funcionamento do sistema endocanabinoide, presente no organismo humano e responsável por regular funções como sono, apetite, humor, memória, temperatura corporal, dor e inflamação. “O corpo produz e a planta suplementa”, resumiu.

Ela explicou que o organismo produz endocanabinoides e que os fitocanabinoides presentes na cannabis atuam nesses mesmos receptores, auxiliando na manutenção do equilíbrio do corpo. Também destacou que o primeiro contato do ser humano com essas substâncias ocorre por meio do leite materno, fundamental para o desenvolvimento desse sistema nos primeiros meses de vida.

A dirigente defendeu ainda o uso de extratos integrais da planta, conhecidos como full spectrum. Segundo ela, esses produtos preservam diferentes canabinoides, terpenos e flavonoides, permitindo que as substâncias atuem em conjunto, potencializando seus efeitos terapêuticos.

Saúde do trabalhador

Ao abordar a relação entre cannabis medicinal e saúde do trabalhador, a presidente da Acuracan afirmou que jornadas extensas, estresse, sobrecarga física e emocional e a falta de descanso contribuem para o adoecimento da população trabalhadora. “Quando a saúde adoece, o trabalho pesa mais no corpo e na mente.”

Ela lembrou que, em 2024, mais de 440 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais. Defendeu que a cannabis terapêutica pode integrar estratégias de cuidado para sintomas como ansiedade, estresse, insônia e dor crônica, sempre dentro de um acompanhamento médico.

Rosa ressaltou que cada organismo responde de forma diferente ao tratamento porque cada pessoa possui um sistema endocanabinoide próprio. Por isso, segundo ela, não existe uma dosagem única ou um protocolo que sirva para todos os pacientes, sendo necessária avaliação individualizada.

A presidente ainda pontuou que a cannabis terapêutica vem sendo utilizada no acompanhamento de diversas condições, como dor crônica, ansiedade, insônia, fibromialgia, epilepsia, autismo, Parkinson, esclerose múltipla, Alzheimer, endometriose, enxaqueca, transtornos do humor, entre outras.

A presidente da Acuracan também ressaltou o papel das associações de pacientes, que, segundo ela, ajudam a ampliar o acesso ao tratamento, oferecem acompanhamento humanizado e trabalham com controle de qualidade dos produtos. Ao encerrar sua exposição, defendeu o fortalecimento das associações e das políticas públicas voltadas à cannabis medicinal como forma de ampliar o acesso da população ao tratamento e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

‘Quando a saúde adoece, o trabalho pesa mais no corpo e na mente’, pontuou Patrícia da Rosa | Crédito: Matheus Piccini

Cannabis, trabalho e adoecimento

O médico Juarez Verba, que atua na Atenção Primária à Saúde e possui trajetória na área de saúde do trabalhador, defendeu a cannabis medicinal como uma alternativa terapêutica para enfrentar parte dos agravos relacionados às condições de vida e trabalho da população.

Ao iniciar sua fala, Verba contextualizou o uso de substâncias psicoativas ao longo da história da humanidade. Segundo ele, substâncias capazes de alterar estados de consciência são utilizadas por diferentes povos há milhares de anos, muitas vezes em contextos ritualísticos e religiosos.

Ele destacou que a sociedade convive atualmente com diversas substâncias legalizadas que também provocam alterações no estado físico e mental, como café, erva-mate, álcool, tabaco e medicamentos controlados. “A gente usa muitas substâncias que têm essa mesma finalidade de alterar de alguma forma algum nível de consciência. Muitas delas são de uso legal, de uso corrente, utilizadas no cotidiano das pessoas.”

Ao fazer uma provocação sobre a aceitação social dessas substâncias, o médico questionou por que algumas são naturalizadas enquanto outras permanecem cercadas por preconceitos. Ele citou o álcool como exemplo e lembrou que, apesar de ser uma droga legalizada, seus efeitos prejudiciais à saúde são amplamente conhecidos.

‘Os agravos prevalentes na saúde dos trabalhadores são justamente aqueles agravos de saúde que são muito fáceis de tratar com a cannabis medicinal’, destacou Juarez Verba | Crédito: Matheus Piccini

Verba também relacionou a criminalização da cannabis a processos históricos marcados pelo preconceito racial. Segundo ele, a planta passou a ser associada às populações negras escravizadas no Brasil, o que contribuiu para sua demonização ao longo do tempo.

Em tom descontraído, ao observar a presença de muitos trabalhadores mais velhos no seminário, afirmou: “Eu já vou antecipadamente dizer que cannabis é muito bom para velho”. Segundo o médico, com o envelhecimento o organismo passa por mudanças na produção de endocanabinoides. “O corpo produz, mas chega um momento em que ele já não consegue mais produzir na quantidade necessária. Isso causa vários desequilíbrios orgânicos. Aí vem a questão de que a planta suplementa“, explicou.

Ao relacionar a cannabis à saúde do trabalhador, Verba afirmou que os principais agravos enfrentados pela classe trabalhadora estão diretamente ligados às condições sociais do trabalho.

Ele citou como fatores de adoecimento o trabalho exaustivo, a escala 6×1, o assédio moral, o transporte público inadequado, ambientes de trabalho sem condições adequadas de descanso, salários insuficientes, falta de creches, moradias precárias, falta de tempo para convivência familiar, lazer e desenvolvimento pessoal.

Segundo o médico, essas condições contribuem para problemas como ansiedade, estresse, episódios depressivos, enxaquecas, dores no corpo, insônia e abuso de drogas. “Os agravos prevalentes na saúde dos trabalhadores são justamente aqueles agravos de saúde que são muito fáceis de tratar com a cannabis medicinal”, pontuou.

Para Juarez, entre os motivos que tornam a cannabis uma alternativa terapêutica estão o menor risco de dependência química em comparação a outras substâncias, a baixa ocorrência de efeitos colaterais, o risco praticamente inexistente de overdose no uso terapêutico e os resultados respaldados por evidências científicas. “A gente não está falando de mágica”, afirmou. “Estamos falando de resultados confirmados por evidências científicas.”

O médico também criticou as dificuldades de acesso ao tratamento e defendeu que a cannabis medicinal seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Para ele, a falta de conhecimento dos profissionais de saúde, o preconceito e interesses econômicos ajudam a explicar por que o acesso ainda é limitado. “A luta pela incorporação da cannabis no SUS e pela descriminalização das drogas deve ser incorporada à luta de todos os trabalhadores do Brasil por melhores condições de trabalho e melhores condições de vida”, afirmou

CUT-RS defende levar debate para sindicatos

O secretário de Saúde do Trabalhador da CUT-RS, Gerson Cardoso, afirmou que o movimento sindical precisa ampliar o debate sobre saúde dos trabalhadores e incorporar temas como a cannabis medicinal às discussões das categorias. Segundo ele, muitas negociações sindicais ainda se concentram em reajustes salariais, enquanto questões relacionadas à saúde precisam ganhar mais espaço.

“Eu pergunto, não para ser respondido, mas para ser pensado: quantas cláusulas de saúde sobre a questão saúde têm nos nossos acordos coletivos ou convenções?”, questionou.

Cardoso afirmou que o adoecimento dos trabalhadores não se limita ao ambiente de trabalho, envolvendo também transporte, moradia, descanso e tempo para convivência familiar. Ele defendeu que o debate seja levado para dentro dos sindicatos e das categorias.

Ao final, destacou a necessidade de ampliar o acesso ao tratamento e defendeu que a cannabis medicinal esteja disponível no sistema público de saúde. “A saúde não é uma mercadoria e esse remédio tem que ir para o SUS”, concluiu.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter