Futebol

Ativistas e parlamentares se mobilizam contra patrocínio de plataforma adulta no Corinthians

Críticos acionam o Ministério Público e articulam lei para barrar publicidade de conteúdo erótico no futebol

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Corinthians fecha patrocínio com plataforma adulta Fatal Fans
Corinthians fecha patrocínio com plataforma adulta Fatal Fans | Crédito: Divulgação/Corinthians

O anúncio do Corinthians sobre ter uma plataforma de conteúdos adultos como patrocinador gerou fortes reações de ativistas e políticos nas redes sociais, inclusive com uma representação no Ministério Público e a proposta de um Projeto de Lei contra esse tipo de publicidade erótica no esporte.

O clube paulista, que tem em seu passado uma ligação com causas populares e democráticas, encontra-se no centro de uma intensa polêmica nacional. O pivô do debate é a assinatura de um contrato de patrocínio com a Fatal Fans, plataforma de venda de conteúdo adulto por assinatura pertencente à Atlas Technologies, a mesma dona do site de anúncios de acompanhantes Fatal Model.

A diretoria alvinegra justifica o contrato como um fôlego financeiro essencial diante de uma dívida asfixiante de quase R$ 3 bilhões, mas a exposição de uma marca de entretenimento adulto no uniforme gerou uma onda de repercussão negativa imediata.

Em uma série de vídeos contundentes publicados nas redes sociais, ativistas de direitos humanos, educadoras e parlamentares paulistas uniram forças para denunciar o que classificam como uma grave violação aos direitos de crianças e adolescentes, culminando em representações ao Ministério Público e na formulação de Projetos de Lei restritivos.

Pelo contrato, a Fatal Fans terá sua marca exposta no calção da equipe masculina de futebol, na barra inferior da camisa de futsal e na parte traseira do uniforme do basquete. Para evitar o desgaste de ver atletas mulheres associadas diretamente a uma plataforma de conteúdo sexualizado, a marca não estampará a camisa da equipe feminina.

Ativistas denunciam adultização

A reação da sociedade civil organizada ganhou tração digital a partir de um vídeo publicado nas redes sociais por Lari Agostini, fundadora da ONG Digna Brasil, que atua na defesa da saúde das mulheres. Corintiana declarada, Lari expressou o desapontamento com a decisão do clube e sublinhou o papel formador do esporte.

“O Corinthians não é só um clube de futebol. Ele é uma das maiores instituições populares do Brasil”, afirmou a ativista. “A gente não está discutindo decisão privada de um clube, a gente está discutindo a regulamentação de publicidades inadequadas em um espaço que também pertence à infância.”

Lari evocou o conceito de “externalidade” na formulação de políticas públicas para justificar por que o Estado deve intervir em contratos do tipo. “Quando uma publicidade produz consequências coletivas, ela deixa de ser apenas um assunto de mercado. A gente chama isso nas políticas públicas de externalidade, quando uma decisão privada gera custos para toda a sociedade”, argumentou, comparando o caso às restrições impostas às indústrias de tabaco, álcool e às recentes crises decorrentes do endividamento por casas de aposta.

Apoiando a denúncia, a educadora e ativista contra a violência sexual e online, Sheylli Caleffi, publicou análises detalhadas nas redes contestando a neutralidade do patrocínio. “Se você acha que as bets já causaram prejuízo demais para a sociedade brasileira, você não faz ideia do que vai ser isso aqui, porque não é possível que eu seja a única que não acha normal que uma criança tenha uma marca de pornografia estampada no seu time de futebol”, desabafou Sheylli.

Para ela, a exibição da marca nos calções e camisas legitima o consumo precoce de produtos de teor sexualizado. “O esporte é um dos maiores espaços de formação cultural, principalmente para criança e para adolescente. Cara, isso aqui não é só um logo. Se fosse só um logo, as marcas não gastariam milhões para estar ali. Isso aqui é a compra de uma chance de fazer parte da cultura. Isso aqui é pertencimento, isso aqui é legitimidade”, pontuou a educadora, que acrescentou: “É a primeira vez que eu sinto vergonha de ser corintiana”.

