Valorização

Julho das Pretas: conheça cinco mulheres negras que preservam memórias e saberes ancestrais à frente de terreiros em SP

Série 'Terreiros Urbanos' revela como o sagrado e a comunidade se entrelaçam nas vozes de mães de santo e ekedis

No audio source provided.
Mãe Luciana Bispo, Ialorixá e protagonista da série 'Terreiros Urbanos em São Paulo'
Mãe Luciana Bispo, Ialorixá e protagonista da série ‘Terreiros Urbanos em São Paulo’ | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Antes de entrar nos terreiros, julho convida a olhar para a história de mulheres negras que transformaram memória, resistência e cuidado em formas de organização política. O Julho das Pretas reúne atividades em torno do 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, da Diáspora, e Dia Nacional de Tereza de Benguela. É nesse contexto que a série documental Terreiros Urbanos, produzida pelo Brasil de Fato, apresenta cinco mulheres que mantêm vivos saberes ancestrais em diferentes regiões do estado.

A série acompanha lideranças da capital, do interior e do litoral paulista para mostrar como os terreiros também funcionam como espaços de acolhimento, formação, produção cultural e organização comunitária. Entre as personagens estão Mãe Alessandra Ribeiro, em Campinas; Mãe Luciana Bispo, na zona sul da capital; Mãe Claudia Rosa, em Valinhos; Mãe Neide Ribeiro, em Ribeirão Preto; e a ekedi Eloiza Lourenço, em Ilhabela.

Mãe Luciana Bispo

Na zona sul de São Paulo, Mãe Luciana Bispo dá continuidade ao trabalho iniciado por sua mãe, Aparecida Bispo, no Ilê Obá Asé Ogodo e no Lar Maria Sininha. Assistente social e ialorixá, ela afirma que os quilombos e os terreiros sempre foram espaços de cuidado e acolhimento. Para ela, tornar esse papel conhecido é uma forma de enfrentar o racismo religioso. “Eu vou olhando para a história desse país e diria que os espaços de maior cuidado, sem nenhuma discriminação, são os quilombos e os terreiros.”

O trabalho desenvolvido pelo Lar Maria Sininha reúne atividades para crianças e adolescentes no contraturno escolar e busca ampliar o acesso à cultura e à garantia de direitos. Luciana afirma que a preservação do terreiro e da organização social representa uma continuidade do legado de sua mãe e de seus ancestrais. “Dar visibilidade para o terreiro como um lugar de cuidado, e não de demonização, tem sido uma tarefa fundamental.”

Ao falar sobre sua trajetória como mulher negra e ialorixá, ela relaciona a permanência do trabalho à responsabilidade com as gerações anteriores. “Desistir não é uma possibilidade, porque muito pior fez quem veio antes.”

Mãe Claudia Rosa

Em Valinhos, Mãe Claudia Rosa conduz o Ilê Asé Ojù Oyá depois de deixar o antigo terreiro, em Guaianases, que foi invadido três vezes. A decisão de mudar de cidade surgiu como forma de preservar o espaço religioso diante dos ataques sofridos.

“Na época da invasão, a nossa casa era 90% de mulheres. Ela foi invadida três vezes. A primeira vez, percebe-se que é uma coisa muito raivosa, muito pesada em relação à casa ser basicamente de mulheres e ser sustentada, chefiada e organizada por meio destas mulheres, mulheres negras. Eles nos deixaram sem alimentos. Todo o alimento que existia na casa foi jogado no chão, misturado. ‘Como vocês não vão ter como se alimentar, vão embora daqui.’ Foi uma situação muito perversa, muito forte.”

Segundo a ialorixá, a mudança buscou proteger a comunidade e garantir a continuidade das atividades desenvolvidas pelo terreiro. “Nossa decisão de sair do centro foi para que a gente pudesse preservar o nosso sagrado. Porque, sendo uma mulher negra, lésbica, periférica, de luta, que não se cala, que faz a participação social, eu sempre tive represálias por ter essa força, por ter essa visão diante do mundo.”

Além das funções religiosas, o Ilê Asé Ojù Oyá mantém ações sociais e culturais. Durante a pandemia, distribuiu alimentos, máscaras e produtos de higiene para moradores da região. O terreiro também organiza o Samba Muketu e participa de mobilizações contra o racismo religioso e em defesa dos direitos das mulheres negras.

“Eu não saio de dentro da minha casa batendo palma no portão de ninguém para dizer: ‘Aceite a minha fé, a minha fé é a verdadeira’. Não, eu só quero cultuar a minha fé com direito de liberdade, para cultuar o que eu penso, o que eu acredito, o que eu sinto, o que eu amo.”

