Corrupção

Instituto Rio Metrópole não adotou Plano de Desenvolvimento Urbano que motivou sua criação

Órgão responsável por articular planejamento urbano da metrópole foi demanda histórica de movimentos e pesquisadores

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Instituto foi criado em 2018 para dar seguimento ao Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
Instituto foi criado em 2018 para dar seguimento ao Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro | Crédito: Rio Metrópole/Divulgação

A atuação do Instituto Rio Metrópole, autarquia estadual criada em 2018 para colocar em prática o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Pedui-RMRJ) causa perplexidade em pesquisadores e movimentos sociais muito antes do escândalo da “mulher da mala”, protagonizado por Caroline Barros, fiscal de contratos do Instituto. Em janeiro ela foi identificada realizando um saque de R$ 500 mil em espécie, em Teresópolis, região serrana fluminense, e sair com cobertura de carro blindado. A ocorrência levou a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) que resultou na denúncia de um esquema de desvio de recursos que movimentou R$ 86,28 milhões e a prisão preventiva de Barros e outros cinco agentes públicos nesta quinta-feira (9).

Ao Brasil de Fato, o cientista político e pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles, Filipe Corrêa, explicou que o IRM foi criado após a conclusão da elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Pedui-RMRJ). Um Plano que não está mais disponível na página do Instituto na aba destinada a ele. Tanto o planejamento como um órgão destinado a dialogar institucionalmente sobre as questões da região metropolitana são uma demanda de pesquisadores e movimentos urbanos desde 1975, quando a Região Metropolitana do Rio de Janeiro foi instituída formalmente.

“Para quem defende o desenvolvimento institucional da agenda da governança metropolitana de acordo com os princípios e diretrizes estabelecidos no Estatuto da Metrópole, o IRM possui um papel importantíssimo como uma autarquia que consiga executar os planos e projetos definidos pelos Conselhos Deliberativo e Consultivo que compõem o arranjo de governança”, detalhou Corrêa.

A elaboração do Pedui-RMRJ foi conduzida pela Câmara Metropolitana de Integração Governamental, criada em 2014. A finalização do plano ocorreu em 2018 e no mesmo ano a Câmara foi substituída pelo Instituto Rio Metrópole para conduzir a implantação do Plano, conforme Lei Complementar Nº 184 de 27 de dezembro de 2018.

Mudança de rota

Em seu planejamento inicial, o Pedui apresentou seis Programas de Ações Prioritárias (PAPs), compostos por 131 iniciativas integradas para os 22 municípios da região até o ano de 2040. As ações previam o combate às desigualdades socioespaciais e intra-metropolitanas, a produção de moradia digna e controle do crescimento urbano, a expansão da rede de saneamento básico, promoção da mobilidade integrada e da resiliência climática.

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Já o atual programa não contém as propostas feitas em 2018, mas somente as realizadas pelo Conselho Deliberativo em 2023 e se dedicam à segurança pública e conectividade de prédios públicos. A preocupação está em reduzir o furtos de cabos, monitoramento de passageiros e cargas, para reforçar a segurança metropolitana e extensão da infovia digital, que busca expandir a conectividade dos prédios públicos estaduais fora da RMRJ impulsionando a inclusão digital.

“Mesmo que essas ações sejam consideradas como desafios históricos para a gestão das funções públicas de interesse comum no âmbito da RMRJ, o IRM parece ter ignorado a sua urgência para colocar adiante projetos que agora temos indícios de que atendiam interesses alheios à agenda metropolitana na RMRJ”, avalia.

Poucas decisões saíram do papel de acordo com monitoramento das ações do IRM realizado por Corrêa, também professor no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ). A mais relevante delas foi a aprovação da concessão regionalizada da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) em 2020, uma vez que o IRM era o único órgão deliberativo metropolitano. Essa regionalização foi um passo importante para a posterior privatização de parte da Companhia em 2021. “A aprovação da concessão foi imposta a toque de caixa pelo governo do Estado, então encabeçado pelo ex-governador Wilson Witzel, como uma solução para a sua crise fiscal”, disse.

Esquema

Nesta quinta-feira (9), a 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa do Rio de Janeiro determinou a prisão preventiva de seis agentes públicos responsáveis por comandar o desvio de recursos públicos que totalizam R$ 86,28 milhões. A decisão atende a um pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) que apresentou a denúncia. O esquema era operado a partir da contratação de duas empresas pelo IRM. Após os pagamentos realizados pelo Instituto, os valores eram transferidos para a Brazilian Institute of Organics (Instituto BIO), uma entidade sem estrutura operacional compatível, de onde o dinheiro era sacado em espécie.

Além de Caroline Barros, a “mulher da mala”, também foram presos preventivamente o ex-presidente da Câmara de São João de Meriti e atual presidente do Instituto Rio Metrópole (IRM), responsável por autorizar contratações, firmar contratos e controlar pagamento e o diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM. Há também o procurador do Estado então à frente da Procuradoria-Geral do IRM, Marcelo Lopes da Silva, acusado de emitir os pareceres que deram cobertura jurídica às contratações e Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos do IRM e integrante da Comissão Técnica de Licitação, apontado como articulador do direcionamento das licitações em favor das contratadas. 

A reportagem entrou em contato com o IRM para pedir um posicionamento e aguarda retorno para atualizar a matéria.

Editado por: Vivian Virissimo

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