A letalidade policial no Brasil piorou em 2025, ainda que tenha ocorrido um menor número de mortes violentas no geral e de policiais assassinados em confrontos. Foram 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP), o que representou um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior.
Já o número de mortes violentas intencionais (MVI) — que correspondem à soma de homicídios dolosos, latrocínios, casos de lesão corporal seguida de morte e de MDIP — caiu 7,8%, passando a 40.775 ocorrências em 2025. Ainda no ano passado, 139 policiais foram assassinados, o que significou uma queda de 3,5% desse índice em relação a 2024.
Os números aparecem na edição deste ano do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23/7) e adiantada à Ponte. A publicação é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Mortes estão muito acima de referências internacionais, diz pesquisador
Se comparadas as mortes de policiais com as cometidas pelas polícias, houve 47 civis mortos para cada agente de segurança pública assassinado em supostos confrontos no país em 2025.
Na Bahia, sob o governo Jerônimo Rodrigues (PT), a proporção foi de 523 mortes de civis pelas forças de segurança para cada assassinato de um policial — o estado teve 1.570 MDIP e três episódios de vitimização policial no ano passado.
Em nove estados do país, houve registros de MDIP, mas não de policiais mortos em confrontos (Acre, Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Sergipe). A maior disparidade entre eles se deu no Paraná, sob governo Ratinho Júnior (PSD), onde 482 pessoas foram mortas pelas polícias em 2025.
A comparação entre os números de mortes de policiais e de civis é um dos critérios adotados pela literatura especializada em segurança pública para mensurar eventual uso abusivo da força pelas polícias.
Não há consenso sobre uma proporção razoável. Ainda assim, o advogado estadunidense Paul Chevigny, estudioso da letalidade policial nas Américas, propôs, por exemplo, ao analisar um grupo de países em um estudo clássico de 1991, que a ocorrência de ao menos dez mortes de civis para cada assassinato de um policial seria um indicativo de uso desproporcional da força letal pelas polícias.
Ou seja, ultrapassado esse limite, é possível que estivessem ocorrendo execuções em vez de mortes decorrentes de confrontos, nos quais se impõe aos policiais a necessidade de proteger a própria vida e a de terceiros.
“Nós estamos vendo uma realidade em que todos os números estão muito altos, todos, e não só esses [de letalidade e de vitimização policial]. Eles estão muito acima das referências internacionais”, diz, à Ponte, o pesquisador Leonardo Silva, ao falar da disparidade das mortes de civis.
“Se nós olharmos a completude dos dados, olharmos o número de abordagens, de prisões, tudo está muito acima [do razoável] na realidade brasileira. E o que isso nos mostra? Mostra que nós precisamos repensar o nosso modelo de segurança pública”, diz ainda Leonardo, que é coordenador temático do FBSP e autor do capítulo sobre letalidade policial na edição mais recente do Anuário.
Bahia e Amapá têm piores taxas de letalidade policial
As mortes cometidas pelas polícias em 2025 se distribuíram entre 1.354 municípios brasileiros, o equivalente a 25% do total. As cidades que mais tiveram casos foram quatro capitais: Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Curitiba. Se olhadas, no entanto, não os números absolutos, mas as taxas de letalidade em relação à população, as realidades mais críticas estão na Bahia.
O estado concentra seis das dez cidades com mais de 100 mil habitantes que tiveram as piores taxas: Porto Seguro, Eunápolis, Simões Filho, Jequié, Lauro de Freitas e Luiz Eduardo Magalhães.
Elas estão espalhadas por diferentes partes da Bahia — da região metropolitana de Salvador ao interior e a outros trechos do litoral. “Você vê que não é um padrão de uso da força letal de forma pontual, localizado. É algo irradiado pelo território, uma postura mais recorrente”, diz Leonardo.
Além da Bahia, com a polícia mais letal do país desde 2022, outro estado que se destacou negativamente foi o Amapá, governado por Clécio Luís (União Brasil): foram 138 MDIP no ano passado, ao passo que um policial foi morto. Para cada 100 mil habitantes, o Amapá teve 17,1 mortes cometidas pelas polícias — tratou-se da pior taxa do Brasil pelo sétimo ano consecutivo, segundo o Anuário.
Outros nove estados também tiveram uma taxa de letalidade policial acima da média nacional (de 3,1 MDIP para cada 100 mil habitantes). Foram eles: Bahia (10,6), Sergipe (8,4), Pará (7,3), Goiás (4,9), Rio de Janeiro (4,6), Paraná (4,1), Rio Grande do Norte (4,0), Mato Grosso (3,6) e Alagoas (3,6).
