Povo indígenas

Juventude Guarani Kaiowá e Nhandewa debate ancestralidade, saúde mental e inclusão LGBT+ no MS

Com 600 participantes na fronteira com o Paraguai, evento fortalece defesa de casas de reza e abre espaço para igualdade

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Juventude Guarani Kaiowá e Nhandewa reunida no Mato Grosso do Sul
Juventude Guarani Kaiowá e Nhandewa reunida no Mato Grosso do Sul | Crédito: Divulgação/Juventude Guarani Kaiowá

Acontece nesta semana, entre segunda-feira (20) e esta sexta-feira (24), o 6º Encontro da Retomada Aty Jovem (RAJ), realizado na Aldeia Pirajuí, em Paranhos (MS), na região de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Reunindo cerca de 600 participantes de diversas aldeias de Mato Grosso do Sul, além de delegações convidadas dos estados do Paraná e de São Paulo, o evento teve como lema “Nossa terra é nossa memória, nossa resistência é nosso futuro”.

Para Germano Alziro, membro da coordenação da RAJ, a promoção do diálogo amplo entre as comunidades é a base primordial para o fortalecimento interno e para a sustentação das lutas coletivas. “A gente dialogando com o outro, consegue entender como realmente vão funcionar as coisas”, disse, apontando que a escuta e a articulação são “as chaves da resistência”.

A programação do encontro teve início oficial na segunda-feira (20), com uma cerimônia de abertura política e cultural que reuniu jovens e lideranças tradicionais. Estiveram presentes representantes de instituições como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Programa Bem Viver e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), além de organizações parceiras.

Na terça-feira (21), os debates centraram-se na organização política e comunitária das aldeias, pautando o enfrentamento ao racismo, às violências estruturais e à criminalização dos povos indígenas nos seus próprios territórios.

Para além das mesas políticas, o dia contou com oficinas voltadas à valorização da identidade cultural e ao resgate dos saberes tradicionais, construindo coletivamente estratégias de autoproteção e sustentação da juventude.

Comentando as dificuldades de enfrentar processos de exclusão e perseguição, Germano Alziro ressalta as barreiras enfrentadas para salvaguardar as tradições. “Nas comunidades ainda há muito esse preconceito, hoje em dia há muita essa intolerância religiosa”, disse.

O coordenador acredita que o enfraquecimento das manifestações originárias muitas vezes é agravado pela disparidade de apoio em comparação com outras frentes religiosas.

Na quarta-feira (22), o encontro concentrou suas atenções na saúde mental, na proteção da vida e na discussão das bases para a criação da Rede de Proteção Nhangareko. O ponto alto do dia foi a realização da assembleia oficial de constituição da rede, um marco de articulação comunitária voltada à defesa física e espiritual dos territórios Guarani Kaiowá e Nhandewa.

Germano manifestou otimismo com a aprovação da iniciativa, ressaltando o papel de amparo prático que o projeto desempenhará nas comunidades mais vulneráveis. “Eu espero que funcione bem, que a rede possa ajudar. A Rede Nhangareko vai ajudar esses jovens, esses rezadores e rezadoras, que possam enfrentar essa dificuldade.”

A atuação da Rede de Proteção Nhangareko terá como foco primordial a blindagem contra as violências sofridas pelas comunidades, visando especificamente combater a queima criminosa de casas de reza e a opressão de base religiosa. A rede assume um compromisso firme de proteger os nhanderu (rezadores) e as nhandesy (rezadoras), preservando a fé e a ancestralidade dos anciãos tradicionais do povo Guarani Kaiowá e Nhandewa contra as perseguições religiosas cotidianas.

Dentro do escopo de autoproteção e de acolhimento social debatido na assembleia de quarta-feira, a juventude trouxe à tona outra temática de extrema relevância: a inclusão e o respeito às pessoas LGBT+ pertencentes às comunidades indígenas. Essa discussão, profundamente associada à Rede Nhangareko, foi impulsionada pela atuação da Juventude Indígena da Diversidade (Juind) nos espaços de deliberação.

Sobre essa inserção, Germano afirma que a aceitação e o acolhimento da diversidade são passos necessários que as comunidades estão aprendendo a incorporar de forma respeitosa.

“Hoje em dia há bastante pessoas da diversidade. Bom a gente ter respeito. Para nós, é uma novidade ainda, mas ao longo do tempo a gente começou a entender como é. Cada pessoa tem uma forma de ver o que quiser”, afirma, acrescentando que a juventude tem sido pioneira ao pautar o respeito em assembleias locais para esclarecer o tema à população em geral.

A quinta-feira (23) foi dedicada ao reavivamento das práticas de espiritualidade tradicional, ancestralidade e cultura por meio de rodas de conversa, debates e oficinas de cantos tradicionais. Em vídeo compartilhado nas redes sociais, Gualói Caiuá, integrante da Juventude Indígena da Diversidade (Juind), destaca que a importância do espaço reside no poder de unificar os territórios desde o Cone Sul até a fronteira seca com o Paraguai.

O encerramento do Encontro da Retomada Aty Jovem aconteceu na manhã desta sexta-feira (24), consolidando os marcos teóricos da Rede Nhangareko e traçando planos para novas articulações territoriais.

O evento aconteceu com o apoio da Itaipu Binacional e do Programa Bem Viver, este último vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), que forneceram a estrutura logística para o encontro.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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