Não faz muito tempo que um interlocutor me relatou que um matador, segurança de um político famoso da Baixada Fluminense, lhe disse que: “Lula e Bolsonaro é o caralho! O negócio é dinheiro no bolso!”. Como eu moro e faço pesquisa sobre violência na Baixada Fluminense, deparei-me, deparo e depararei com essas figuras atreladas ao Estado e à política que, também, regulam mercados lícitos e ilícitos no território, carregando consigo uma pistola na cintura para facilitar a persuasão. Normalmente, são policiais ou ex-policiais, militares ou civis, que podem cobrar taxas dos moradores, mas não é regra. Muitos atuam na construção de suas próprias rendas dentro do jogo democrático, ou seja, na face legal do Estado.
O matador em questão era ex-policial, transformou uma “gatonet” em empresa com CNPJ, SAC e frota de carros. Nas horas vagas, quando não era empresário local ou evangélico, era segurança de empresas e matador de aluguel. Não se envolvia com política, mas decidiu participar como financiador e via com bons olhos candidaturas da esquerda à direita que tivessem “compromisso com a cidade”. Foi assassinado na porta de uma das empresas onde fazia segurança. Essa é apenas uma história de um monte, às pencas, que tiveram carreiras mais ou menos exitosas na política e que permeiam a governabilidade do campo à direita e à esquerda no Rio de Janeiro.
Matam e morrem pelo dinheiro, mas também por projetos políticos.
Em 2023, o sociólogo Gabriel Feltran escreveu para a Folha de SP algo que ele denominou “contra-revolução dos jagunços”. Para ele, o bolsonarismo expressa uma agregação na base social de uma força violenta que se rompe da corda política da nova República. Essa base foi se solidificando a partir da internacionalização dos fluxos de mercados ilícitos, em especial armas e drogas. Os operadores da morte do grande capital, os que colocavam a mão na lama do trabalho sujo ou os que construíram o “mundo do crime” dos mercados ilícitos — os jagunços — estão dotados, agora, de poder de incidência política e produção de projetos próprios.
O paralelo com jagunços é oriundo da figura que permeou as estruturas políticas da primeira república com o seu papel ingrato de executor prático das ordens dos coronéis. Victor Nunes Leal denominou de coronelismo o sistema que se constituía de lideranças locais que recebiam, do Estado, autonomia para organizar o sistema eleitoral e representativo em um “toma lá dá cá” típico brasileiro com os governadores e presidentes. Os jagunços estavam, sempre, submetidos a essa liderança. Eram capatazes, parte de um exército pessoal.
Como sempre no país, os fantasmas das figuras autoritárias são reencarnados e jamais extirpados. A herança dos capatazes e coronéis está nos domínios armados dos contraventores, grupos de extermínio, milícias, tráfico, etc., que constroem, por dentro do Estado, suas carreiras políticas. No entanto, sempre às sombras dos grandes processos.
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A divisão do trabalho clássico entre os detentores dos meios de produção e os que apenas detêm força de trabalho para sobreviver se reproduz na lógica política: os capatazes são hierarquicamente inferiores aos mandantes. Por mais que os jagunços possuíssem profundo respeito (ou medo) social, a mesa de jantar em que eles se sentavam não estava nos salões nobres. Estes eram reservados para as elites e seus herdeiros.
Pacto da extrema direita
Recentemente, houve um deslocamento daqueles que viviam às margens do processo democrático para o centro do mesmo. Não estamos falando mais de um vereador de uma cidade pequena que é matador, mas eles têm se alçado a governadores, senadores e até presidente. O que sugere o filósofo Paulo Arantes no texto que inspirou Feltran é que a política tem cada vez mais se resumido à violência e, também digo, “Paulo está certo”.
Este texto é um arranhão na nebulosa teia dos grupos armados para compreender o projeto político mais ambicioso do momento, o de Flávio Bolsonaro (PL), que, nas palavras que se seguirão — fruto da minha experiência como pesquisador —, aparenta ser o de unificar os jagunços para a construção de um novo pacto de dominação territorial.