Mãe Neide Ribeiro

No interior do estado, Mãe Neide Ribeiro transformou o Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun e o Centro Cultural Orunmilá em espaços voltados à preservação da cultura de matriz africana e à mobilização da comunidade em Ribeirão Preto. Criada em uma família católica, ela relata que o contato com os orixás começou ainda na infância e que, depois da iniciação, decidiu dedicar sua vida à tradição.

“Eu nem considero uma religião, mas uma tradição, porque o Orixá nunca se desligou da gente.”

Logo após a criação do terreiro, nasceu também o Centro Cultural Orunmilá, que reúne atividades como capoeira, dança afro, biblioteca temática e estúdio de gravação para artistas da periferia. Mãe Neide também participou da articulação que resultou na aprovação de leis relacionadas à população negra, entre elas a inclusão da anemia falciforme no teste do pezinho e a Lei Municipal Mãe Neide Ribeiro, voltada à proteção das culturas tradicionais.

Para ampliar esse trabalho, ela criou o Afoxé Omó Orúnmilá, grupo que leva para as ruas manifestações culturais ligadas à tradição iorubá. “O Afoxé serve para mostrar que Exu não é o diabo. Nós ensinamos cantando em iorubá, vestidos como africanos, ocupando a rua com nossas canções.”

Ao avaliar sua trajetória, Mãe Neide afirma que vê a continuidade do trabalho nas filhas Danielle Osuniwe Osungbemi, Renata Sangoranti e Ana Paula Oyarinu. “Eu venci. Quero que todas as mulheres tenham esse encontro com o Orixá, que é um empoderador. No meu vocabulário não existe a palavra ‘não’. Eu vou, eu posso, eu sei, eu quero. Eu ensino minha comunidade.”

Ekedi Eloiza Lourenço

No litoral paulista, a ekedi Eloiza Lourenço reúne a atuação no terreiro Ilé Àsé Omo Guian Ati Oya e Aldeia Caboclo Tupinambá com o trabalho na preservação da memória afro-brasileira em Ilhabela. Nascida no Quilombo da Caçandoca, ela também integra a Associação do Movimento Afrodescendente de Ilhabela e atua na Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural do município.

Entre as iniciativas das quais participa, está a organização da Festa de Iemanjá, realizada desde a década de 1970 e incorporada ao calendário oficial da cidade. Para ela, a celebração também representa um patrimônio cultural e uma oportunidade de fortalecer o turismo ligado à história da população negra.

“O chamariz é sempre a praia, porém, hoje em dia, a gente sabe que as pessoas estão procurando outras praias também. Então, não dá mais para fazer venda turística de praia. Precisa de conteúdo. E a Festa de Iemanjá é um conteúdo cultural e um conteúdo turístico, não só religioso.”

Eloiza afirma que os terreiros exercem um papel de acolhimento para mulheres e crianças e funcionam como espaços de convivência para famílias em situação de vulnerabilidade. “Eu comecei a observar, não só no meu terreiro, mas nos outros terreiros também, como tem mães solo. Eu vejo também que os meninos, filhos dessas mães, começam a crescer e o orixá é o pai deles.”

Segundo ela, além da prática religiosa, as casas de axé também buscam ampliar ações voltadas à comunidade. “A gente quer muito fazer os projetos sociais que fazemos com os nossos filhos. A gente quer fazer para as crianças da comunidade. Trazer aula de capoeira para elas, ensinar sobre a comida africana, que é deliciosa, sobre o linguajar dos ancestrais.”

Mãe Alessandra Ribeiro

A série Terreiros Urbanos reúne ainda a trajetória de Mãe Alessandra Ribeiro, em Campinas, que relaciona a ancestralidade da Umbanda ao Jongo Dito Ribeiro e à Casa de Cultura Fazenda Roseira.

Para ela, ocupar a materialidade de uma antiga fazenda escravocrata é um ato político e espiritual profundo. “Para a gente ter a oportunidade de contar a história a partir daqui é muito simbólico”, afirma, destacando que o espaço serve para narrar a “história da nossa diáspora preta e dessa cidade”.

Mãe Alessandra defende que o terreiro é um lugar de responsabilidade e construção cotidiana. Em sua visão, a fé exige pé no chão. “A fé exige disciplina, porque ela não é mágica, ela não é utópica, ela é material, ela é real”, explica.

Ao acompanhar as histórias das cinco lideranças, a produção mostra como os terreiros seguem preservando memórias, práticas culturais e formas de organização comunitária conduzidas por mulheres negras em diferentes regiões do estado.

Serviço

Série: Terreiros Urbanos
Onde assistir: canal do Brasil de Fato no YouTube
Produção: CPMídias e Brasil de Fato
Realização: Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter