Lotados e lentos

Concessões de Tarcísio entregam trens de SP a empresas privadas sob onda de falhas e deixam CPTM com apenas uma linha

Apenas a Linha 10-Turquesa segue sob controle do Estado, enquanto administração privada acumula mais falhas e queixas

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© Rovena Rosa/Agência Brasil
Metrô e CPTM tem registrado aumento de falhas no funcionamento das linhas, especialmente as privatizadas | Crédito: © Rovena Rosa/Agência Brasil

A transferência definitiva da operação comercial das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para a concessionária Trivia Trens, concluída nesta terça-feira (21), consolida um marco no desmantelamento da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Agora, apenas a Linha 10-Turquesa segue sob controle do Estado, representando o esvaziamento quase completo de uma empresa pública que, até 2021, operava toda linhas de trens da capital e região metropolitana de São Paulo.

O processo faz parte do plano de concessões acelerado pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que segue uma cartilha iniciada em administrações anteriores de entregar a malha metroferroviária para o setor privado.

Para o geógrafo Rafael Calabria, pesquisador de mobilidade urbana da rede BRCidades, essa fragmentação compromete a “espinha dorsal” do planejamento metropolitano. Ele aponta que a fragmentação em múltiplas operadoras privadas “extingue o planejamento integrado de transporte que antes era centralizado pelo Estado por meio do Metrô e da CPTM”. 

O encolhimento da CPTM foi desenhado por meio de pacotes de concessão sucessivos: as Linhas 4-Amarela e 5-Lilás, ambas do Metrô, abriram caminho para a privatização das Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da CPTM, as primeiras repassadas à iniciativa privada. 

No ano passado, a Linha 7-Rubi foi entregue à concessionária Tic Trens. E agora, chegam às mãos da iniciativa privada as linhas que atendem à população da zona leste e Guarulhos, para o grupo Comporte Participações, controlador da Trivia Trens.

Calabria afirma que o transporte público é “um direito social básico, que funciona como chave de acesso a outros direitos essenciais, como saúde, educação, trabalho e lazer”. Quando a operação é pulverizada e submetida à lógica estritamente comercial, o pesquisador entende que o poder público “perde a capacidade de pensar a rede como um sistema unificado e integrado de circulação urbana”.

Os impactos operacionais dessa transição refletem nas falhas registradas no transporte. Um levantamento da TV Globo aponta que as falhas operacionais na rede de trens e metrôs de São Paulo registraram um salto alarmante de 27% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.

O total de ocorrências subiu de 161 para 205 falhas graves em apenas seis meses. Diante de 181 dias decorridos no primeiro semestre, a média do sistema superou a marca de mais de uma ocorrência por dia, impondo atrasos recorrentes à população.

Os dados apontam que o crescimento das panes foi impulsionado de forma desproporcional pelas linhas privatizadas. As operações sob gestão privada registraram 89 falhas no primeiro semestre de 2026 contra 57 no primeiro semestre de 2025, um aumento de 56%.

O pior cenário ocorreu na Linha 7-Rubi, gerida pela Tic Trens, na qual o salto de falhas foi de 600%, passando de apenas 3 ocorrências no período estatal para 21 sob controle privado. Na Linha 11-Coral, o aumento das panes foi de 275%, registrando 15 problemas graves no semestre, dos quais 10 aconteceram especificamente no mês de junho, em plena fase final de transição para a Trivia Trens.

Para o metroviário Diego Vitello, secretário de Relações Intersindicais do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, a manutenção preventiva e a rápida resolução de incidentes estão sendo comprometidas.

“Antes, tinha um trabalhador que era melhor remunerado e ficava anos dentro da empresa. Agora, como a remuneração é menor, as jornadas de trabalho são muito altas, a rotatividade no emprego também é bem maior, então ninguém fica muito tempo nesse trabalho e todo o conhecimento acumulado acaba se perdendo ao longo do tempo”, diz Vitello.

Calabria também destaca que o enfraquecimento das estatais acarreta uma perda de governança e controle de qualidade por parte do Estado. Com a CPTM fora das principais linhas, a agência reguladora estadual, Artesp, assume uma fiscalização para a qual carece de histórico de atuação robusta e quadro técnico suficiente.