Além dos jagunços, frações do mercado e os Estados Unidos (EUA) entram como pilares fundamentais para este pacto da extrema direita com os matadores. O Partido dos Trabalhadores (PT) disputou a adesão política desses pistoleiros durante diferentes anos a partir de cargos e dinheiro, mas o teto para o avanço deste campo de “matadores” para dentro dos governos estava em possuir em sua base militantes dos direitos humanos. A família Bolsonaro não possui esse teto. Os matadores, embora persigam o dinheiro — e foi isso que permitiu ao PT controlá-los —, veem em Flávio Bolsonaro a projeção de algo maior, mais ambicioso e mais nocivo: um pacto federativo daqueles e para aqueles que dominam os territórios de maneira armada.
Alerto, portanto, que por mais amor que eu tenha pela análise sociológica sobre a violência, eu tenho mais pela minha vida. Logo, muitos dos nomes a seguir serão omitidos ou trocados, assim como as cidades e alguns fatos mexidos em suas cronologias para não identificar nenhum dos poderosos atores dessa trama. A minha pesquisa é na Baixada Fluminense, território periférico da região metropolitana do Rio de Janeiro, reconhecido como um dos lugares mais proeminentes para o surgimento e domínio de milícias, matadores e outros grupos armados. É uma longuíssima história, possível de ser verificada nos trabalhos do sociólogo José Cláudio Souza Alves, em que matadores viram políticos (e vice-versa) desde, pelo menos, os anos 1940.
Assim como sinalizo que este texto é um esforço de acompanhar, a partir de uma sequência de acontecimentos, o movimento do real que transparece e não tenho nenhuma pretensão de projetar ilações. Por isso mesmo, acredito na importância e na dificuldade desta análise, visto que, ao mesmo tempo que preciso esconder nomes e dados, preciso expor esses tipos de jogos políticos que só são captados à luz do dia quando transbordam das câmaras secretas e/ou quando querem dissuadir suas reais intenções.
Jaguncismo como regra, violência como exceção permanente
Era uma tarde monótona qualquer. Sentado no sofá, enquanto passava pelo feed do Instagram, houve um momento em que uma publicação me chamou a atenção: um prefeito de uma cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro palestrava no MBA de Segurança Pública de uma das fundações privadas de ensino mais tradicionais do Brasil. O prefeito em questão foi um dos grandes operadores do governo Cláudio Castro, influindo diretamente na escolha do chefe da Polícia Civil, que é quem controla a segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.
A trajetória desse prefeito é a de miliciano de baixo clero. Matador e cobrador de aluguel de van. Começou a carreira política como vereador, se transformou em pouco tempo em um dos deputados federais mais votados do estado e, depois, prefeito. Durante seus mandatos, que possuíam como mote o “combate ao crime”, produziu dezenas de chacinas, desaparecimentos forçados e assassinatos. Na esfera pública, se vangloriava dos seus resultados. No município, as câmeras de celulares dos moradores literalmente flagraram uma pilha de corpos carregada por carroceiros locais para desova.
Ao lado, no MBA, lideranças do Partido Liberal — inclusive algumas cassadas por envolvimento com Banco Master, milícias e Comando Vermelho — sorriam para uma foto de uma fundação que preza por “reputação, credibilidade e cientificidade”. A foto apontou para algo novo que nunca avistei: o apoio expresso, publicizado, de uma empresa que é o cérebro público do capital para um político jagunço.
Se, durante décadas na Baixada Fluminense, tais políticos não eram incorporados nas fotos dos jantares da burguesia, a fundação fez uma sinalização clara de que conta com estes jogadores neste novo jogo.
Recentemente, o mesmo prefeito e mais uma série de milicianos, lideranças de “facções de tráfico”, matadores etc. comemoraram e gravaram vídeos públicos em celebração à vitória de Flávio Bolsonaro, junto a Donald Trump, de transformar em terroristas os grupos armados que eles próprios compõem. O que poderia ser uma piada sintetizada no jargão de construção do novo campo político de “milicianos anti-milicianos” é, na verdade, a maior sinalização de que há apoio internacional para o novo pacto. E neste país com vocação para ser colônia, isso significa — e muito!
Flávio Bolsonaro é um deles. Diferente, mas igual. Come dos mesmos farelos, emprega seus parentes e circula nos mesmos circuitos. É, neste momento, o representante máximo de um projeto político que sinaliza a necessidade de imposição da violência armada nos territórios que não perpassa por controles internos de nenhuma instância. É uma radicalização para a destruição interna de um conjunto de instituições que nunca funcionaram: Direitos Humanos, Justiça, Democracia, etc.
