A eleição de Khalil al-Hayya para a chefia do Bureau Político do Hamas representa muito mais do que uma sucessão de lideranças.
Ela sinaliza a entrada do movimento em uma nova etapa política, moldada pela guerra em Gaza, pela eliminação sistemática de seus dirigentes e pela disputa sobre quem conduzirá o futuro da Palestina após o conflito.
Durante quase dois anos, Israel apostou na chamada estratégia de “decapitação” da liderança do Hamas. Os assassinatos de Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar e de outros dirigentes tinham como objetivo provocar a fragmentação do movimento e inviabilizar sua capacidade de comando.
A eleição de Al-Hayya aponta na direção oposta de que, apesar das perdas sofridas, o Hamas preservou sua estrutura institucional e demonstrou capacidade de renovar sua direção segundo seus próprios mecanismos internos.
O processo eleitoral, realizado em mais de um turno e conduzido de acordo com os regulamentos da organização, reforça a imagem de um movimento cuja continuidade política não depende de lideranças individuais, mas de instituições consolidadas.
A escolha de Al-Hayya também revela uma redefinição das prioridades do Hamas. Embora pertença à geração fundadora do movimento e possua forte legitimidade construída na Faixa de Gaza, seu perfil difere do de Yahya Sinwar.
Nos últimos anos, Al-Hayya tornou-se um dos principais responsáveis pelas negociações indiretas com Israel e pelos contatos mantidos com os mediadores do Catar e do Egito, participando do núcleo que formula as decisões estratégicas do movimento.
Essa experiência indica que a próxima fase será marcada por uma intensa disputa diplomática.
O cessar-fogo permanente, a troca de prisioneiros, o levantamento do bloqueio, a entrada de ajuda humanitária e a reconstrução de Gaza tendem a ocupar o centro da agenda política do Hamas, sem que isso implique abandonar sua estratégia de resistência.
Diversos analistas palestinos interpretam a eleição de Al-Hayya justamente como a expressão dessa nova hierarquia de prioridades para responder à emergência humanitária, preservando as constantes políticas do movimento.
Essa orientação também explica a capacidade de Al-Hayya para transitar entre dois polos fundamentais da política regional.
De um lado, o Catar, principal mediador das negociações entre Hamas, Israel, Estados Unidos e Egito. De outro, o Irã e o Eixo da Resistência, que continuam constituindo a principal retaguarda política e estratégica do movimento.
Sua eleição sugere que o Hamas pretende aprofundar simultaneamente sua capacidade de negociação e sua articulação regional, rejeitando a falsa dicotomia entre diplomacia e resistência.
Ao mesmo tempo, a sucessão dialoga com o movimento estratégico em curso, com a disposição do Hamas de transferir a administração civil de Gaza para um Comitê Nacional Palestino.
Essa iniciativa indica que o movimento procura distinguir, de forma mais clara, três dimensões de sua atuação: a resistência militar, a direção político-diplomática e a administração do território.
Trata-se de uma reorganização profunda, provavelmente a mais importante desde que o Hamas assumiu o governo de Gaza em 2006.
Nesse contexto, Khalil al-Hayya não foi escolhido apenas por sua trajetória pessoal, mas porque reúne atributos considerados essenciais para essa transição.
Líder histórico do Hamas, profundamente enraizado em Gaza, negociador experiente e sobrevivente de sucessivas tentativas de assassinato que martirizaram diversos membros de sua família, ele sintetiza legitimidade interna, experiência organizacional e capacidade diplomática.
A mensagem política da eleição alcança quatro destinatários.
Para Israel, demonstra que a eliminação física de dirigentes não foi suficiente para desarticular o movimento.
Para a sociedade palestina, reafirma a capacidade do Hamas de preservar sua coesão mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Para os atores regionais, indica que a organização continuará sendo um protagonista central na política palestina.
E, para os Estados Unidos, a eleição de Al-Hayya reforça que qualquer solução duradoura para Gaza dificilmente poderá prescindir de um movimento que, apesar da guerra, preservou sua estrutura, renovou sua liderança e manteve capacidade de negociação. Excluí-lo da equação política parece hoje tão improvável quanto derrotá-lo militarmente.
Se Yahya Sinwar simbolizou o Hamas da guerra, Khalil al-Hayya poderá simbolizar o Hamas do pós-guerra, menos identificado com a administração de Gaza e mais voltado à reconstrução de sua posição como ator nacional palestino e protagonista da disputa política sobre o futuro da Palestina.
(*) Sayid Marcos Tenório é historiador, especialista em Relações Internacionais e analista de geopolítica. É autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.