Ação no Ministério Público

Um dos pontos mais polêmicos levantados por Sheylli Caleffi e Lari Agostini em seus vídeos é a tentativa da Atlas Technologies de utilizar a recém-criada Fatal Fans como um verniz corporativo para contornar impedimentos legais aplicados à sua marca principal, a Fatal Model.

Sheylli recorda que, em 2024, a Fatal Model tentou estampar placas publicitárias nas laterais de campos de futebol, mas recuou após ser denunciada por violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“Esta não é uma empresa de conteúdo pornográfico, é uma empresa de prostituição”, afirma Sheylli. “Agora eles inventaram essa outra empresa para tentar disfarçar o negócio principal”, dispara. Em suas redes, a educadora exibiu que uma busca rápida sobre a marca no TikTok entrega, em menos de um minuto, vídeos de criadoras de conteúdo dando dicas de segurança voltadas especificamente para o trabalho de acompanhantes e prostituição.

Sheylli alerta para o avanço do chamado “soft porn” (conteúdos eróticos que circulam em ambientes não originalmente pornográficos, como jogos e redes sociais) e o impacto direto nas dinâmicas de desenvolvimento infantojuvenil.

“Isso tem mudado a forma como os meninos enxergam até consentimento, porque essas plataformas, diferente das atrizes pornô, elas exploram uma lógica de vínculo, de proximidade. Vocês não fazem ideia do que vai ser isso aqui, sendo a primeira educação sexual das crianças e adolescentes”, diz a educadora.

Diante do que classificam como “adultização de crianças”, as ativistas acionaram a via jurídica. Com a assessoria da advogada Farah Diniz, especialista em direito da infância, Lari e Sheylli protocolaram uma representação oficial no Ministério Público exigindo que o Estado tome providências contra o patrocínio.

“O óbvio precisa ser dito e precisa ser exigido”, diz Sheylli, reiterando que a ação não visa criminalizar mulheres que exercem a prostituição. “Isso aqui não tem nada a ver com as mulheres que estão em situação de exploração sexual por necessidade ou eventual escolha. Elas também querem proteger a infância”.

Reação legislativa: o projeto

A mobilização das redes sociais converteu-se em ação legislativa concreta pelas mãos da deputada estadual Marina Helou (PSB) e da vereadora de São Paulo Marina Bragante (PSB). Em vídeos conjuntos publicados em seus perfis, as parlamentares criticaram a postura ética do Corinthians e destacaram a desconexão do patrocínio com a própria história do clube.

“Você deve ter visto o vídeo da Lari Agostini denunciando o absurdo que é um time de futebol, infelizmente o meu Corinthians, estampar na sua camiseta a propaganda de uma plataforma de pornografia”, declarou Marina Helou. “Agora chegou a vez do nosso Corinthians, um clube que carrega uma história de lutas. O Corinthians, o time da democracia corintiana, que enfrentou a ditadura levando as Diretas para o meio do campo. O clube das brabas, o clube de futebol feminino mais vitorioso do país.”

“Parece mesmo que resolveu abrir espaço para estampar uma plataforma de pornografia com uma exposição gigantesca, abrindo espaço para que crianças e adolescentes tenham contato com essa plataforma todos os dias”, seguiu Marina Helou.

Marina Bragante apontou que a luta contra a mercantilização agressiva e prejudicial no futebol é contínua. Ela relembrou que, no ano passado, o mandato já havia protocolado um projeto na Câmara Municipal para proibir a publicidade de casas de apostas em São Paulo, motivado pelos severos impactos econômicos e sociais causados à população.

Como resposta direta ao contrato com a Fatal Fans, as duas parlamentares uniram forças nas esferas estadual e municipal para protocolar o Projeto de Lei Anti-publicidade de Pornografia. A proposta legislativa visa proibir expressamente a divulgação de pornografia e de plataformas de uso adulto em quaisquer espaços destinados a práticas esportivas e culturais na cidade e no estado de São Paulo.

“Essa é a importância de termos mulheres na política. A gente se importa, escuta uma a outra e caminhamos juntas defendendo as nossas crianças, as nossas famílias e o nosso futebol”, finalizou a deputada, reforçando que o esporte popular não pode ser submetido à lógica financeira irrestrita em detrimento da integridade social e psíquica da infância.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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