Cuidado coletivo

DF: Festival Latinidades coloca saúde mental de trabalhadores da cultura no centro do debate

Programação pautou caminhos para romper estruturas que adoecem profissionais da área

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Nesta edição, o Festival Latinidades priorizou vivências, rodas de conversa e debates sobre bem viver, saúde mental e valorização do trabalho cultural.
Nesta edição, o Festival Latinidades priorizou vivências, rodas de conversa e debates sobre bem viver, saúde mental e valorização do trabalho cultural. | Crédito: Divulgação Festival Latinidades

Durante muito tempo, jornadas exaustivas, instabilidade, excesso de burocracia e relações de trabalho marcadas pela precarização foram encaradas como parte inevitável da vida de quem trabalha com cultura. A 19ª edição do Festival Latinidades, realizada em Brasília, propôs inverter essa lógica ao colocar a saúde mental de artistas, produtoras e demais profissionais do setor no centro da programação.

Ao longo de quatro dias, o festival promoveu debates, vivências, atividades formativas, apresentações culturais, feira de empreendedorismo e encontros institucionais para discutir como racismo, desigualdade, insegurança econômica e ausência de políticas públicas impactam diretamente a saúde mental de quem produz cultura.

A proposta foi ampliar o debate para além do adoecimento individual e defender o cuidado como parte da construção das políticas culturais.

Reconhecido como o primeiro festival de mulheres negras da América Latina, o Latinidades chegou à 19ª edição reafirmando sua atuação como espaço de articulação política, circulação artística e produção de conhecimento protagonizado por mulheres negras. Neste ano, a organização priorizou atividades formativas e momentos de escuta coletiva, em substituição ao formato tradicional centrado em grandes shows.

Saúde mental importa

Para a especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça e em Estudos Afro-Latino-Americanos e Caribenhos e idealizadora do festival, Jaque Fernandes, a resposta do público demonstrou que existe uma demanda crescente por espaços que discutam não apenas a produção artística, mas também as condições de trabalho no setor cultural.

“Conseguimos colocar a saúde mental no centro do debate político e, ao mesmo tempo, proporcionar cuidados e vivências para quem participou. Mais do que discutir um tema, buscamos construir caminhos”, afirma em entrevista ao Brasil de Fato DF.

A adesão às atividades superou as expectativas da organização. Mesmo sem uma grande arena de shows, todas as mesas, oficinas e vivências registraram alta procura, levando a organização a disponibilizar ingressos extras e transferir parte da programação para auditórios maiores.

“Ficamos surpresas com a resposta do público. Todas as atividades precisaram abrir ingressos extras e algumas até mesmo mudar de auditório no museu para acolher o público interessado”, relata.

Na avaliação de Fernandes, o resultado demonstra que há interesse do público por debates capazes de enfrentar problemas estruturais vividos por quem atua na cultura, especialmente após anos de intensificação da precarização do trabalho no setor.

Participantes acompanham a abertura da 19ª edição do Festival Latinidades, que neste ano colocou a saúde mental e as condições de trabalho no setor cultural no centro da programação.
Participantes acompanham a abertura da 19ª edição do Festival Latinidades, que neste ano colocou a saúde mental e as condições de trabalho no setor cultural no centro da programação. | Crédito: Divulgação Festival Latinidades

Para além de discutir ansiedade, estresse ou esgotamento, o Festival Latinidades procurou ampliar a compreensão sobre os fatores que produzem o adoecimento entre trabalhadores da cultura.

Ao longo da programação, artistas, pesquisadoras, produtoras e gestoras públicas discutiram como jornadas extensas, insegurança financeira, burocracias, racismo e desigualdade afetam diretamente a saúde mental dos profissionais da área. Para a organização, tratar o tema apenas como uma questão individual invisibiliza as estruturas que sustentam essas formas de adoecimento.

Fernandes afirma que esse foi um dos principais consensos construídos durante a edição.

“Não é possível falar de bem-estar sem discutir racismo, desigualdade, precarização do trabalho, sobrecarga, insegurança financeira e ausência de políticas públicas para quem vive da cultura”, avalia.

Durante décadas o setor cultural naturalizou condições precárias de trabalho como se fossem inerentes ao fazer artístico. Romper com essa lógica, afirma, exige mudanças que ultrapassam iniciativas individuais.

Na avaliação da idealizadora do festival, governos, instituições culturais, financiadores e trabalhadores compartilham a responsabilidade de construir modelos mais sustentáveis de produção cultural, em que o cuidado deixe de ser exceção e passe a integrar as políticas públicas e as relações de trabalho.

Cultura também precisa cuidar de quem a produz

Ao defender que a saúde mental deve ocupar um lugar permanente na agenda cultural, o festival também chamou atenção para uma contradição histórica: embora a cultura seja reconhecida por fortalecer vínculos comunitários, promover pertencimento e estimular reflexões sobre a sociedade, raramente se discutem as condições de vida de quem produz essas experiências.

Para Fernandes, pensar políticas para o setor passa, necessariamente, por reconhecer o papel estratégico da cultura para a vida coletiva.

“A cultura é uma das infraestruturas invisíveis que sustentam a vida em sociedade. Ela não apenas retrata o mundo, como ajuda a construí-lo”, destaca.

