CONSERVAÇÃO

Parque Nacional de São Joaquim usa fogo controlado para prevenir grandes incêndios

Experiência inédita realizada em julho reuniu pesquisadores e moradores na proteção dos campos de altitude de SC

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Queima prescrita foi realizada após avaliação do vento, da temperatura, da umidade da vegetação e do material combustível
Queima prescrita foi realizada após avaliação do vento, da temperatura, da umidade da vegetação e do material combustível | Crédito: Rafael Barbizan Sühs

O Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ), em Santa Catarina, realizou, entre 1º e 11 de julho, pela primeira vez em sua história, ações práticas de manejo integrado do fogo (MIF). A estratégia está prevista no plano de manejo da unidade desde 2023 e é considerada uma das principais ferramentas para reduzir os grandes incêndios que vêm atingindo a unidade de conservação nos últimos anos. As informações foram divulgadas pelo coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia AdaptaVeg (INCT AdaptaVeg) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Valério De Patta Pillar.

Segundo ele, o INCT AdaptaVeg investiga o manejo e a conservação da biodiversidade e os benefícios relacionados a essas práticas em campos e savanas diante da crise climática. Reúne aproximadamente 40 pesquisadores nacionais e internacionais e mais de 20 instituições de referência, entre elas instituições de ensino superior, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Também integra uma rede internacional de colaboração científica que envolve Brasil, Uruguai, Argentina, África do Sul e Alemanha.

O programa, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), surgiu diante da urgência de compreender e enfrentar a crise climática nos ecossistemas abertos. A proposta é contribuir para o desenvolvimento de soluções concretas e baseadas em evidências para o uso da terra.

Pillar afirma que o INCT AdaptaVeg surgiu da necessidade de buscar soluções baseadas na natureza para enfrentar a crise climática. “Precisamos lidar com eventos extremos climáticos, que têm acontecido cada vez mais frequentemente”, diz. O professor explica que, nos campos e cerrados, uma seca extrema amplia o risco de incêndios quando as áreas não estão sob uso pastoril, situação frequente nas unidades de conservação. Essa vegetação ocupava originalmente perto de 40% do território brasileiro.

“O INCT AdaptaVeg foi criado com o objetivo de estudar práticas de manejo pastoril, combinadas ou não com queimadas prescritas, com vistas a reduzir o risco de incêndios catastróficos em vegetação nativa de campo ou cerrado”, explica Pillar.

A operação reuniu gestores do parque, servidores do ICMBio, pesquisadores do INCT AdaptaVeg e do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Biodiversidade de Santa Catarina (PELD-Bisc), além de agentes temporários ambientais (ATAs) e moradores da comunidade local. As atividades seguiram rigorosos protocolos técnicos.

O manejo planejado do fogo

O manejo planejado do fogo reduz o material combustível que alimenta grandes incêndios / Foto: Rafael Barbizan Sühs

À frente das operações esteve Anivaldo Chaves, analista ambiental do ICMBio com cerca de 25 anos de experiência em manejo do fogo, ao lado da equipe do PNSJ e dos agentes temporários ambientais. Durante toda a operação, não houve perda de controle das queimadas nem registro de situações de risco. O resultado é atribuído ao planejamento prévio, ao acompanhamento constante das condições meteorológicas e à atuação de equipes capacitadas.

Chaves explicou que, desde 2020, o PNSJ vem sendo alvo de incêndios criminosos que já atingiram centenas de hectares de campos e áreas florestais, ameaçando a biodiversidade, pesquisas científicas e propriedades do entorno. Diante desse cenário, o parque decidiu colocar em prática o MIF: o uso planejado, técnico e seguro do fogo para reduzir o acúmulo de material combustível — a vegetação seca que alimenta grandes incêndios.

“Trabalhando com o manejo do fogo, aprendi que, por si só, não é bom nem ruim. O que causa danos é seu uso sem planejamento, sem controle e sem os cuidados necessários. O Manejo Integrado do Fogo representa exatamente essa abordagem: integrar o conhecimento técnico e o conhecimento tradicional para prevenir e reduzir os efeitos negativos dos incêndios florestais, especialmente em condições críticas e imprevisíveis, contribuindo para a conservação da paisagem e da biodiversidade”, explicou o analista ambiental.

As atividades começaram com a construção de aceiros — faixas de terreno onde a vegetação é removida para interromper a propagação do fogo — ao redor de sete blocos experimentais de pesquisa. Em seguida, as equipes realizaram as queimas prescritas, sempre com avaliação prévia do vento, da temperatura, da umidade da vegetação e da quantidade de material combustível, além de testes em pequenas áreas antes de cada operação.

A gestão do parque reforça que o manejo integrado do fogo não representa a liberação indiscriminada do uso do fogo. Toda queima depende de autorização dos órgãos competentes, planejamento técnico e acompanhamento de profissionais habilitados. Queimar sem autorização continua sendo infração ambiental e pode configurar crime.

Diálogo com moradores

Além das atividades de campo, o Parque Nacional de São Joaquim promoveu um encontro entre gestores, pesquisadores e moradores do parque para ampliar o diálogo sobre a conservação dos campos de altitude.

A reunião contou com 24 participantes e permitiu que moradores esclarecessem dúvidas sobre o uso planejado do fogo, a relação com o manejo dos campos e os procedimentos necessários para a realização de queimas autorizadas em propriedades particulares. O encontro colaborou para esclarecer uma percepção comum de que todo fogo representa, necessariamente, um problema ambiental.

Na vegetação campestre, o fogo pode fazer parte da dinâmica ecológica e histórica da paisagem, e os efeitos dependem de como, quando e com que intensidade ele é aplicado. Moradores compartilharam experiências com o uso tradicional do fogo no manejo dos campos de pastagem, enquanto pesquisadores apresentaram as evidências científicas produzidas na região. Esse encontro entre saberes foi considerado pelos presentes fundamental para fortalecer a confiança entre a comunidade e a unidade de conservação.

Para a moradora e guia de turismo Alessandra Munareto Mathias, a reunião representou um passo importante na relação entre a gestão do parque e os moradores, que se sentiram parte do processo pela primeira vez. Ela relaciona a preservação do local ao amor da comunidade pela região e pelas próprias origens. “Fiquei muito feliz com a reunião porque senti que pode haver diálogo, pode existir um entendimento entre moradores, parque e pesquisadores, sem um clima de desconfiança ou de conflito”, afirma.

Editado por: Marcelo Ferreira

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