Calabria afirma que, além de transferir a operação, o governo estadual tem “retirado das empresas públicas o próprio poder de planejar e desenhar novas linhas, delegando essas decisões a secretarias focadas em parcerias privadas, o que remove qualquer visão social ou estratégica do serviço de transporte público”.

Essa desarticulação também afeta a operação técnica de engenharia no cotidiano das linhas. O Brasil de Fato fez um levantamento sobre os registros operacionais divulgados diariamente pela concessionária Motiva Trilhos, responsável pelas Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, entre os dias 20 de junho e 20 de julho de 2026.

O cruzamento desses dados com as manifestações de usuários no X (antigo Twitter) contraria o que muitas vezes é apresentado pela empresa. Durante o período analisado de 31 dias, a Motiva Trilhos informou que a Linha 9-Esmeralda acumulou um total de 17 intercorrências operacionais que impactaram a circulação dos trens. No mesmo período, a empresa apontou que a Linha 8-Diamante registrou 4 ocorrências.

No entanto, monitoramento feito pela reportagem no X aponta que a insatisfação dos passageiros atingiu picos históricos de reclamações que contestam os comunicados emitidos pela concessionária.

Enquanto os canais digitais da Motiva Trilhos informavam de forma protocolar que a circulação estava em “operação normal”, passageiros publicaram relatos indignados, fotos de plataformas lotadas e vídeos de trens parados entre as estações, expondo a discrepância entre o discurso de iniciativa privada e o cotidiano das linhas.

Neste levantamento, os dias 23, 25 e 26 de junho registraram os maiores volumes de queixas nas redes sociais, coincidindo com grandes interrupções na Linha 9-Esmeralda. No dia 23 de junho, uma manutenção programada de via permanente na região de Osasco resultou em um caos generalizado de lentidão e plataformas completamente lotadas nas estações de integração.

No dia 25 de junho, passageiros registraram trens retidos por vários minutos na estação Pinheiros, transformando trajetos habituais de 40 minutos em longas viagens de mais de duas horas com superlotação.

A maior crise do período analisado ocorreu na noite do dia 26 de junho, impulsionada por uma pane técnica na Linha 8-Diamante na região de Santa Terezinha. Passageiros utilizaram o X para relatar que ficaram confinados dentro de composições totalmente apagadas por mais de 30 minutos na altura de Carapicuíba, sem qualquer aviso ou sistema de som ativo.

Para Diego Vitello, a deterioração no atendimento e na manutenção é reflexo direto de uma precarização generalizada da força de trabalho promovida após as privatizações. Segundo ele, sob as novas concessionárias, vemos “salários menores e jornadas de trabalho maiores”.

O sindicalista aponta a gravidade dessa política, lembrando as duas mortes trágicas de operários registradas neste ano na Linha 9-Esmeralda. “Um treinamento precário desses trabalhadores pode contribuir para acidentes de trabalho, incluindo acidentes fatais, como foi no caso da Linha 9”, diz.

A deterioração operacional após a privatização não é uma exclusividade da operadora Motiva Trilhos. O Relatório Anual de Gestão de 2025 da concessionária Tic Trens, que opera a Linha 7-Rubi, reúne dados de 26 de novembro, quando a empresa assumiu a linha, a 31 de dezembro de 2025. No primeiro mês completo de transição da operação da antiga CPTM para a nova concessionária, os canais oficiais de atendimento da empresa receberam um volume expressivo de manifestações de usuários insatisfeitos. De 1.946 manifestações registradas em canais como WhatsApp, e-mail e telefone, 43% foram classificadas como reclamações. O índice somou 837 registros em números absolutos, sendo superado apenas pelas solicitações de informação básica (52%).

Em contrapartida, as sugestões representaram 3% do total de contatos, enquanto os elogios à operação privada foram apenas 2%.

O Brasil de Fato procurou a Secretaria de Transportes Metropolitanos (STM), a agência reguladora Artesp e as concessionárias privadas Motiva Trilhos e TIC Trens para questionar o salto de falhas registrado no primeiro semestre, as denúncias de precarização técnica e segurança do trabalho, além das críticas de usuários quanto à prestação de serviço. Até o fechamento desta reportagem, no entanto, nenhuma das partes enviou resposta aos questionamentos. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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