Segundo ela, a produção artística também exerce um papel fundamental na promoção da saúde coletiva, sobretudo em contextos marcados por desigualdades e crises sociais. “A arte inspira, cura, ajuda a produzir beleza em tempos difíceis e a continuar alimentando as utopias. O setor cultural gera trabalho, renda, pertencimento e transformação”, ressalta.

Na visão da organizadora, justamente por desempenhar essa função social, a cultura precisa voltar o olhar para quem está nos palcos, nos bastidores, na produção e na organização dos eventos, garantindo condições dignas de trabalho e redes permanentes de cuidado.

Experiências e cuidado coletivo

Se os debates e atividades formativas ajudaram a ampliar a discussão sobre saúde mental, foram os relatos do público que confirmaram à organização a urgência do tema.

Diversos participantes procuraram a equipe ao longo da programação para compartilhar experiências pessoais relacionadas ao trabalho cultural. Entre os depoimentos, estavam profissionais que disseram nunca ter encontrado um espaço onde pudessem falar sobre ansiedade, esgotamento e insegurança sem medo de julgamento.

A organizadora conta que muitos participantes se reconheceram nas discussões promovidas pelo festival e afirmaram que as vivências despertaram novas perspectivas sobre o cuidado coletivo.

“Muitas pessoas chegaram para a equipe agradecendo porque estavam pensando em desistir, mas compreenderam, a partir das vivências e trocas do festival, que pode existir um futuro diferente e que o primeiro passo é reconhecer que existe um problema, que ele é muito sério e afeta a sociedade para além dos trabalhadores da cultura individualmente”, conta.

Na avaliação de Fernandes, um dos principais resultados da edição foi mostrar que a saúde mental não pode ser tratada apenas como uma responsabilidade individual, mas como uma questão que envolve as formas de organização do trabalho e as políticas voltadas ao setor cultural.

“O sentimento que ficou foi de esperança”, resume a idealizadora. Segundo ela, o festival fortaleceu discussões sobre novas formas de organizar as relações de trabalho, ampliar redes de apoio e colocar o cuidado no centro das políticas culturais.

Pesquisa pretende subsidiar políticas públicas

A programação reuniu debates, atividades formativas, apresentações culturais e ações de cuidado voltadas a trabalhadores da cultura.
A programação reuniu debates, atividades formativas, apresentações culturais e ações de cuidado voltadas a trabalhadores da cultura. | Crédito: Divulgação Festival Latinidades

Entre os desdobramentos da 19ª edição está o lançamento de uma pesquisa nacional sobre saúde mental de trabalhadoras e trabalhadores da cultura. Desenvolvido pelo Instituto Afrolatinas em parceria com o Data_labe e o Coletivo Mawê, o estudo busca construir um diagnóstico inédito sobre as condições de trabalho e seus impactos na saúde mental dos profissionais do setor.

A iniciativa ainda está na fase inicial de mobilização e coleta de informações. A expectativa da organização é ampliar a participação de trabalhadores da cultura de diferentes regiões do país para produzir um panorama representativo da realidade vivida pela categoria.

Fernandes explica que o levantamento pretende preencher uma lacuna histórica na produção de dados sobre o setor e oferecer subsídios para a formulação de políticas públicas.

Além de orientar gestores públicos, a pesquisa poderá contribuir para que instituições culturais, financiadores e organizações da sociedade civil repensem práticas de gestão e relações de trabalho, incorporando o cuidado como parte permanente de suas ações.

Festival amplia articulação internacional

Embora a programação em Brasília tenha sido encerrada, a 19ª edição do Festival Latinidades ainda terá uma etapa internacional, prevista para acontecer em Nova York, nos Estados Unidos, durante as celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25 de julho.

A programação inclui atividades no Brooklyn, Harlem e Central Park, reunindo artistas, pesquisadoras e representantes de diferentes países da diáspora negra. Para a organização, a iniciativa marca um novo momento na trajetória do festival, ampliando sua capacidade de articulação para além das fronteiras brasileiras.

Fernandes afirma que a proposta vai além da circulação de artistas e da realização de apresentações culturais. “Queremos construir pontes duradouras entre territórios que compartilham desafios e produzem soluções semelhantes”, afirma.

Segundo ela, a internacionalização fortalece o diálogo entre mulheres negras da América Latina, do Caribe, dos Estados Unidos e da diáspora africana, ampliando redes de cooperação, intercâmbio de experiências e circulação de conhecimentos produzidos nesses territórios.

Um legado para além do festival

Ao longo de quase duas décadas, o Festival Latinidades abordou temas como mercado de trabalho, juventude negra, comunicação, cinema, afrofuturismo e bem viver. Para Jaque Fernandes, a edição de 2026 representa um passo importante nessa trajetória ao colocar a saúde mental como uma dimensão inseparável da política cultural.

Ela avalia que a principal contribuição desta edição foi demonstrar que o setor cultural pode ser organizado de outras formas, rompendo com práticas historicamente marcadas pela precarização e pelo esgotamento de seus trabalhadores.

“O Festival Latinidades mostrou que é possível pensar outro modelo, em que sustentabilidade, bem-estar e criação caminhem juntos”, conclui. Na avaliação da organizadora, o festival também reafirmou o protagonismo das mulheres negras na formulação de propostas capazes de transformar não apenas o setor cultural, mas a sociedade como um todo.


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Editado por: Clivia Mesquita

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