Durante décadas, as mulheres foram oficialmente afastadas dos campos de futebol no Brasil. Na várzea, porém, elas continuaram jogando e participando da organização de equipes e campeonatos, mesmo distantes dos clubes, das competições oficiais, da imprensa e dos registros históricos.
“As mulheres nunca deixaram de jogar”, afirma, em entrevista à Rádio Brasil de Fato, a historiadora Aira Bonfim, pesquisadora de futebol amador, futebol de mulheres e preservação de acervos esportivos.
Segundo ela, a permanência feminina nos circuitos varzianos ajuda a compreender uma parte da história do futebol brasileiro que não aparece nos documentos produzidos pelas instituições esportivas.
Nos campos dos bairros e das periferias, mulheres atuaram como jogadoras, torcedoras, organizadoras, árbitras e responsáveis por diferentes funções dentro das agremiações.
Enquanto os holofotes estão voltados para a final da Copa do Mundo masculina, no mesmo dia em que se celebra o Dia Nacional do Futebol, Aira propõe ampliar esse olhar. Para ela, a presença das mulheres na várzea ajuda a contar uma história do futebol que vai além dos grandes clubes, dos campeonatos profissionais e das trajetórias masculinas.
“Quando a gente observa as muitas várzeas existentes nas diferentes cidades do Brasil, encontra mulheres como torcedoras, organizadoras, árbitras e exercendo diferentes funções dentro dessas agremiações esportivas”, afirma a historiadora.
Fora do registro
Equipes femininas começaram a ganhar visibilidade pública no Brasil ainda nas décadas de 1920 e 1930. Mulheres passaram a formar times, disputar partidas e ocupar estádios em diferentes regiões do país.
Esse movimento foi interrompido em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas. O Decreto-Lei nº 3.199 determinou que as mulheres não poderiam praticar modalidades consideradas incompatíveis com sua “natureza”. O futebol foi enquadrado nessa restrição.
A medida afastou as mulheres dos calendários, das competições e das estruturas dos clubes, inclusive das organizações amadoras.
“Esse esporte nunca foi feito para mulheres ou por mulheres. Muito pelo contrário. Quando alguns públicos periféricos passam a se organizar como time, a se apresentar publicamente e a ocupar estádios, você tem uma interrupção a partir de um decreto-lei”, explica a historiadora.
A exclusão oficial, no entanto, não significou o desaparecimento das mulheres. Nos circuitos amadores e varzianos, elas permaneceram envolvidas com o futebol, ainda que de maneira dispersa e pouco documentada.
Aira Bonfim integrou a equipe responsável pela implantação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, no Museu do Futebol, onde trabalhou como pesquisadora entre 2012 e 2018. Segundo ela, fotografias, entrevistas e documentos pessoais estão entre as fontes que permitem reconstruir essa presença.
“Oficialmente, esses registros nunca vão considerar esse trabalho e essa presença. Mas, quando a gente observa as muitas várzeas existentes nas diferentes cidades do Brasil, encontra mulheres em várias funções dentro dessas agremiações esportivas”, afirma.
A proibição começou a ser desmontada no fim da década de 1970, mas a regulamentação do futebol praticado por mulheres ocorreu apenas em 1983.
Durante esse período, segundo a pesquisadora, muitas brasileiras nem sequer sabiam que existia uma restrição legal. A falta dessa informação ajudou a naturalizar a desigualdade de gênero, como se ela estivesse ligada a uma suposta incapacidade física ou biológica das mulheres.

Cultura popular
Aira destaca que o futebol de várzea não deve ser entendido como uma modalidade, a exemplo do futsal ou do futebol de areia.
“É uma experiência coletiva de associativismo, com identificações muito particulares de acordo com a região, o bairro e o grupo que participa desses encontros esportivos”, define.
A várzea está ligada ao lazer, aos jogos de fim de semana, aos encontros noturnos e ao tempo disponível depois das jornadas de trabalho.
Sua organização surge, muitas vezes, da iniciativa da própria população diante da ausência do Estado e da falta de equipamentos esportivos. O próprio nome remete aos terrenos de menor valor econômico, frequentemente localizados em regiões próximas a rios e áreas alagáveis, que passaram a ser ocupados pelas comunidades para a prática do futebol.
“A população se esforça no sentido de promover, para além da vida do trabalho, uma vida também de lazer e encontro”, diz.
Espaço conquistado
O acesso ao esporte e ao lazer é um direito previsto na Constituição Federal de 1988. Na prática, porém, a falta de equipamentos públicos e de espaços seguros limita a participação de grande parte da população.
Por sua popularidade, pela simplicidade das regras e pela possibilidade de organização coletiva, o futebol se tornou uma das práticas esportivas mais difundidas no país. Entretanto, meninas e mulheres ainda encontram obstáculos adicionais para ocupar quadras e campos.
Aira explica que a participação em uma equipe pode oferecer maior segurança para que uma mulher comece a frequentar esses espaços. A ocupação pode começar em uma quadra e avançar para campos society ou campos maiores.
“Muitas vezes, além do jogo em si, o futebol de várzea representa todas essas negociações para que essa mulher se permita alcançar um lugar de direito. Um direito que não lhe foi dado, mas que vai sendo conquistado ao lado de outras mulheres”, afirma.
Para a historiadora, a experiência coletiva permite que as mulheres construam espaços próprios de expressão, convivência e liberdade. A participação em equipes, torcidas e organizações cria redes de amizade e apoio, além de permitir que elas exerçam funções diferentes das responsabilidades tradicionalmente atribuídas às mulheres.

Campos ameaçados
Um dos principais desafios enfrentados pelo futebol de várzea é o desaparecimento dos campos, especialmente nos grandes centros urbanos. A expansão imobiliária, as obras e outras formas de ocupação do território reduziram a quantidade de espaços disponíveis para o futebol amador.
Com menos campos e quadras, também diminuem os horários livres. O aluguel de estruturas privadas fica mais caro, e as equipes com menos recursos perdem espaço.
Embora a redução atinja todo o futebol de várzea, Aira ressalta que os impactos são maiores sobre as equipes femininas.
“Quando você tem menos campos, menos quadras disponíveis e menos horários, o preço desses espaços aumenta. As maiores prejudicadas são as equipes femininas”, diz.
Além das dificuldades financeiras, muitas jogadoras acumulam tarefas domésticas e responsabilidades de cuidado que não são divididas igualmente dentro das famílias. Jornadas profissionais extensas e escalas de trabalho aos fins de semana também reduzem o tempo disponível para treinos e partidas.
Para Aira, os obstáculos enfrentados pelas mulheres na várzea precisam ser analisados a partir da relação entre gênero e classe. Ela argumenta que uma mulher com independência financeira e recursos para pagar por espaços esportivos encontra condições diferentes de outra que possui uma renda menor, precisa cuidar da família ou trabalha em horários que não garantem descanso aos fins de semana.
Direito ao lazer
O contraste entre a várzea e os grandes torneios evidencia a distância entre o futebol como direito e o futebol transformado em produto. A indústria bilionária construída em torno do futebol masculino, baseada em contratos de transmissão, publicidade, patrocínios e venda de ingressos, modificou a relação entre o público e o esporte. Já o futebol praticado nas periferias permanece ligado principalmente ao lazer, à atividade física e à convivência comunitária.
Aira contesta a ideia de que toda prática esportiva precise servir à formação de atletas profissionais.
“O futebol praticado nas periferias está no âmbito do lazer. Ele não é necessariamente uma escola de formação para atletas de alto rendimento. É a tradução do direito ao lazer, à atividade física e ao esporte”, explica.
Para ela, jogar também permite que trabalhadores e trabalhadoras construam uma rotina que não esteja limitada ao emprego e às obrigações cotidianas.
“É um exercício de liberdade em que homens e mulheres podem ser algo mais do que uma massa trabalhadora. Uma massa que também se diverte, brinca e faz uso do seu tempo de outras maneiras”, afirma.
Essa experiência, segundo a pesquisadora, interfere também na relação das comunidades com os bairros e com os espaços públicos.
“Estar dentro de um campo também é um direito social e uma forma de reivindicar o que se deseja para aquele território”, acrescenta.

Legado de 2027
Com a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, Aira defende que a preparação para o torneio não fique limitada aos estádios e aos dias de competição. Para ela, é preciso garantir ingressos acessíveis e ampliar a presença de famílias, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e moradores das periferias nas arquibancadas.
“O que se pensa como legado é o que acontece quando o evento acaba”, ressalta.
A pesquisadora defende investimentos em iniciação esportiva para meninas, além da construção, reforma e reabertura de quadras e campos. O legado, segundo ela, também deve criar oportunidades para mulheres que desejam atuar como gestoras, técnicas, árbitras, pesquisadoras, comunicadoras e em outras áreas do futebol.
“Não é só como jogadora. É preciso oportunizar todo um sistema que valorize essa mulher que deseja trabalhar dentro do circuito do futebol em todas as áreas”, afirma.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será realizada de 24 de junho a 25 de julho de 2027. Essa será a primeira edição do torneio na América do Sul e a última com o formato de 32 seleções, contando com 8 cidades-sede: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador e Porto Alegre.
