No sul da China, na província de Yunnan, uma aldeia habitada pela etnia Hani se tornou um exemplo de como políticas públicas, organização comunitária e inovação digital podem ser articuladas para fortalecer o desenvolvimento rural.
Em Kunyimi, no condado de Jinping, iniciativas envolvendo o governo local, cooperativas camponesas e a plataforma digital RedNote combinam valorização cultural, economia criativa e fortalecimento da produção agrícola como parte da estratégia chinesa de revitalização rural.
A reportagem em vídeo foi produzida para o Bem Viver, programa do Brasil de Fato, e acompanha como a comunidade busca transformar seus recursos naturais e culturais em novas oportunidades de renda para a população local.
Localizado no extremo sul de Yunnan, próximo à fronteira com o Vietnã, o condado de Jinping é uma região marcada pela diversidade étnica, pela riqueza ambiental e pela presença de comunidades que preservam tradições agrícolas e culturais próprias. A população Hani, uma das etnias presentes no território, mantém práticas ligadas ao cultivo de arroz, ao artesanato e ao uso de recursos naturais, elementos que passaram a ser incorporados às novas estratégias de desenvolvimento rural.
Durante décadas, Jinping foi uma região marcada pelos desafios do desenvolvimento em áreas montanhosas e de difícil acesso. Após a erradicação da pobreza extrema no país, declarada pelo governo chinês em 2021, a China passou a concentrar esforços na chamada revitalização rural, política voltada para modernizar a agricultura, fortalecer as economias locais, preservar tradições culturais e melhorar as condições de vida no campo.
Segundo dados oficiais chineses, cerca de 100 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema na última década. A nova etapa da política de desenvolvimento rural busca consolidar esses avanços por meio da geração de empregos, da ampliação da renda dos agricultores e da criação de novas cadeias econômicas no interior do país.
Na aldeia de Kunyimi, a produção agrícola continua sendo a base da economia local. Arroz vermelho, milho, cogumelos e outros produtos tradicionais fazem parte do cotidiano das famílias Hani, que também preservam técnicas artesanais, como o uso de pigmentos naturais extraídos do banlangen – erva medicinal chinesa – para tingimento de tecidos.

Para Pumei, integrante do comitê da aldeia e moradora da comunidade, a preservação das tradições locais também está ligada ao desenvolvimento econômico da população.
“A nossa região produz arroz, arroz vermelho, milho e outros cultivos. O banlangen é uma característica importante da nossa comunidade. A cor azul utilizada nas roupas vem desse processo tradicional de tingimento, que foi passado pelas gerações mais antigas e continua fazendo parte da nossa identidade”, explica.”
Segundo ela, transformar esses conhecimentos tradicionais em atividades produtivas tem criado novas oportunidades para os moradores. “Com o apoio recebido, construímos uma fábrica na nossa região. Isso permitiu que mais moradores participassem dos projetos e que muitas famílias aumentassem sua renda.”
As cooperativas tiveram um papel importante porque ajudaram a conectar os agricultores às novas oportunidades”, afirma.
Pumei também destaca o impacto dos projetos ligados ao processamento de banlangen e cogumelos. “Na nossa aldeia temos uma fábrica de banlangen e cogumelos, um projeto de cooperação com Xangai. Essa indústria ajudou muitos moradores, especialmente famílias que haviam saído da pobreza”, relata.

Arte e economia criativa no campo
Uma das características do projeto desenvolvido em Kunyimi é a integração entre arte e atividades econômicas. A plataforma RedNote, uma rede social chinesa com mais de 350 milhões de usuários, mobilizou artistas, designers e criadores para desenvolver espaços que valorizam a paisagem local sem romper com as características tradicionais da aldeia.
O artista Zhou Biqiang explica que uma das instalações criadas no local foi pensada para atender também às necessidades dos próprios agricultores. “Chamamos de Mesa da Natureza porque tudo foi feito com materiais orgânicos: bambu, algodão e pigmentos naturais. Criamos esse espaço porque muitos agricultores trabalham aqui e precisam de um lugar para descansar, beber água e recuperar as energias”, explica.
Segundo ele, a proposta foi criar uma estrutura integrada ao ambiente. “A cobertura tem o formato de uma borboleta. Quando venta, parece que ela vai voar. Também mostramos alimentos locais, como cogumelos e frutas, para que as pessoas possam conhecer e aproveitar os produtos naturais daqui.”
“Quando fazemos esse tipo de projeto, precisamos respeitar o ambiente original. Não queremos mudar a aparência da região, mas criar algo que faça parte dela e que possa ser utilizado pelas pessoas que vivem aqui”, completa.