Para Leonardo, pesquisador do FBSP, o caso do Rio de Janeiro, com 798 MDIP em 2025, é simbólico entre esse grupo: a letalidade policial piorou no estado, conforme já havia mostrado a Ponte, justamente no ano em que o Supremo Tribunal Federal (STF) deu por encerrada a chamada ADPF das Favelas, uma ação judicial iniciada para conter as mortes cometidas pelas polícias fluminenses.
Além disso, a piora não teria ocorrido se não fosse o Massacre da Penha e do Alemão, em que 121 pessoas foram mortas no que o ex-governador Cláudio Castro (PL) chamou de Operação Contenção — o estado hoje é chefiado pelo desembargador Ricardo Couto, então presidente do Tribunal de Justiça local (TJRJ), que assumiu o cargo após uma crise na linha sucessória do governo, com renúncias e uma prisão.
“Nós vimos um deputado estadual [o TH Joias (ex-MDB)] sendo preso pela Polícia Federal sob a acusação de tráfico de armas. Vimos o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro [o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil)] sendo preso também. Então, é esse o nível de descontrole. Não podemos falar só do descontrole do uso da força letal, mas também desse descontrole por parte de uma fração da própria gestão pública”, avalia Leonardo.
Negros são vítimas comuns
Entre as pessoas mortas pelas polícias em 2025, repetiu-se um padrão já histórico, em que a maioria foi de homens (97% das vítimas) e jovens, com idades entre 20 e 29 anos (46%). Outra característica comum foi a cor da pele: a taxa de mortes decorrentes de intervenções policiais entre negros foi de 3,5 por 100 mil habitantes, contra 1,0 entre brancos, segundo o Anuário.
Dos casos em que houve detalhamento dos dados prestados pelas secretarias de segurança pública de cada estado ao Anuário, 89,5% foram cometidos por policiais militares em serviço.
No caso dos policiais assassinados, o perfil é parecido: a ampla maioria das vítimas é formada por homens (98,2%), negros (61,8%) e com idade entre 30 e 49 anos (35,9%).
Para Leonardo, tanto a letalidade quanto a vitimização são faces de uma mesma moeda: a aposta em uma política de segurança pública que prioriza confrontos. “Será que o Estado é incapaz, em 2025, de pensar alternativas de atuação que não demandem a utilização do uso letal da força?”, questiona.
“Muito se fala dessa atuação letal como uma medida de combate ao crime organizado, mas nós temos visto operações que envolvem não só as forças policiais e que conseguem mapear e prender pessoas que ocupam posições importantes nas estruturas das facções, operações em que não há um único tiro disparado. Nós sempre usamos de exemplo a Carbono Oculto“, afirma ainda Leonardo, ao mencionar uma operação que desmantelou um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis e no mercado financeiro com participação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Suicídios matam mais policiais do que confrontos
O pesquisador afirma também que esse modelo de segurança letal tem deixado uma outra consequência: os casos de suicídio de agentes públicos. Em 2025, conforme identificou o Anuário, houve 110 episódios desse tipo, o que significou uma baixa de 12,7% em relação ao ano anterior.
Em 13 estados, houve mais mortes de policiais por suicídio do que em confrontos: Acre, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins. Em outros três, tanto um quanto o outro índice foi o mesmo: Bahia, Ceará e São Paulo.
“Ou seja, nós temos de pensar como estamos formando e cuidando dos nossos policiais. Nós falamos muito do nível institucional, do descontrole, mas precisamos lembrar que essas políticas são operadas no cotidiano por pessoas. São policiais que estão ali com situações diversas que levam a um adoecimento mental”, afirma Leonardo.
Descontrole das tropas empurra policiais para o crime organizado, aponta FBSP
Em um artigo que abre o capítulo do Anuário sobre a letalidade policial no país, o pesquisador também destaca que o descontrole do uso da força pelas polícias ainda acarreta no envolvimento de agentes públicos com o crime organizado.
A lógica é a seguinte: quanto menor é o controle do Estado, maior é o espaço para práticas arbitrárias e ilegais, o que também abre margem para a captura desses agentes por organizações criminosas, dispostos a matar. No texto do Anuário, Leonardo cita como exemplo o caso de Vinicius Gritzbach, o delator do PCC que foi morto por policiais militares supostamente a mando de integrantes da facção em plena luz do dia no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), o maior do país, em novembro de 2024.
Dois dias antes da publicação do Anuário, também em São Paulo, o Ministério Público estadual (MPSP) deflagrou uma operação em que oficiais de alto escalão da Polícia Militar paulista (PMESP), incluindo um ex-chefe da corporação, foram vinculados a um grupo suspeito de movimentar dinheiro para o PCC.
“A gente tem visto em vários estados casos de agentes públicos sendo coniventes e atuando de forma aliada com facções criminosas. E aí a gente tem essa questão: como que esse uso da força por parte do Estado tem sido direcionado? É necessário fiscalização, transparência”, diz Leonardo.
