Depois da morte de uma adolescente de 13 anos, que foi coagida a atentar contra a própria vida durante uma live, a plataforma Discord apresentou à Advocacia-Geral da União (AGU) uma proposta para reforçar a segurança dos usuários, especialmente crianças e adolescentes.
Segundo a AGU, a iniciativa ocorre após reuniões com órgãos federais sobre falhas na verificação da idade e na proteção de menores de 18 anos na plataforma. Os detalhes da proposta não foram divulgados. A AGU informou que vai analisar as medidas em conjunto com o Ministério da Justiça e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados.
A psicóloga Karen Scavacini afirma que o episódio acende um alerta de como pais e responsáveis estão lidando com crianças e adolescentes, que têm o uso de telas como parte da rotina. O Discord é uma plataforma em que seus usuários conseguem se comunicar por texto, voz e vídeo, tanto entre eles como em grupos, que são os chamados servidores, que são privados e o acesso é feito apenas por convite.
“Esse processo pode ser bom quando você quer criar uma comunidade de interesse, mas também pode criar ambientes mais fechados, onde, como a gente viu nesse caso, algumas dinâmicas de violência acontecem e acabam ficando invisíveis para quem está de fora”, pontua.
Scavacini explica que esse tipo de coerção não acontece de repente e que há alguns passos importantes: um deles é a criação de vínculo, que gera um sentimento de pertencimento, e, em seguida, a criança ou adolescente sente que precisa ser leal àquela relação.
“O vínculo é uma chave importante para a pessoa se sentir pertencente. Depois eles podem começar com pequenos desafios, que no início podem parecer ‘brincadeiras’, como provas de lealdade. Aí pode começar a humilhação, exposição de informações pessoais, a própria chantagem, ameaças. E aí a violência, de uma certa forma, vai sendo normalizada. Na adolescência, o papel do grupo é muito grande. Nesse ambiente mais fechado, a pessoa pode começar a achar que aquelas regras podem ser normais, especialmente quando há medo de perder o grupo”, afirma.
Karen Scavacini aponta que há alguns sinais de comportamento que podem indicar que algo errado está acontecendo com esse adolescente. Ficar sempre de porta fechada, passar tempo excessivo no celular e querer privacidade podem ser comportamentos comuns nessa fase da vida. No entanto, exigem algum grau de atenção quando somados a outros como ansiedade, isolamento repentino e mudanças no hábito de sono.
“Nas relações online, o adolescente começa a ter medo de falar, fica escondendo conversa e aí, quando você começa a autolesão, ferimentos sem uma explicação clara, pode usar, por exemplo, roupas muito fechadas em dias de sol, de calor. São mudanças emocionais intensas depois do uso da plataforma”, ressalta a psicóloga.
“É fundamental que os pais conheçam esses ambientes em que os filhos estão. E não estou trazendo nenhuma culpabilização para os pais, de forma alguma. Essas mudanças de comportamento também precisam ser observadas nesse dia a dia do adolescente, para que haja uma conversa ou para que haja um olhar ou uma avaliação do que pode estar acontecendo”, pondera Scavacini.
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