RedNote e valorização dos produtos locais
A atuação da RedNote em Jinping não se limitou à criação de espaços turísticos. A plataforma chinesa, conhecida pelo compartilhamento de conteúdos, comércio digital e conexão entre consumidores e produtores, passou a atuar em projetos de desenvolvimento comunitário utilizando ferramentas de comunicação, design e divulgação.
Em parceria com comunidades de designers, foi criada a marca pública “Jinping Gifts”, que reúne produtos como arroz vermelho Hani, chá de árvores antigas, café e cogumelos produzidos na região.
O trabalho de design buscou contar as histórias por trás de cada produto, utilizando imagens dos agricultores Hani, dos terraços agrícolas e das tradições culturais locais. A proposta é aproximar consumidores urbanos da realidade das comunidades produtoras.
A iniciativa busca ir além da simples comercialização de produtos. Ao conectar design, comunicação digital e produção agrícola, o projeto procura transformar características culturais e territoriais em valor econômico para as comunidades locais.
Segundo Jiang Tian, representante do Departamento de Bem-Estar Público da RedNote, a iniciativa busca transformar a qualidade dos produtos locais em novas oportunidades econômicas.
“Desde que a RedNote começou a trabalhar em Yunnan, desenvolvemos projetos com artesãos locais e produtos artesanais. Por meio das nossas capacidades de design, ajudamos a criar novos produtos e alcançar novos mercados”, explica.
Ela afirma que os resultados já podem ser percebidos. “Após dois anos de trabalho, contribuímos para que os artesãos da região aumentassem sua renda. Em alguns casos, esse aumento chegou a cerca de 30%.”
Segundo Jiang Tian, o objetivo é criar uma conexão direta entre os produtores locais e novos consumidores. “Muitos produtores trabalham muito, mas suas histórias não são conhecidas. Por meio do design e da comunicação, queremos ajudar mais pessoas a conhecer quem está por trás desses produtos e valorizar esse trabalho”, argumenta.
O modelo também criou um mecanismo de retorno social: 1% da receita obtida com as vendas da marca “Jinping Gifts” é destinado a projetos de restauração ambiental, desenvolvimento do turismo cultural e aumento da renda dos moradores.

Desenvolvimento rural como política de Estado
A experiência de Kunyimi faz parte de uma mudança mais ampla nas políticas de desenvolvimento rural da China. Depois da erradicação da pobreza extrema, o foco passou a ser a consolidação das conquistas alcançadas, com iniciativas voltadas para geração de renda, modernização da agricultura, valorização cultural e melhoria das condições de vida nas áreas rurais.
Para Liu Xuan, vice-magistrado do condado de Jinping e representante enviado pelo Ministério das Relações Exteriores da China, a experiência de Kunyimi representa uma nova fase das políticas de apoio ao desenvolvimento rural.
Segundo ele, os investimentos iniciais estavam concentrados em áreas como educação, indústria e infraestrutura. Agora, o desafio é criar mecanismos para que a própria população possa gerar renda a partir dos recursos locais. “No início do período de assistência, nosso foco principal era educação, indústria e infraestrutura. Mas agora, com base em tudo isso, também precisamos ajudar as pessoas a obter benefícios por elas mesmas”, afirma.
Liu destaca que a escolha de Kunyimi também levou em consideração a preservação da paisagem local e a possibilidade de criar novas atividades econômicas sem romper com as características da comunidade. “Encontramos um lugar que mantém sua experiência original, especialmente os campos em terraços. Em pouco tempo conseguimos criar este espaço sem causar danos à paisagem”, afirma.
Para Liu, o projeto mostra uma nova etapa da revitalização rural. “Este é um bom exemplo e um modelo. As pessoas aqui podem desenvolver bons negócios com base no que estamos construindo.”

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