Se os jagunços, em 2018, poderiam ter um capitão e presidente para chamar de seu, que estava aberto ao diálogo e não só se omitiu de se responsabilizar pela atuação de sua base, como provocaria o domínio armado; em 2026 o projeto político é o de dominação do Estado por dentro, canibalizá-lo, produzir a exceção como regra vindoura, a criação de um cinturão armado em que as disputas dos grupos armados locais pautem o funcionamento das instituições em nível nacional e, principalmente, de controle territorial local.
Apoiam, portanto, a classificação dos grupos armados enquanto organização terrorista porque o titereiro é um deles e o imperialismo, no jogo de ganha-ganha, fica aliviado de ter um canal aberto para a espoliação sem resistência.
Os matadores estão se transformando em empresários locais, financiam o desenvolvimento do bairro, empregam moradores, abrem linhas de créditos em banco, pelo consumo hoje estão com acesso em locais antes restritos a eles. A burguesia ganha a entrada destes novos “self made man” no campo político que rasga a Lei Áurea para a espoliação desumana da classe trabalhadora, mas requer um compromisso: o ideológico. A República está girando a órbita. Não são mais as grandes famílias tradicionais que pautam a agenda pública em uma tensão de correlação de forças com o polo sindicalista.
Política do extermínio
O novo horizonte é o de fricção entre os serviços prestados pelos jagunços aliados a uma nova razão neoliberal — que terceirizarão a violência e aniquilarão cada vez mais das instituições — e a força política que roga para si a conquista democrática que representou muito pouco para a classe trabalhadora na ótica dos ganhos reais.
Por exemplo, Flávio Bolsonaro constrói, praticamente todas as semanas, agendas com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. A PMERJ é a maior fábrica de reguladores dos mercados lícitos e ilícitos do Estado. De Adriano da Nóbrega aos Cavalos Corredores, a instituição projeta socialmente qualquer um de suas fileiras. Os policiais militares são reconhecidamente base política da família Bolsonaro no estado e fora dele.
São, em sua maioria, jovens que são cooptados, por diversos motivos, a estarem na corporação e vislumbram infinitas maneiras de subir no “degrau social”.
Um interlocutor, policial militar, me disse que uma das suas primeiras operações na rua envolvia, após uma incursão em uma favela que baleou mais de dez jovens negros, jogar os corpos na caçamba de um carro e asfixiar um por um para que não tivessem a menor chance de chegar vivos ao hospital. Depois, este mesmo interlocutor iniciou a carreira na segurança privada, assassinato por aluguel e em pouco tempo vivia em um duplex com piscina e carro importado na garagem de uma casa em Nova Iguaçu. Possuía prestígio no bairro onde cresceu e fazia visitas recorrentes. Lembro que, em 2018, após a morte da Marielle Franco, ele me mostrou um meme que era uma caveira com cabelo da vereadora e uma frase que debochava do seu assassinato. Ele ria. Eu lamentei.
O bolsonarismo criou sentido político, rebaixou o debate à violência, colocou sistematicamente o campo dos conflitos ao campo do extermínio. Se a execução de uma vereadora, no século passado, poderia ser motivo de demérito para a instituição, principalmente pós-Bolsonaro, tais feitos são apresentados como disputa de mundos materiais e espirituais. A razão foi capturada, criou-se um mundo dentro do nosso. E é este o grande desafio de Flávio Bolsonaro, ou seja, produzir um projeto político que seja duradouro em meio a cacofonia e que se sobreponha ao sexto sentido desses operadores da morte de trocarem laços de solidariedade por dinheiro quando percebem o menor sinal de barco afundando.
Neste projeto, a violência armada não terá mais contenção, se for alinhada e aliada ao novo pacto. Flávio Bolsonaro possui, pelo sobrenome, herança de votos. É um chegado dos jagunços. Contém massivo apoio de frações expressivas da burguesia e relação madura — ou seja, de completa subalternidade ao imperialismo republicano.
Em 2026, os jagunços querem virar seus senhores, mas sem copiá-los; ou, como representado na obra clássica de George Orwell, na fazenda, os porcos almejam andar de pé como os humanos.
*Augusto Perillo é sociólogo, pesquisador de desaparecimentos forçados e autor do livro “Onde os corpos desaparecem: um estudo sobre valas clandestinas na Baixada Fluminense”.
**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

